Cemitérios sepultados: mortos ficavam em paredes, piso e perto de igrejas em Florianópolis

Atualizado

Muitas famílias visitam seus entes queridos nos cemitérios de Florianópolis neste sábado (2), Dia de Finados. No entanto, a maioria desconhece a história das necrópoles que foram sepultadas na capital catarinense com o desenvolvimento da cidade.

Só no Centro, havia pelo menos três cemitérios no entorno de igrejas, e um na cabeceira da ponte Hercílio Luz.

Imagem da Catedral Metropolitana documentada entre 1803 e 1804 – Foto: Anderson Coelho/ND

“Vários cemitérios que tivemos na área central foram retirados num processo de urbanização. Especialmente em fins do século 19 e no começo do século 20”, explica a doutora em História Cultural e presidente da Abec (Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais), Elisiana Trilha Castro, que trabalha há 17 anos com o tema da preservação dos cemitérios históricos em Santa Catarina.

Elisiana é autora do TCC ‘Aqui jaz um cemitério: a transferência do cemitério público de Florianópolis (1923-26)’, sobre a retirada do primeiro cemitério público de Florianópolis da cabeceira da ponte Hercílio Luz.

Catedral tinha cemitérios no entorno

Em sua pesquisa, ela verificou também a existência de cemitérios no entorno da Catedral Metropolitana e das igrejas São Francisco de Assis e Nossa Senhora do Rosário, todas localizadas no Centro.

Acervo do MHaas (Memorial Funerário Mathias Haas) – Foto: Anderson Coelho/ND

A informação foi confirmada pela tese de doutorado ‘Os Serviços Funerários na Organização do Espaço e na Qualidade Sócio-ambiental Urbana: Uma contribuição ao estudo das alternativas para as disposições finais funerárias na Ilha de Santa catarina’, apresentada por Dalton da Silva, em 2002.

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No texto, ele afirma que essas igrejas foram construídas a partir de meados do século 18 e serviram como locais para assentamentos funerários.

A Catedral Metropolitana – ou igreja matriz Nossa Senhora do Desterro e Santa Catarina – foi construída em 1712.

Antes disso, existia no local uma capela e o primeiro cemitério da então Nossa Senhora do Desterro.

Dias Velho enterrado no Centro

Segundo a tese de Dalton, “os primeiros assentamentos funerários deram-se no interior e em torno da atual igreja matriz”, inclusive o do fundador da cidade, Francisco Dias Velho, que morreu em 1687.

Com o tempo, cemitérios foram espalhados. Na foto, Cemitério do Itacorubi – Foto: Anderson Coelho/ND

Elisiana explica que “não há nenhuma fonte precisa da localização desses cemitérios sepultados porque eles funcionaram num período em que não havia praticamente registro fotográfico”.

Nem mesmo a Arquidiocese de Florianópolis possui imagens das necrópoles das igrejas em seu arquivo.

Sepultamento em paredes e pisos

Ao longo dos séculos 18 e 19 era comum no Brasil e em boa parte da América que os sepultamentos das religiões católicas fossem feitos nas paredes e piso das igrejas e em seu entorno.

Mau cheiro foi um dos motivos para readequação dos espaços que ficavam no Centro. Na foto, Cemitério do Itacorubi – Foto: Anderson Coelho/ND

“Vários cemitérios ainda continuam no entorno de igrejas. A gente tem aqui o caso de Canasvieiras, ou mesmo do cemitério de Santo Antônio de Lisboa”, lembra Elisiana.

Com o tempo, a prática caiu em desuso e os sepultados dentro das igrejas foram transferidos por suas famílias para cemitérios e ossuários.

Ao longo do século 20, principalmente, com a criação e afirmação do novo modelo de cemitério extramuros, afastados da cidade.

“As inumações realizadas no interior das igrejas passaram a ser alvo de reclames, principalmente pelo forte mau cheiro exalado pela decomposição dos cadáveres e suspeita de que casos epidêmicos tinham ali sua origem”, relatou Dalton em sua tese.

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