Circo instalado na Grande Florianópolis transmite lives para manter artistas

O Circo Rakmer armou a grande lona em março, quando começou a pandemia do novo coronavírus. Desde então, tem que manter 40 artistas

Que atire a pipoca quem nunca sorriu ao ver as luzes do picadeiro acenderem e rodar freneticamente pela lona do circo. Quem nunca quis rodopiar como a acrobata, rir sem parar com o palhaço ou se arriscar no globo da morte pode ter perdido um pedaço da história da própria vida.

O circo faz parte do sonho de mágica e beleza de muitas crianças que mesmo adultas terão lembranças daquela tarde de domingo no circo. Para outras crianças, brincar com o palhaço e correr no picadeiro é uma realidade desde os primeiros anos. Foi assim com o Fernando que aos dois anos fazia gracinhas para o público do Circo Hermanos Rodriguez, em Mato Grosso do Sul.

Circo Rakmer está armado em São José – Foto: Anderson Coelho/ND

O avô de Fernando, Lídio Rodriguez, era o dono do circo de origem sul mato-grossense e de vida itinerante como é a maioria dos circos brasileiros. Um dia, há muitos anos, o Circo Hermanos Rodriguez parou, ergueu a lona e montou o picadeiro no interior do Rio Grande do Sul. Ali na pequena cidade um rapaz se encantou com a trapezista e a história do palhaço que rouba mulher não vingou.

O dito rapaz gostou tanto da trapezista que deixou a vida sem cor e seguiu o colorido da lona e da saia da moça que rodopiava no alto do picadeiro. A moça era Lídia, filha do dono do circo.

Dessa história nasceu Fernando que honra a quinta geração da família circense de seu Lídio Rodriguez, falecido ano passado em Campo Grande (MS), ao ser um dos ícones do grande espetáculo, o palhaço.

Batata em inglês

Fernando Fernandes na certidão de nascimento é Potato (pronúncia de batata em inglês) quase todas as horas do dia, pois palhaço não tem lá muita folga ou pelo menos não tinha.

Desde o início da pandemia do novo coronavírus o jovem palhaço está meio perdido sem a rotina de risos e aplausos. O decreto que suspendeu a realização de eventos foi publicado nos primeiros dias da temporada do Circo Rakmer na Grande Florianópolis.

“Levantar todo dia e não ter o que fazer, não saber o que fazer é muito difícil. Eu tento criar uma rotina, mas não é fácil. Isso não é folga, não é férias. É uma situação que não dá nem para fazer piada. A incerteza é o que torna tudo ainda mais difícil”, comenta Fernando.

O palhaço Potato é jovem mas já viveu a experiência de não poder se apresentar por causa de um vírus ameaçador. Em 2009, quando houve a pandemia do vírus H1N1, o circo em que ele trabalhava não pode se apresentar em algumas cidades do Rio Grande do Sul.

Mas a atual pandemia nem se compara com aquela. “Já estamos há quase três meses sem trabalhar e não temos nem como ir para outra cidade porque está tudo suspenso”, reclama.

Palhaço Potato estreou nas lives em abril – Foto: Anderson Coelho/ND

Faltam os risos e aplausos do respeitável público

O que alimenta a alma do artista é a inspiração e os aplausos. No caso do palhaço o aplauso e o riso inspiram a próxima graça que vai deixar a plateia ainda mais eufórica, ansiosa pela gargalhada que balança o corpo e liberta a mente das preocupações cotidianas.

A pandemia trouxe muitos desafios para as famílias circenses, entre eles fazer uma apresentação sem público e pela internet. Entre tantas preocupações técnicas, a insegurança de realizar um espetáculo para um circo vazio e cheio de ecos foi o maior problema. As palmas são o termômetro de qualquer performance e no circo elas conduzem os artistas.

“Foi muito difícil fazer piada e não ouvir a risada do público. Alguns números eu não apresentei porque eles existem apenas com a participação da plateia”, comenta Fernando, o palhaço Potato.

Na primeira live do Circo Rakmer, em abril, Fernando estava mais nervoso que o habitual. O frio na barriga foi potencializado pelo desconhecido. Como seria fazer a performance para dois celulares? Potato sorri e conta que o nervosismo demorou um pouco mais que o habitual, mas foi embora e o espetáculo aconteceu. “Nas outras lives (houve mais duas) eu estava mais à vontade. Essa experiência eu vou levar para a vida toda”, afirma.

Aplausos fizeram falta

As gêmeas acrobatas Roseane Kalyne e Rosane Katalyne são acostumadas a ouvir vários “Oh!” de surpresa e admiração do público. Elas são as moças ágeis que descem, sobem, giram e dançam no tecido aéreo.

Aplausos, suspiros e assovios apenas os que estão gravados na memória das artistas circenses. “A live foi muito boa, eu estava um pouco nervosa. Mas o que senti mesmo foi a falta dos aplausos”, conta Roseane.

