Clima de intolerância também afeta Câmara da Capital

Vereadores sempre tiveram relações marcadas pela fidalguia e respeito mútuo, mas isso mudou na atual legislatura

À falta de harmonia entre os parlamentares, predomina uma guerra (nem sempre surda) - Divulgação Pixabay
À falta de harmonia entre os parlamentares, predomina uma guerra (nem sempre surda) – Divulgação Pixabay

Quem circula pelas ruas Anita Garibaldi e Padre Miguelinho, nas imediações da Câmara de Florianópolis, há de ter notado que em certos momentos do dia há uma aglomeração esquisita na rampa de acesso ao Legislativo. Normalmente são vereadores e seus assessores, que deixam o plenário da Casa para demonstrar algum tipo de descontentamento político. Em especial quando os colegas da oposição – da pequena bancada de esquerda – ocupam a tribuna para discursar. Eles fazem questão de não dar plateia para os pronunciamentos de Lino Peres (PT) e Afrânio Boppré (PSOL). Na falta de outro lugar, concentram-se na rampa, chamando a atenção de quem passa pelo local.
Recentemente, três momentos foram marcados por conflitos ostensivos entre a minoria e a maioria. Primeiro, a votação da moção de solidariedade à professora Marlene de Fáveri (Udesc), processada por uma ex-aluna sob a acusação de praticar doutrina feminista em suas aulas (Marlene é professora justamente de “História e Relações de Gênero”).
O segundo momento foi na votação de uma moção de repúdio à violenta repressão policial contra manifestantes que promoviam um protesto em Brasília no fim de maio. O terceiro, também marcado pela ácida atuação de alguns vereadores de direita, foi a votação de uma moção de repúdio ao massacre de oito camponeses no Norte do Brasil, praticado por policiais militares a serviço de fazendeiros do Pará.
Historicamente, esquerda e direita sempre conviveram bem na Câmara da Capital. Havia no passado uma relação de fidalguia entre as correntes adversárias, com destaque para personagens como Edison Andrino (PMDB), político progressista que marcou época no parlamento municipal, passando por Sérgio Grando (PCB), Ricardo Baratieri (PCB, hoje PT), Liacarmem Klein (PCdoB), João Ghizoni (PCdoB), Angela Albino (PCdoB), Márcio Souza (PT), Ricardo Vieira (PCdoB), Lázaro Daniel (PT), Mauro Passos (PT), Nildão Freire (PCdoB, hoje PT), entre outros.
Ou seja, mesmo nos momentos mais críticos da política nacional, até durante a ditadura civil-militar, os representantes populares progressistas tinham o respeito de seus colegas, fossem do PDS (hoje PP), PFL (hoje DEM e PSD) ou mesmo da ala mais conservadora do PMDB.
A falta de sintonia em plenário reflete, de alguma maneira, o clima de ódio e intolerância que se instalou no país após a vitória da presidenta Dilma Rousseff (PT), em 2014. Situação que só piora as práticas democráticas.

Em tempo: apesar de a Cãmara de Florianópolis ter rejeitado moção de apoio à professora Marlene de Fáveri, ela recebeu a solidariedade da Assembleia Legislativa catarinense, de associações de docentes, intelectuais, universidades, entidades profissionais e estudantis de todo o Brasil.

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