Coloridas e entalhadas a mão, canoas a remo são as obras de arte dos pescadores de Florianópolis

Aos poucos, elas começam a aparecer entre abril e maio, quando a primeira friagem de outono dispara o gatilho dos cardumes que migram dos estuários do Sul para desova em mar aberto. Imprescindíveis na lida secular nas praias da Ilha durante a espera pela chegada das tainhas, cada vez mais incerta, canoas coloridas e movidas a remo são verdadeiras obras de arte esculpidas em troncos de garapuvus, figueiras e canelas, espécies nativas da mata atlântica que não podem mais ser derrubadas.

Marco Santiago/ND

A canoa Santa Paulina é conservada como um troféu por João Manoel Vieira

De tamanhos variados, os cascos quase sempre são pintados de branco e enfeitados com bordas amarelas, verdes, azuis, vermelhas ou cor de rosa. Em várias delas, pétalas disformes e pequenas estrelas são detalhes rústicos na pintura feita a pincel e tinta naval, com destaque para a marca característica que identifica a Colônia de Pescadores de Florianópolis [Z11]. Na proa, o nome registrado na Capitania dos Portos de Santa Catarina tem significado especial para quem o escolheu e passa a ser tratado como um dos membros da família.

Natália, Ana Maria, Vó Laura,  Luiza, Maria do Carmo, Santa Paulina, Santa Teresinha, Joia Rara… Femininas, a maioria homenageia mulheres, avós, mães, filhas, tias e sobrinhas de pescadores, mas há aquelas que refletem o sentimento de quem é dono. Outras ostentam nomes ou réplicas de imagens de santas de devoção para levar mar adentro algum símbolo da fé cristã que predomina entre os homens da praia.

“A gente se apega, investe em manutenção, gasta tinta, cola e madeira para fazer os remendos, e nem sempre tem retorno”, diz Joel Brito, 59, que mantém duas raridades para licenciadas para a safra deste ano. Com seis metros cada uma preparadas para dois remos de voga, as canoas Joia Rara 1 e 2 são ágeis e adequadas para o mar calmo da Cachoeira do Bom Jesus, Norte da Ilha.

Maiores, embarcações usadas em mar grosso [Lagoinha, Ingleses, Moçambique, Barra da Lagoa, Campeche, Pântano do Sul e Naufragados] são movidas a quatro ou cinco remos. Como não têm lemes, são conduzidas pelo “patrão”, pescador  que ocupa lugar na popa e utiliza pequeno remo de pá para dar direção e manter o ritmo das remadas.

 

Raridade de cinco remos pronta para as tainhas

Os detalhes do casco, as bordas bem acabadas e a força de cinco remos são características próprias da canoa Santa Paulina, preservada como troféu por João Manoel Vieira, o João da Passa, 68, veterano que faz plantão de olho no mar em um dos ranchos improvisados para espera das tainhas na Praia Grande, no limite do Parque Florestal do Rio Vermelho. Com 9,40 metros de comprimento e entalhada a mão em tronco de figueira, é uma das maiores e mais seguras para o mar grosso da costa leste da Ilha. “Só existem duas iguais por aqui, uma na Lagoinha e outra no Santinho”, orgulha-se.

Marco Santiago/ND

Normalmente as canoas recebem nomes de mulheres ou de santas

 

O pescador comprou e rebatizou Santa Paulina em 1980, como símbolo do recomeço depois de incêndio que destruiu rancho, canoas e redes da família, ali mesmo no canto norte da praia. Construída em Itapirubá, Sul do Estado, a embarcação com 1,60 metro de proa navegou em outros mares antes de chegar à Ilha. “Pescou até no Rio Grande/RS, levada na carroceria de caminhão”, diz João da Passa, que já presenciou algumas situações de risco a bordo. “Teve um dia de lestada em que caíram quase todos n’água. Só ficaram dois remeiros, mas não adornou e atravessou a arrebentação sem perder a rede”, diz. 

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