Com cesta pré-paga agricultores catarinenses são incentivados a produzir orgânicos

Modelo de cultivo solidário, baseado em experiência alemã, também promove trocas entre os produtores para manter a qualidade do atendimento aos consumidores

É madrugada quando as primeiras luzes do Sítio Flora Bioativas, em Porto Belo, no Litoral Norte, se acendem para mais um dia de trabalho. O cheiro de café se espalha na propriedade rural, localizada no Sertão do Valongo, anunciando que por lá, ao contrário das áreas urbanas, o expediente começou.

A primeira atividade é a colheita. Na horta orgânica, pelas mãos da enfermeira aposentada Noeli Pinheiro, 53, e do marido, o engenheiro florestal Edemir Martinhago, 72, cada planta ganha atenção especial. O trabalho tem como finalidade preservar os nutrientes e os princípios ativos do caule às folhas. Ao fim, esse produto, sem nenhum tipo de agrotóxico ou hormônio, longe de químicas e conservantes, é levado até uma feira nada convencional, que acontece toda a sexta-feira, num bistrô em Meia Praia, Itapema.

Noeli Pinheiro e a parceira Delsa Caetano da Costa trocam produtos orgânicos entre si - Daniel Queiroz/ND
Noeli Pinheiro e a parceira Delsa Caetano da Costa trocam produtos orgânicos entre si – Daniel Queiroz/ND

As mesas espalhadas à frente do estabelecimento chamam atenção pela diversidade dos produtos. De pequenas mudas, como Ora-Pro-Nobis e Moringa Oleífera, considerada a planta mais nutritiva do planeta, até frutas, legumes e verduras, quem visita o local não resiste e volta para casa com a sacola cheia de produtos saudáveis.

O modelo da feira se diferencia das outras porque os clientes são fidelizados através do CSA (Comunidade que Sustenta a Agricultura). Esse programa promove a produção solidária, fazendo o agricultor ser pago pelos consumidores antecipadamente. As pessoas repassam um valor de R$ 170 por mês para cobrir as despesas dos agricultores e em troca ganham uma cesta repleta de itens orgânicos por semana. Noeli ainda repassa parte do valor à outras famílias, por meio de trocas de produtos, já que não produz 100% do que oferece.

Noeli está há um ano no projeto e diversifica os produtos. “É uma troca gratificante porque isso nos permite ficar na terra. Trabalhamos para famílias que buscam orgânicos de qualidade. Saber que esses produtos são tão valorizados nos deixa muito felizes”, descreve.

A agricultura faz parte do terceiro núcleo do programa em Santa Catarina. Com a ajuda das trocas entre os agricultores, ela atende 30 cotistas que podem retirar semanalmente os produtos. “Começamos com 4 famílias, depois foi aumentando. Procuramos elaborar a cesta com os produtos da época. Uma cesta tem no mínimo sete itens entre folhas, chás, temperos, raízes, legumes, flores e frutas”, explica.

A feira ao invés do supermercado

Ter acesso à terra, plantar, colher e se alimentar de produtos orgânicos, sempre foi uma alternativa de vida para o construtor civil João Tarcísio Schneider, 61. Sua paixão pelo ambiente rural vem desde garoto, quando ajudava os pais na roça. Há 16 anos em Itapema, relembrou as atividades montando uma horta no terreno que ficava ao lado do prédio onde mora. O sucesso conquistou até os vizinhos. “Era uma cultura de família, desde a infância plantava o que consumia.

João Tarcísio Schneider lembra os tempos de criança quando vai à feira - Daniel Queiroz/ND
João Tarcísio Schneider lembra os tempos de criança quando vai à feira – Daniel Queiroz/ND

Existia a tradição, mas na área urbana você se afasta disso e acaba indo ao supermercado. Com a chegada da informação e divulgação sobre orgânicos eu descobri o sítio da Noeli, até porque o terreno da minha horta precisou ser fechado. Hoje, não faço mais feira além daqui, pois conheço o modo da produção, as práticas e isso pesa muito na escolha”, diz. Apesar de não ser cotista, nas sextas-feiras, a parada no Texas Natural para adquirir os produtos é obrigatória.

