Centro Histórico da Capital e seus tradicionais locais de convergência social e cultural

O Centro sempre foi o “local do encontro”, da convivência multissocial e multicultural. Essa característica está nas origens de Desterro.

A história registra que o desenvolvimento da cidade se deu em várias etapas, a partir do núcleo central (Praça 15), com destaque inicial para a região Oeste – ao longo das atuais ruas Conselheiro Mafra, Felipe Schmidt e Tenente Silveira. Foi para esse lado que o comércio primeiro se estabeleceu.

O lado Leste manteve-se durante muito tempo como área residencial e de serviços públicos, agregando depois (século 19) atividades comerciais que orientaram o ritmo do crescimento econômico.

Essas duas regiões formam o Centro Histórico, que ganhou muitas alterações urbanas no correr do século 20, com destaque para a evolução da construção civil, o calçadão central e o aterro da baía Sul – o “enterro do Desterro”, como definiu o falecido vereador Valdemar da Silva Filho (Caruso).

A resistente Kibelândia, fundada em 1968: 51 anos de atividades - Ilustrações Átila Ramos/Divulgação/ND
A resistente Kibelândia, fundada em 1968: 51 anos de atividades – Ilustrações Átila Ramos/Divulgação/ND

Mas, por ser o “local do encontro”, da convergência social e cultural, o Centro conservou por décadas algumas alternativas de lazer e entretenimento, como bares, restaurantes e boates, que atraíam um público diversificado, da gente mais simples até a mais sofisticada e intelectualizada. Em 2012, o artista plástico Átila Ramos apresentou numa exposição aquarelas que retratam parte desse circuito de bares que movimentaram a cidade. Átila fala com paixão do trabalho que fez e continua em seu estúdio: está pintando mais bares, para uma nova mostra, com o mesmo objetivo – resgatar e preservar uma parte importante da memória da Capital. “A vida social e cultural de Florianópolis passou pelos muitos bares e cafés que tivemos nas décadas de 1940 a 1970”, lembra, assinalando que “esses lugares eram badalados e nem sempre os frequentadores iam aos bares para ‘encher a cara’, mas para conviver e conversar com amigos e conhecidos”.

Refundação da vida boêmia passa por resistências

A maioria dos bares e cafés tradicionais foi desaparecendo à medida que Florianópolis cresceu e impôs novos valores, inclusive dos aluguéis, que se tornaram caríssimos, inviabilizando muitas das iniciativas. Da década de 1960 sobrevivem na área central apenas a Kibelândia, que é de 1968, e o antigo Petit (hoje Canto do Noel).

A especulação imobiliária foi responsável, em grande parte, pela decadência do circuito de bares no Centro. O fechamento do Terminal Cidade de Florianópolis, em 2004, foi outro fator importante, porque a queda no movimento de pedestres resultou na falência generalizada do comércio local. 

Mais recentemente, o surgimento de alternativas de entretenimento no lado Leste, como o Tralharia, o Taliesyn, o Gato Mamado e o Madalena, entre outras, pode ser entendido como uma refundação da vida boêmia no Centro Histórico. Mas há resistências no âmbito do poder público e também de moradores da região. Há algumas propostas em andamento para transformar a região. Mas alguns empreendedores alternativos, que preferem não se identificar, por razões óbvias, questionam as pressões do poder público, acusando a tentativa de gentrificação ou gourmetização da região Leste, como ocorreu com o vão central do Mercado Público, elitizado após a reforma concluída em 2015.

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