Coisas que passam num piscar de olhos

Usain Bolt cruzando a linha de chegada dos 100 metros rasos. O guepardo atacando mortalmente sua presa em algum lugar remoto nas savanas africanas. Um trem-bala japonês cruzando a estação a quase 600 km/h. Um jato supersônico que passou sobre nossas cabeças agora mesmo. O Bóson de Higgs lançado no acelerador de partículas. Um frame do bater das asas de um colibri. O voo rasante de um falcão-peregrino. 

A luz que atravessou o vidro da janela e que só vi quando respingou na parede do quarto, isso porque se formou na pintura uma sombra meio pálida, que só vi quando balançou a cortina para o lado esquerdo, isso porque o vento que entrou por uma fresta bateu contra o tecido, que só vi agora que estava rasgado numa das pontas, isso porque virei a cabeça contra o sol, que só vi agora porque a luz atravessou o vidro da janela. 

O sinal verde da Ministro Calógeras com a Getúlio Vargas e a Juscelino Kubitscheck. A paciência na fila do Iririú-Centro. O motorista alucinado do Norte-Sul. Os dígitos do taxímetro dos taxistas do aeroporto e da rodoviária. O agente de trânsito que aparece quando você acaba de estacionar o carro num lugar errado. Os créditos de celular com chip da Vivo. A bateria deste celular. O fim de semana de folga dos jornalistas. O aviso de “Ao persistirem os sintomas, o médico deverá ser consultado” no final das propagandas de remédios. A mensagem subliminar da Jequiti. O salário. 

O tempo que levo para me apaixonar todo dia por você. O tempo que levo para decidir que não quero mais te ver. O tempo que levo para dizer teu nome de cinco letras. O tempo que levo para riscar teu nome de cinco letras. O tempo que levo para me emudecer, que é o mesmo tempo que levo para gritar. O tempo que levo para dizer “Eu te amo”, que é o mesmo tempo que levo para dizer “Adeus”. A leveza do tempo. O tempo. 

O amor que foi eterno enquanto durou a madrugada de sábado. O amor que não durou nem a madrugada de sábado. O sábado. A madrugada de domingo. O “Sim” no altar. A assinatura no divórcio. O primeiro beijo. O último beijo. As paixões de Rogemar. A cerveja no copo de Suelen. Os poemas de Caco. Jequiti. Todos os romances publicados por Latino. 

O nascimento de uma onda na praia. A morte de uma onda na praia. A onda na praia. A onda. O pingo da chuva. O cair do pingo da chuva. O barulho do cair do pingo da chuva. A percepção do barulho do cair do pingo da chuva. O sol em Joinville. A praia de Joinville. O zoológico de Joinville. O pingo do i. O oi. O vapt-vupt. O plunct, o plact e zum! E todos os títulos nacionais do Figueirense. 

“Li e concordo com os termos de uso”. E o clique.

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