Cidade esvaziada e isolamento: Florianópolis revive cenário 100 anos após gripe espanhola

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Comércio em funcionamento restrito, escolas fechadas, cerimônias religiosas suspensas e ruas desertas. Trata-se do cenário que ilustra o momento atual, com a pandemia do novo coronavírus.

Engana-se, no entanto, quem pensa que é uma realidade inédita em Santa Catarina. Há um século, Florianópolis fora acometida pela gripe espanhola, que infectou cerca de 30% da população, e matou ao menos 126 pessoas.

Pacientes internados em local improvisado: vítimas da Gripe Espanhola entre 1918 e 1919 – Foto: R7/divulgação/ND

No Brasil foram, estima-se, 30 mil mortes oriundas da peste que chegou ao país de navio. O presidente da República na época, Rodrigues Alves, eleito cinco meses antes para seu segundo mandato, restara como uma das vítimas mais “ilustres” do surto.

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Os primeiros registros apontam para a chegada do vírus em agosto de 1918, no porto de Recife (PE). De lá, escorreu por Salvador (BA) e Rio de Janeiro (RJ).

A descida respeitou o litoral rumo ao Sul do País, antes de chegar ao Uruguai e Argentina ainda em 1918.

Em Florianópolis o primeiro diagnóstico foi dado em 23 de setembro daquele ano. Houve um pico de contágio de pelo menos 50 dias, em que aproximadamente 10 mil pessoas foram infectadas. Na época, a Capital catarinense tinha uma população estimada em quase 40 mil pessoas.

Para Rodrigo Rosa, historiador junto à FCC (Fundação Catarinense de Cultura), os momentos, apesar de um hiato de 100 anos, são “plenamente comparáveis”.

“São cenários plenamente comparáveis, os ritmos pelos quais os vírus avançam são semelhantes. As pessoas no início duvidavam, e a imprensa à época não se propunha muito a falar. Depois que a gripe toma, conta as pessoas reagem com muito medo. A partir daí as coisas vão fechando e sendo afetadas paulatinamente”, contou Rodrigo, que também é professor.

Pico do contágio e perda de fôlego

Com a restrição dos serviços e a reclusão das pessoas, o dia a dia foi esvaziado e ganhou até um contexto meio fantasmagórico.

O Jornal O Estado, em 16 de novembro de 1918, estampou na manchete principal a preocupação com a parcela mais pobre da população: “A situação dos nossos pobres é afflictiva e impressionante”.

Capa do Jornal O Estado em 16 de Novembro de 1918 – Foto: O Estado/Hemeroteca SC/divulgação/ND

Ao passo que a doença avançava, as administrações municipais tiveram que restringir o convívio e passaram a orientar, inclusive, a suspensão de visitas e apertos de mão. Agrupamentos e junções eram tolhidas e, para Rodrigo, foi uma medida acertada tanto na ocasião, como agora.

“Os governantes atuais podem muito bem se espelhar na administração da época”, observou o historiador.

Cessado o pico de infecção, aos poucos o vírus foi cedendo. Em Florianópolis, em janeiro de 1919, a doença já não tinha tanta força e, de acordo com os registros, o próprio Carnaval daquele ano pôde ser mantido.

Em março foram três diagnósticos, até encerrar o mês de abril sem nenhum, momento em que oficialmente a gripe fora “exterminada” em terras catarinenses.

No Brasil, registros indicam que o surto teve as últimas vítimas em agosto de 1919, menos de um ano depois de ter ingressado em terras tupiniquins.

Faltaram caixões no Rio de Janeiro

Como o Rio de Janeiro era a capital do Brasil na época, a disseminação do surto foi completamente descontrolada naquela região.

De acordo com Reinaldo Lohn, historiador do Departamento de História da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), os cariocas foram as maiores vítimas por causa da vulnerabilidade da Cidade Maravilhosa.

Ele revela que o governo tentou emplacar um decreto de férias por uma sequência de três dias, mas que, com o passar do tempo, se mostrou ineficiente.

“Falamos de um período em que o País praticamente não tinha mecanismos de proteção social e de assistência médica pública em larga escala. Grande contingente da população vivia de empregos que necessitavam de grande concentração urbana de mão de obra nas ruas, em fábricas, em grandes plantações agrícolas. Não havia como evitar”, exemplificou.

O Rio de Janeiro chegou a limitar os atos fúnebres a oito pessoas, sendo que quatro poderiam carregar os caixões. Houve registros de casas que ficaram para trás, abandonadas, com corpos em estado avançado de putrefação.

A origem da gripe longe da Espanha

Apesar de levar a Espanha como codinome, a influenza da época não tinha relação com os espanhóis. Só foi dada em função de periódicos da época que reiteradamente passaram a noticiar a pandemia.

“A Espanha levou a fama, pois deu espaço e notícia para a gripe”, resumiu Rodrigo Rosa.

Estima-se que a gripe contaminou 600 milhões de pessoas em todo o Planeta. Foram entre 20 e 100 milhões de mortes por graves complicações respiratórias causadas pelo vírus.

De acordo com os historiadores, a gripe denominada espanhola teve origem nos Estados Unidos e foi um resultado direto da Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918).

Além da destruição estrutural efeito da guerra, as condições mínimas de saúde pública dos países em conflito, junto à aglomeração de pessoas em condições vulneráveis, corroboraram para a infestação do vírus.

Reinaldo Lohn, no entanto, traz mais um dado que acentuou e espalhou a doença pelo Planeta:

“O início do século 20 marca uma leva de avanços tecnológicos, especialmente na possibilidade de transportes em nível internacional, com as navegações em larga escala por navios muito avançados, capazes de levar milhões de um ponto a outro do planeta”, finalizou.

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