Clubes tentam resistir ao tempo e manter os tradicionais bailes de carnaval com trajes de gala

Bruno Ropelato/Reprodução/ND

Carnaval no clube Paula Ramos

Até a década de 1990 os grandes eventos do carnaval, fora os desfiles das escolas de samba e alguns blocos de rua, eram realizados nos clubes sociais. Centenas de pessoas se preparavam com fantasias e trajes de gala para os tradicionais bailes de carnaval. A partir dos anos 2000, aos poucos essas festas foram dando lugar ao carnaval de rua, aos novos blocos e shows de multidão. As músicas também começaram a mudar, entrou o axé, o funk e as baladas eletrônicas se multiplicaram em meio às marchinhas e o samba. Hoje os clubes resistem ao tempo e tentam manter a tradição principalmente com os bailes infantis. O único que resiste com baile tradicional, como era naqueles tempos e traje de gala, é o do clube 1º de junho, em São José.

Uma das atrações dos bailes eram os concursos de princesas, rainha e de fantasia. A presença de autoridades e pessoas conhecidas da sociedade também atraia a atenção do público. Nesta época, se fosse há uns 20 anos, o jornalista Fenelon Damiani, já estaria preparando seu smoking para apresentar o concurso de fantasias do Baile Municipal do Clube Doze de Agosto de Florianópolis. Era o mais tradicional, que reunia a nata da sociedade catarinense. Os quesitos do concurso de fantasias eram originalidade e luxo e sempre tinham que remeter a um assunto voltado à ilha.

Ele lembra que nos dias de desfile a avenida Hercílio Luz, onde está a estrutura do clube até hoje, ficava cheia de gente à espera dos convidados do baile, que também era conhecido pela elegância dos participantes. Só entravam os sócios, convidados e quem tinha boas condições financeiras. “Só podia entrar de smoking, fantasia ou como bloco. As fantasias eram rigorosas, luxuosas. A nata da sociedade comparecia, o convite era caro e por isso reunia tantos curiosos na rua. Era um baile cheiroso. Pela elegância, todos pulavam até cinco ou seis horas da manhã sem tirar o paletó e a gravata borboleta”, lembra Damiani.

Trajes eram importantes em todas as festas

O Baile Municipal era a festa que abria os bailes da cidade. O concurso de fantasias do Doze ficou conhecido e se tornou nacional, nos últimos anos recebia gente do Rio de Janeiro que trazia as fantasias de luxo apresentadas no Copacabana Palace. Os prêmios, além de dinheiro, incluíam reconhecimentos e prêmio da prefeitura e do Estado. Em seguida ao Municipal vinham os bailes do Pinguim, do Hawaí e dos Artistas no LIC (Lagoa Iate Clube). Na mesma semana aconteciam o baile do Lira Tênis Clube e o Vermelho e Preto e o baile das estrelas no Paula Ramos.

Romeu do Rosário Filho, 64, gerente do LIC há 21 anos conta que o último baile mais tradicional do clube foi realizado no ano passado com o baile do Hawai, o clube encerrou na década de 90, bailes tradicionais e temáticos como o baile dos artistas e do pinguim, o último escolhia a garota pinguim. Hoje o baile infantil é o único que continua.  “Fomos perdendo o número de associados e diante do grande número de locais que apresentam festas, a situação fica mais complicada. Antigamente só clubes tinham o carnaval, a banda puxava estilo metal, só músicas de carnaval e hoje as opções são muitas. E esses bailes são mais caros, fica incerto apostar”, afirma.

Para o ex-presidente do Paula Ramos, Humberto Carioni, 69, o momento áureo dos baile de carnaval, foi nana década de 1990. O baile vermelho e preto, além de escolher as rainhas e princesas do clube, também tinha o tradicional desfile de fantasias, que acontecia uma semana do baile dos artistas. Se não tivesse de fantasia ou smoking, os participantes deviam vestir vermelho ou preto, conforme o nome do baile. A orquestra Bloco do Champagne animava a festa, misturando marchinhas e músicas antigas, que chegou a receber 5.000 pessoas.

Rivalidade e parceria entre os clubes

As filas eram grandes, as pessoas iam ao clube com dois dias de antecedência para comprar mesas e camarotes. O ex-presidente do Paula Ramos conta que mais de uma vez precisou fechar as portas e não deixar mais ninguém entrar por questão de segurança. A família de Carioni organizou muitos bailes e apesar da concorrência ele diz que não tinha rivalidade: “Claro que cada um queria fazer o melhor baile, mas a gente frequentava os clubes uns dos outros. A gente convidava os outros diretores para ir ao nosso baile e éramos convidados também, tinha uma ligação. Cada um queria fazer o melhor não tinha essa briga”.

Ele diz que ficaram boas lembranças e que marcou muito a época, “mexeu com a cidade”, como descreve. Mas não acredita que a época retorne e que a tradição se mantenha por muito tempo: “Os jovens não gostam do jeito que era, os mais velhos começaram a se afastar e a concorrência com as boates fizeram o baile esvaziar. O eletrônico deixou a marchinha de lado. Eu saí em 1996 da presidência e retornei em 2004, nesse meio tempo outros tentaram retomar, mas não deu certo, não tem mais aquele ânimo de carnaval”, opina.

Damiani, que apresentava os bailes do Doze, também acredita que a mudança de comportamento do público fez com que os bailes fossem desparecendo aos poucos. “Os blocos de rua tomaram força muito grande e as pessoas que antes só olhavam começaram a participar mais do carnaval de rua. A prefeitura e as entidades, que antes apoiava os bailes, começaram a apoiar o carnaval na rua, colocando bandas e DJs até a madrugada. Hoje os bailes infantis ainda lotam porque não tem muito onde levar as crianças, mas os adultos não.”

Grupo deseja retomar a tradição

Apesar de tantas mudanças, alguns foliões que eram adolescentes e jovens na época em que os bailes começaram a desaparecer preferem manter a tradição, nem que seja adaptado. Com um sentimento nostálgico, três manezinhos da ilha resolveram em 2004 reunir amigos dos tempos de baile e fazer uma festa  à fantasia pra 300 convidados, nos mesmo moldes dos bailes de clube. Para a surpresa dos três, mais de 500 pessoas apareceram e o Baile Municipal da Raça se tornou anual. “A gente que sentiu falta desse tempo es está tentando resgatar. Não imaginava esse ano já quebrou recorde,”, conta Marcos Lacau Silveira, 39, um dos organizadores da festa.

Este ano, o baile que já aconteceu em diversos locais e há dois anos está no P12, em Jurerê Internacional, chegou à 14ª edição. Ano passado reuniu 4.000 pessoas, o público recorde. Apesar de ter um público mais jovem, ele conta que as músicas mantém a tradição, marchinhas e samba. Os DJs e a música eletrônica entram apenas no intervalo entre uma banda e outra, pra continuar animando o público.

Para ele, os bailes acabaram quando eletrônico começou a tomar conta e quando os organizadores foram deixando as festas de lado achando que não havia mais público. “Recebemos gente dos 18 aos 50. A prova que é possível é a nossa festa que está aí há doze anos e cresce a cada ano. Acho que as pessoas não vão mais porque não tem oferta desse tipo de festa. Com samba, marchinha e bateria sempre tem público. Aos poucos consegue resgatar o antigo carnaval”, afirma. 

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