Elas começaram cedo, por volta dos 7 anos, a fazer o balé com os cachorrinhos do circo. As gêmeas, que há quase 10 anos bailam no tecido, estão há três meses mantendo os treinos e exercícios para não perderem a habilidade e a resistência.

“Estamos acostumadas a apresentações diárias e ficar paradas está sendo difícil. Ensaiamos todos os dias torcendo para que possamos voltar logo ao trabalho”, comenta Roseane.

Com cadeiras afastadas e diminuindo a capacidade, circo começa a se preparar para voltar às atividades – Foto: Anderson Coelho/ND

Nova estratégia busca conquistar o público pelo paladar

As lives transmitidas pelas redes sociais do Circo Rakmer foram vistas por milhares de pessoas, mais de 40 mil apenas uma delas, e continua disponível nos canais do circo.

Como fazer o espectador numa tela de smartphone ou mesmo pela televisão ser transportado para a lona colorida? Feche os olhos e imagine a banda tocando e logo depois um vozeirão que diz: “Senhoras, senhores e crianças, o espetáculo vai começar!”

Quem apresenta os artistas, pede aplausos e faz escada para muitos números é de Jeferson Rakmer, o proprietário do circo. Conhecido no meio circense como Fuça, Jeferson é a voz estimulante dentro e fora do picadeiro. Mesmo com as dificuldades que o circo enfrenta, ele mantém toda a equipe unida. Ninguém foi dispensado e no que depender dele, isso não ocorrerá.

A arrecadação das duas primeiras lives é considerada muito boa por Jeferson, a terceira, apresentada no Dia das Mães, teve um público maior. “Depois soubemos que o Rei Roberto Carlos estava se apresentando também. Não dava para concorrer”, comenta sorrindo.

Rakmer levou o circo para as casas das pessoas pelos meios digitais e agora pretende pegar o público pelo paladar. Há duas semanas ele teve a ideia de oferecer as delícias do circo para quem quiser o gostinho da pipoca, da maçã do amor e outras guloseimas que fazem parte do pacote da diversão no circo. “Temos que nos virar de todo jeito. O que sabemos fazer é isso, o circo não é só nossa profissão, é nossa tradição, nossa cultura”, afirma Jeferson Rakmer.

O Circo Rakmer emprega 40 artistas e tem contado com doações para manter as famílias. ONGs, pessoas físicas e a Prefeitura de São José já fizeram entrega de cestas básicas, uma empresa doou botijões de gás, o shopping proprietário do terreno onde o circo está armado em São José não está cobrando o aluguel do espaço.

“Nós somos muito gratos pela generosidade, pelo carinho que temos recebido. Mas o que nós queremos mesmo é voltar a trabalhar”, salienta Rakmer.

Expectativa de retorno

Da quarta geração de uma família circense de Campinas (SP), Rodrigo Araújo foi trapezista, malabarista e técnico de som e luz antes de se tornar gerente do Circo Rakmer.

Assim como os demais colegas, Rodrigo não tem o circo como profissão e sim como tradição e ao contrário da maioria dos trabalhadores, ele e os colegas do circo não têm como contar com a ajuda de familiares em momentos difíceis como o atual.

“Não podemos pedir ajuda de ninguém da família porque todos estão passando pela mesma situação, todos são de circo e estão sem trabalhar”, aponta.

Rodrigo conta que ele, o palhaço Potato e o próprio Jeferson Rakmer tentaram vagas de emprego, mas não conseguiram por falta de qualificação. A esposa de Rodrigo, que é trapezista, está fazendo trufas e vendendo na rua para ajudar a pagar as despesas domésticas.

A expectativa de Rodrigo é que a Prefeitura de São José libere a realização de espetáculos. “O decreto do governador que passou para os municípios decidirem o que fazer nas cidades trouxe esperança para todos nós”, comenta.

A animação resultou no preparo da arquibancada para receber o público com segurança. O local, que tem capacidade para 900 pessoas, poderá receber 200. As cadeiras estão dispostas com distância de 1,5m entre elas.

O camarote foi desativado para que os artistas possam se apresentar livremente, sem o uso de máscaras, cujo uso será obrigatório para o público. Além disso, haverá álcool para a higienização das mãos e as lonas laterais serão erguidas para a circulação do ar.

Auxílio para a cultura

A Câmara dos Deputados aprovou na semana passada o pagamento de um auxílio emergencial de R$ 600, em três parcelas, para os trabalhadores da área cultural.

O projeto ainda será votado no Senado e, se aprovado, deve ser sancionado pelo presidente da República. De acordo com o PL (Projeto de Lei), o auxílio está limitado a dois membros da mesma unidade familiar. A mulher provedora de família monoparental receberá duas cotas (R$ 1,2 mil).

Serviço

O Circo Rakmer está armado no estacionamento do Shopping Itaguaçu, em São José. Quem tiver interesse em encomendar doces, pipoca, maçã do amor, bolas coloridas ou fazer alguma doação pode entrar em contato pelo telefone (48) 99192-4511.

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