Caso de estupro: Saiba como se proteger do golpe ‘Boa noite, Cinderela’

O uso de drogas misturadas às bebidas alcoólicas é uma prática cada vez mais comum em casas noturnas e bares. Como consequência, também aumentam os crimes relacionados a essa prática.

Cuidar da própria bebida e não trocar de copo são dicas para evitar o golpe Boa noite, Cinderela- Flavio Tin/ND

Relatos nas redes sociais apontam para uma maior frequência do golpe Boa Noite, Cinderela. Ele é utilizado por pessoas de má fé, que se aproveitam do estado alterado de suas vítimas para praticar roubos, sequestros e abusos sexuais. Por conta disso, também é conhecida como a droga do estupro.

A prática consiste em misturar diferentes tipos de drogas e medicamentos de uso controlado nas bebidas alcoólicas ou água das vítimas, enquanto elas estão distraídas. Homens e mulheres podem ser vítimas do golpe, já que ficam com a atenção e a memória alteradas, tornando-se vulneráveis às intenções dos golpistas.

Diferente do que acontece em casos de embriaguez, as vítimas dopadas sentem o efeito muito rapidamente, em questão de minutos. Muitas vezes, oscilam entre a consciência e a inconsciência e poucos se lembram do que aconteceu no dia seguinte.

Leia também

“Normalmente o efeito do álcool é gradual e cumulativo e é preciso beber uma quantia muito grande para chegar ao estado de inconsciência ou coma alcoólico”, explica a médica psiquiatra Júlia Trindade. “Já com o ‘boa noite’ o efeito ocorre minutos após a ingestão; a pessoa apaga repentinamente, desmaia ou tem convulsões”, diz.

De acordo com a psiquiatra, dependendo da droga utilizada, a pessoa pode até se sentir bem no início, mas na maior parte das vezes, ela apaga logo depois. “É comum também a alucinação, vômitos, perda de consciência e até o coma”, diz a médica.

A doutora explica que isso acontece porque o álcool potencializa o efeito da droga. Então, se for utilizado um anestésico, por exemplo, junto com o álcool que já deprime o sistema nervoso central e dá sono, o efeito é muito mais intenso.

Drogas utilizadas

A mistura usada nas bebidas varia de acordo com a intenção do agressor. Algumas drogas deixam a pessoa inconsciente, outras levemente acordada, mas com as reações lentas e a memória afetada.

Substâncias com efeito sedativo como o midazolam, que vem na forma de comprimidos que podem ser diluídos nas bebidas, ou as quetaminas, utilizadas no tratamento de depressão, são comuns nesses ‘coquetéis’. “Tanto o midazolam que é indutor anestésico quanto as quetaminas, misturadas às bebidas, podem dar esse efeito de apagar a vítima”, afirma a médica.

Mesmo sendo medicações de uso controlado, com receitas, as quetaminas podem ser adquiridas em agroveterinárias. “Muitos as utilizam em doses menores para dar sensação de euforia e bem-estar”, diz a médica.

Substâncias da moda, como a droga do amor,  visam a hiperestimulação – Sarthak Navjivan

O efeito de euforia e de hipersensibilidade também é o objetivo da “droga do amor”, ou MD (abreviação de Michael Douglas). Comercializada na forma de pó, a droga sintética é uma das substâncias da moda, por ser hiperestimulante e deixar a pessoa com maior sensibilidade ao toque. Da mesma maneira que o ecstasy, a finalidade é aumentar a excitação, portanto nesse caso a pessoa não dorme e pode se lembrar do ocorrido.

No caso de alguém próximo apresentar os sintomas descritos, é importante prestar ajuda e levar a algum pronto-socorro ou hospital para aplicação de antídoto (no caso de diazepínicos ou flunitrazepam – outro medicamento de uso controlado usado para insônia e ansiedade e comumente colocado no Boa Noite Cinderela) e acompanhamento como o monitoramento cardíaco. “O efeito vai passar, mas dependendo da quantidade ingerida, a pessoa pode entrar em coma depois, daí a importância da avaliação médica”.

Como se proteger

“Essas drogas não alteram o sabor da bebida, portanto a pessoa pode tomar sem saber, só vai sentir os sintomas”, explica a Dra. Júlia. Para evitar cair no golpe, a médica recomenda que a pessoa cuide de sua bebida. “Tenha seu próprio copo e evite beber no copo de outras pessoas; não troque de copo nem o deixe sobre a mesa para ir ao banheiro ou dançar”, aponta.

Embora não tenha estatísticas sobre o número de ocorrências desse tipo de golpe, a Polícia Civil de Santa Catarina também alerta sobre as precauções necessárias ao frequentar bares e casas noturnas.

A diretora de Polícia da Grande Florianópolis, delegada Eliane Chaves, lembra que é muito importante estar em um grupo de amigos, onde um protege o outro, sair e voltar juntos para casa. “As pessoas devem atentar para mudanças bruscas de comportamento dos amigos para poder prestar ajuda”, diz.

“Geralmente os golpistas são pessoas bem vestidas, com boa conversa e costumam vir de outras localidades só para aplicar os golpes”, afirma a delegada.

Veja outras medidas protetivas:

– não aceitar bebida, água ou chicletes (há casos em que os golpistas utilizam seringas para injetar substâncias dentro das gomas de mascar, especialmente as com recheio) de pessoas estranhas;
– não sair sozinha(o) com alguém que acabou de conhecer na festa ou balada. Se isso for inevitável, pelo menos apresente a pessoa para algum amigo ou o porteiro do prédio para que ela possa ser identificada, inclusive pelo nome, posteriormente;
– não levar muito dinheiro, vários cartões e documentos ou talão de cheques para a balada. Sair só com o essencial;
– se for rendida(o) por alguém armado e estiver consciente, não reaja;
– caso alguém do grupo esteja passando mal, procure socorro o mais breve possível e não deixe a pessoa sozinha.

Mais conteúdo sobre

Geral