Chargista do ND presta homenagem ao criador de Asterix, morto na França

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Um dos criadores do personagem de história em quadrinhos “Asterix”, o francês Albert Uderzo, morreu nesta terça-feira (24) aos 92 anos, em Neuilly, região metropolitana de Paris, na França, segundo comunicado da família. Ao lado de René Goscinny, Uderzo produziu os gauleses Asterix e Obelix, dois dos personagens mais carismáticos das histórias em quadrinhos, com 370 milhões de exemplares vendidos e traduções para 11 línguas e dialetos, além de influenciar ilustradores e quadrinista de todo o mundo, como Ricardo Manhães, chargista do ND.

Desenho feito por Manhães em homenagem à Uderzo. Reprodução Ricardo Manhães/ND

O leitor do ND que confere diariamente o trabalho do ilustrador Ricardo Manhaes, 48 anos, pode ter a certeza de que cada charge tem uma “pontinha” do traço de Uderzo. Foi graças ao ilustrador francês que o brasileiro seguiu o estilo de desenho franco-belga de humor, e há mais de 20 anos trabalha para o mercado europeu de quadrinhos de humor, como desenhista e colorista.

Para homenagear Uderzo, Manhaes publicou ainda na terça-feira nas redes sociais um desenho feito por ele em homenagem aos personagens Asterix e Obelix. “Tive o privilégio de ser o único latino americano convidado a participar do álbum Concilie à Bulles, lançado na Bélgica em 2014 em homenagem aos personagens”, conta. No desenho, Asterix e Obelix visitam um tribo indígena na Amazônia, que a exemplo dos gauleses, também precisa lidar com invasores.

Ricardo Manhães trabalha há mais de 20 anos para o mercado europeu de quadrinhos. Foto: Arquivo Pessoal/ND

Para Manhães, é por causa de artistas como Uderzo que é possível perceber a importância da criação de personagens e que impactam no imaginário de muitas gerações. Tanto que o próprio Manhães resolveu relançar um álbum com sua personagem, Gothic Girl, a gótica divertida que já havia sido lançada na Europa, com grande aceitação no mercado brasileiro.

Por uma dessas razões, Manhães coloca Uderzo no mesmo patamar de grandes desenhistas do mundo. “O mundo não é francófono, então aqui no Brasil temos mais a influência de personagens de Walt Disney, mas com certeza muitas gerações de crianças, adolescentes e jovens de vários países do mundo e também no Brasil cultuaram Asterix”, ressalta.

Manhães lembra também que Uderzo resistiu à industrialização dos personagens criados por ele e Roscinny. “Ele continuou desenhando álbum por álbum até os 88 anos. Ele se negava a tornar industrial o processo de elaboração do Asterix”, afirma.

Publicações de Ricardo Manhães. Foto: Divulgação/ND

Para o chargista e ilustrador, uma das receitas do sucesso de Asterix é o estilo de humor franco-belga, combinada com estética da Escola de Marsinelle, que influenciou gerações de artistas da Europa. “É um estilo de desenho com traço mais redondo, o que procuro fazer nas charges do ND”. Outro ingrediente é o fato de Asterix ser um anti-herói, o que aproxima a personagem mais da realidade. “Não vejo um herói como representação da realidade, e com o humor, ele capta a gente com um outro tipo de abordagem”, explica.

Uderzo morreu dormindo

De acordo com o genro de Uderzo, Bernard de Choisy, “Albert Uderzo morreu dormindo em sua casa, em Neuilly, de um ataque cardíaco não relacionado ao coronavírus. Ele estava muito cansado há várias semanas”. O ilustrador nasceu em 25 de abril de 1927, perto de Reims, e era filho de imigrantes italianos. No final dos anos 1940, foi um dos desenhistas de maior sucesso da sua geração, apesar de ser daltônico.

Em 1951, Uderzo conheceu então o talentoso contador de histórias Goscinny. Juntos, eles produziram várias séries. Os primeiros trabalhos foram Oumpah-pah, Jehan Pistolet e Luc Junior. O maior sucesso, começou em 1959 quase que por acaso, com as aventuras do gaulês de bigode loiro, numa época em que o milagre econômico dominava a Europa e os heróis protagonizavam histórias de amor, salvavam moças e se apaixonavam.

Uberzo e Goscinny receberam a missão de criar histórias em quadrinhos sobre uma fábula medieval europeia (Le Roman de Renard) que tinha como personagem uma raposa, para o lançamento da revista francesa Pilote. Porém, após escrever e desenhar a primeira página, a dupla descobriu que outro autor já fazia a mesma tarefa, e decidiram criar os anti-heróis Asterix e Obelix em apenas uma noite.

A primeira aventura foi publicada na mesma revista Pilote antes do lançamento do primeiro álbum na França, dois anos depois, com Asterix, o Gaulês (Asterix le Gaulois). No início, os dois assumiam ambas as funções, tanto de desenhista como de autor. Mas logo optaram por uma divisão: Goscinny assumiu os textos, e Uderzo passou a se encarregar do traço. Com humor e senso de observação, os personagens rebeldes, mas simpáticos e justos, se tornaram um sucesso de crítica e um fenômeno de vendas, transpondo as páginas dos livros: 12 filmes de animação foram produzidos, um parque temático nas proximidades de Paris foi inaugurado em 1989 e centenas de produtos de merchandising foram concebidos.

Em 1977, quando Goscinny morreu, a dupla já tinha lançado 24 álbuns. Uderzo continuou a série como ilustrador e escritor. A primeira história criada apenas por ele, “O Grande Fosso” (Le Grand Foss), foi publicada em 1980. No início de 2009, Uderzo, que sofria de artrose, afastou-se cada vez mais da mesa de desenho. Dois anos depois, entregou o bastão para colegas mais jovens, mas continuou supervisionando os trabalhos. O primeiro volume de Asterix feito por Jean-Yves Ferri e Didier Conrad, “Asterix entre os Pictos”, foi publicado em outubro de 2013. A última obra, “A filha de Vercingétorix”, também feita por Jean-Yves Ferri e Didier Conrad, foi lançada em outubro de 2019, para celebrar o 60º aniversário da primeira edição.

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