Conheça a história do navio Guarará que “reapareceu” com a maré baixa no Pântano do Sul

Atualizado

Era 1954. Em uma segunda-feira de vento sul a pequena comunidade do Pântano do Sul se alvoroçou com a chegada de um enorme e iluminado navio no meio da noite. Aos gritos de socorro, a tripulação foi amparada pela comunidade manezinha. Cada família com sua pomboca nas mãos se amontoou para ver de perto o que estava acontecendo. Os resquícios do naufrágio do navio Guarará permanecem há 63 anos no mar do Sul da Ilha. Mas é só em tempos de maré baixa, como nesta semana, que é possível ver com clareza o que sobrou do navio cargueiro.

Resquícios do naufrágio do navio Guarará foram registrados com o fenômeno da maré seca no dia 13 de agosto - Sami Kuball
Resquícios do naufrágio do navio Guarará foram registrados com o fenômeno da maré seca no dia 13 de agosto – Sami Kuball

Memória viva do Pântano do Sul e afeita de boas histórias, Zenaide de Souza, 73 anos, dona do restaurante Pedacinho de Céu, relembra com detalhes o “evento” de 1954. Ela era criança quando o grupo de “aproximadamente” 15 homens apareceu sobre a enorme embarcação preta gritando por socorro. “O navio já chegou meio de lado, cheio de água e o pessoal gritando. Todo mundo correu pra acudir. Tinha galinha nadando, geladeira, carne seca por todo lado. Os manezinhos deram comida, agasalho e também muita cachaça pra esquentar”, relembra.

De Imbituba, o navio tinha como destino o Rio de Janeiro. Lotada de carvão, a estrutura não aguentou o peso e, com uma rachadura no fundo, o comandante foi obrigado a procurar a costa mais próxima para salvar a todos. “Ninguém ficou ferido e teve uns que até chegaram a morar aqui. Mas a empresa deu toda assistência a eles depois”, conta Zenaide.

Depois do naufrágio, a empresa tentou tirar o navio do local, mas não conseguiu. Com o tempo e ação da maré, partes da embarcação se despedaçaram. De acordo com Zenaide, ele era muito maior na década de 1950. Mas desde então ninguém conhece o navio como Guarará. “O pessoal aqui só conhece ele como ‘chata’, por que a parte de trás do navio era cortada. Agora ali tem um recife, com muito peixe, marisco… O navio sempre aparece com a maré baixa, mas não lembro de ficar assim completamente descoberto”, diz.

Zenaide de Souza, dona do restaurante Pedacinho de Céu, relembra o “evento” de 1954 - Marco Santiago/ ND
Zenaide de Souza, dona do restaurante Pedacinho de Céu, relembra o “evento” de 1954 – Marco Santiago/ ND

Acidente nos jornais

O naufrágio do navio Guarará virou notícia nos jornais da época. De acordo com pesquisa feita pelo especialista em arqueologia subaquática Ticiano Alves para o Instituto Larus, os jornais da época mostram que o navio pertencia à Companhia Internacional de Transportes e que ele quase havia naufragado em 1940 também em Florianópolis.

Na edição de 16 de junho de 1954 do Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, a matéria “Naufragou à altura do Farol dos Náufragos, em Florianópolis” mostrava que o navio Guarará deslocava 650 toneladas e que, segundo os tripulantes, “somente quando o navio singrava as águas fronteiras ao porto de Florianópolis que se notaram o rompimento dos porões”. As medidas do comandante de mudar de rota para que o navio pudesse chegar à capital catarinense não surtiram o resultado esperado e a embarcação afundou próximo ao “Farol dos Náufragos”.

Maré baixa até sábado

Durante esta semana e nos últimos dias 12 e 13 a maré seca (ou baixa) atingiu o litoral brasileiro e catarinense, rebaixando o nível do mar e relevando uma faixa de areia maior. Com o fenômeno, que envolve a influência da lua nova e do vento, navios que estavam submersos acabam “reaparecendo”, como também ocorreu na última quarta-feira em Santos (SP).

Em Florianópolis, o fenômeno da maré baixa deve permanecer até este sábado. A 100 metros da praia e a 600 metros do costão do Pântano do Sul, o navio Guarará deve reaparecer neste fim de semana. De acordo com a Epagri/Ciram, por volta das 9h e das 21h30 de sábado, o nível dos mares deverá estar baixo novamente, mas sem provocar estragos.

Na manhã deste sábado era possível enxergar parte do navio - Flávio Tin/ND
Na manhã deste sábado era possível enxergar parte do navio – Flávio Tin/ND

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