Trocar os grandes supermercados pelos itens orgânicos também foi uma opção da arquiteta Carla Feitosa, 47. Há um ano ela resolveu deixar de adquirir as hortaliças nos estabelecimentos convencionais. Em casa, os alimentos são preparados com os itens colhidos diretamente do sítio. “Quando eu entrava no mercado comprava só o básico, batata, tomate, cebola, chuchu e ficava condicionada naquilo. Com a cesta vem itens diferentes e foi uma descoberta de sabores. Por exemplo, a moringa eu não conhecia, quando provei ficamos encantados lá em casa. O projeto nos possibilita isso”, conta.

Compromisso com o natural

A nutricionista e coordenadora do CSA Sitio Flora Bioativas, Natália Schmitt Fahrion, ressalta que o alimento orgânico deve ser isento de agrotóxicos, insumos artificiais como os adubos químicos, drogas veterinárias, hormônios, antibióticos e organismos geneticamente modificados.
“Na CSA o agricultor estabelece o compromisso de compartilhar de forma transparente as informações sobre seus reais custos de produção, necessidades e capacidades. O agricultor se compromete ainda a respeitar os modos de produção acordados com os co-agricultores, informando sempre que necessário as medidas e intervenções que sejam necessárias na manutenção da produção ou ampliação”, explica.

Para ser um beneficiário do CSA, o consumidor deve ficar no mínimo 4 meses como cotista, que deve pagar R$ 170 adiantado no primeiro ciclo para receber os alimentos durante o mês.

A troca como moeda do campo

Quem depende da terra para sobreviver conhece bem as dificuldades, que vão muito além do plantio e da colheita. No CSA, a primeira moeda de que se tem conhecimento, a troca, tem contribuído para manter o produtor no campo. O projeto de agricultura solidária, que iniciou na Alemanha, em 1960, se espalhou no mundo como alternativa para o setor. No Brasil, chegou em 2011 quando as primeiras experiências foram iniciadas em São Paulo (SP). A troca e o financiamento antecipado da produção com a participação de membros consumidores, colabora para o desenvolvimento sustentável e estimula o comércio.

No Sítio Flora Bioativas, isso ficou estabelecido através da parceria com o Texas Natural. O proprietário, Fabrício Henry Ferreira, 39, adepto à vida saudável, trocou a fisioterapia por um espaço que fornecesse um cardápio natural às pessoas. “Quando fiz o investimento neste local chamei a Noeli para montar a feira, porque as duas coisas estão juntas. Faço as receitas com produtos dela e a convidei para vender no espaço. Foi uma parceria. As vezes os clientes vêm almoçar e já levam os orgânicos, assim como tem clientes do sítio que não conhecem meu trabalho e passam a gostar. Um ajuda o outro”, diz.

Noeli ainda busca conhecer outros locais que utilizam práticas orgânicas. “Quando não temos alface pegamos de uma agricultora de Itapema. A filosofia é consumir alimentos da época e o que a terra nos oferece. As frutas consigo trocar com um parceiro de São José, que leva da nossa propriedade as farinhas. Conheço o modo de trabalho dele e de outros que mantemos nessa base”, reforça.

A agricultora Delsa Caetano da Costa, 39, é outra beneficiária das trocas. Produtora de alho e ovos caipiras, tem seus produtos semanalmente entregues nas cestas das famílias cadastradas no projeto. Sua propriedade, também localizada no Sertão do Valongo, mantém a base orgânica. “Meus produtos são trocados com a Noeli e isso traz renda para nossa família. O dinheiro ajuda a continuar plantando. Nossa família é da roça. O pai produz banana, meu marido trabalha no campo e queremos seguir assim”, relata.

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