Cinquenta e oito anos depois, o espectro de Jânio Quadros ainda influencia eleitores

Em pleno 2018 ainda há quem lembre da delirante campanha do "homem da vassoura", que se elegeu presidente, mas não conseguiu governar

Clássica foto de Foto Ênio Schneider, Jornal do Brasil, abril de 1961. Jânio em Uruguaiana/RS. A foto ganhou o Prêmio Esso - Divulgação Ênio Schneider/JB/ND
Clássica foto de  Ênio Schneider, Jornal do Brasil, abril de 1961. Jânio em Uruguaiana/RS. A foto ganhou o Prêmio Esso – Divulgação Ênio Schneider/JB/ND

Jânio com seu símbolo de campanha: a vassoura com a qual pretendia
Jânio com seu símbolo de campanha: a vassoura com a qual pretendia “varrer a corrupção” – Divulgação

– Sou da vassoura até hoje, me diz o homem sorridente, cabelos pintados de preto, cerca de 80 anos de idade. Em seguida, simula com os dois braços que está varrendo o chão de sua loja.

A afirmação, plena de orgulho, veio na sequência de um diálogo, que começou na minha chegada à loja, em busca de um produto.

– Tô lhe conhecendo. O amigo é ‘tripeiro’ (natural do Estreito)?

– Não senhor, morei aqui por alguns anos, mas faz muito tempo, nem lembro a rua, nada.

– Mas e os seus pais, eram ou são ‘tripeiros’?

– Não, senhor, meu pai era natural da Lagoa da Conceição. Minha mãe nasceu em Bom Retiro, onde passou toda sua juventude, até se casar.

– Bom Retiro? – Morei lá. Meu pai tinha negócio lá

A seguir pergunta sobre a família de minha mãe. Explico de forma mais fácil:

– Sou sobrinho do Flares, que foi prefeito.

– Ele era dos nossos (UDN). Estivemos juntos na campanha do Jânio Quadros, em 1960.

É neste ponto que entra a história da vassoura.

– Mas por que o senhor é “da vassoura” até hoje?

– Porque o Brasil precisa de uma boa limpeza, aquela proposta do Jânio, de varrer a sujeira da corrupção.

De fato, o jingle de Jânio era forte, aproveitava eventuais denúncias contra seu antecessor, o presidente Juscelino Kubitscheck.

A letra do jingle era um primor, talvez um dos melhores jingles de campanha já bolados no Brasil, de fácil apelo popular:

“Varre, varre, varre, varre vassourinha!

Varre, varre a bandalheira!

Que o povo já tá cansado

De sofrer dessa maneira

Jânio Quadros é a esperança desse povo abandonado!

Jânio Quadros é a certeza de um Brasil moralizado!

Alerta, meu irmão!

Vassoura, conterrâneo!

Vamos vencer com Jânio!”

Estilo Jânio: cabelos em desalinho, discurso contundente - Divulgação
Estilo Jânio: cabelos em desalinho, discurso contundente – Divulgação

A campanha de Jânio mobilizou multidões. Ele pertencia a um partido inexpressivo (PTN – Partido Trabalhista Nacional), com apoio do PDC (Partido Democrata Cristão) e, no auge do processo eleitoral, ganhou a adesão da UDN (União Democrática Nacional), legenda de formação  conservadora, equivalente hoje ao DEM/PSDB. Era um líder populista de direita, com discurso moralista e reacionário. Um contraponto “perfeito” dos conservadores ao estilo moderno e inovador de JK, cujo governo foi apoiado pelos getulistas do PTB e progressistas em geral. JK era chamado de “o presidente Bossa Nova”, numa alusão ao movimento musical que está completando 60 anos em 2018.

O candidato da situação em 1960 era o marechal Henrique Teixeira Lott, que atuou contra os golpistas assanhados no período entre o suicídio de Vargas (1954) e a eleição de JK (1955). Tornou-se ministro da Guerra de JK. Sua candidatura teve o apoio do PTB e de vários segmentos de esquerda.

 Eleição do vice

Encurtando a história: Jânio venceu com 48,26% dos votos, foi vitorioso em 16 Estados, inclusive Santa Catarina. Lott ficou em segundo, com 32,94% dos votos, vitorioso em 8 Estados e o Distrito Federal. O terceiro colocado foi Adhemar de Barros, do PSP (Partido Social Progressista), com 18,79% dos votos, vencedor apenas em seu Estado, São Paulo.

Interessante lembrar que o vice-presidente era escolhido separadamente, era outra eleição. O vencedor em 1960 foi João Goulart (PTB), que já havia sido vice na administração de JK. Teve 4,5 milhões de votos e ganhou em 18 Estados mais o Distrito Federal.

Jânio tomou posse, arrumou um monte de confusões (proibiu o uso de biquínis nas praias e piscinas, por exemplo). Sem apoio do Congresso Nacional, porque não tinha base política, renunciou sete meses depois. A partir daí começou a novela sobre a posse de Goulart, um político progressista, com formação de esquerda. Golpistas que agiram contra Getúlio voltaram à cena, agora para impedir a posse do vice escolhido pela população. Foi nessa ocasião que o Brasil viveu sua primeira e única experiência parlamentarista no regime republicano. Tancredo Neves, avô de Aécio Neves (PSDB), foi o primeiro-ministro escolhido, mas o sistema durou pouco tempo. De setembro de 1961 a julho de 1962, mês em que João Goulart tornou-se presidente de fato. Mas os golpistas que agiram no segundo governo de Getúlio – e provocaram seu suicídio em 1954 – estavam sempre vigilantes. A UDN, apoiada pelo grande empresariado nacional e pela mídia tramou a derrubada de Goulart ao longo de 1963 e dos primeiros meses de 1964, conseguindo derrubá-lo, por meio de um golpe de Estado, em 1 de abril de 1964.

 O gesto final

Para encerrar a conversa com o comerciante janista pergunto quem seria o “da vassoura” na atualidade. Ele pensa um pouco, simula um gesto com a mão direita, apontando o indicador e levantando o polegar. Eu pago a conta e saio rapidinho.