Conheça seu João Oliveira, o homem que não perde um júri em Joinville

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O tribunal do júri abre a sessão e inicia os rituais típicos de mais um julgamento. Promotores, réus, juízes e advogados tomam seus assentos em mais uma dia comum na rotina de trabalho. No mesmo espaço, existe alguém que não faz parte do corpo de jurados ou jurídico, mas que possui um lugar reservado em uma das cadeiras.

Seu João acompanha as sessões há cerca de 25 anos – Foto: Thiago Bonin/NDTV

A pessoa sentada nos bancos dianteiros do tribunal é João Silva de Oliveira Neto, de 74 anos. Engenheiro aposentado e bacharel em Direito, ele nutre uma paixão um pouco diferente: é fascinado por acompanhar tribunais de júri.

De cabelos brancos, olhar atento e ouvidos abertos, João acompanha cada detalhe do “espetáculo”. A cena, há anos, se tornou comum aos servidores e advogados que frequentam o recinto.

Paixão surgiu no Sul

Este amor peculiar teve início no século passado, quando João tinha apenas 19 anos. Natural de Laguna, foi na cidade natal, em 1966, que acompanhou pela primeira vez uma sessão do júri.

Segundo ele, o interesse em assistir ao primeiro julgamento nasceu depois que um professor da disciplina de noções de direito, no curso de técnico comercial, comentou sobre as sessões. Outro incentivador foi o próprio tio de João, que era promotor de justiça e sempre comentava sobre os júris.

“Foi então que resolvi ir assistir. Eu lembro bem que começou às 13h30 e terminou às 18h. Fiquei sentado na primeira fila e não ‘arredei o pé'”, relembra. “Foi a primeira experiência e eu gostei muito, achei uma coisa diferente e bonita, o que acabou me entusiasmando”, conta João.

Na época, inclusive, o aposentado até prestou vestibular para a faculdade de Direito, mas não passou. Com o tempo, o simpático senhor acabou mudando de cidade e também de profissão: apesar do fascínio pela área criminal, rumou para a carreira de engenheiro mecânico.

A realização de um sonho

Por alguns anos João deixou o conforto das cadeiras estofadas, os longos depoimentos e os rituais do tribunal de lado – tudo para se dedicar às máquinas. Nesse meio tempo, se mudou para Joinville, casou e teve três filhos – dois meninos e uma menina.

A paixão pelos tribunais, no entanto, continuou enraizada no coração do catarinense. Já nos 1990, após ingressar em uma das grandes empresas da cidade, sentiu a “chama” dos júris voltar a arder em seu peito.

“Eu sempre passava aqui pelo Fórum [de Joinville] e ficava olhando se tinha júri ou não”, revela o aposentado. “Um dia vi na pauta que iria ter um julgamento em tal data. A partir dali comecei a ir lá e sempre dava uma olhada no final do expediente”, garante.

As visitas constantes se tornaram motivo de conversa entre o engenheiro e os colegas de trabalho. Por causa dos comentários, o local, então, indicou João para ser jurado voluntário em uma das sessões, em 1995.

Seu João durante um dos júris – Foto: Thiago Dias/Fórum de Joinville

“Quando participei como jurado pela primeira vez foi uma alegria. Eu pensei ‘puxa, realizei um sonho'”, conta o catarinense, com os olhos brilhando. O dia foi tão marcante que fez com que ele memorizasse os nomes do juiz, advogados e promotor de justiça. “Isso acabou se tornando uma rotina para mim”.

Atualmente, as visitas de João no fórum se revezam entre as de mero espectador e as de jurado. “Como jurado a responsabilidade e a atenção aos detalhes é maior, porque você está prestando um serviço importante naquele momento. Quando está assistindo você está ali observando o panorama como um todo”, explica.

A chama pelo direito volta nos anos 2000

Os tribunais se tornaram, a partir daquele momento, a segunda casa de João. O local onde geralmente prevalece o choro, a tensão e a expectativa acabou se transformando em um espaço de aprendizado para o aposentado.

As sessões viraram rotina e o sonho antigo de cursar direito – principalmente as matérias voltadas para a área criminal – voltou a preencher o coração de João. “Em fevereiro de 2003, me aposentei e em junho estava fazendo a faculdade de direito na Univali, no campus de Balneário Piçarras”, conta.

Todo os dias, João enfrentava a BR-101 e ia até a cidade para acompanhar as aulas. Durante cinco anos, se perdeu dois dias de aula “foi muito”, afirma.

Seu João presta atenção em todos os detalhes do ritual – Foto: Thiago Bonin/NDTV

Engana-se quem pensa que a faculdade e a rotina de estudos diminuíram a frequência de seu João nos tribunais. Para garantir ainda mais conhecimento, passou a frequentar sessões não só em Joinville, mas também em cidades vizinhas, inclusive como membro do tribunal.

“Aqui eu converso com estudantes, advogados, juízes. Então, essa troca de informações pra mim é importante”, conta.

“Na faculdade, fiz um simulado. Só que eu fui Ministério Público. Acabei levando uma surra, mas tudo bem, foi interessante”, comenta. Caso exercesse a profissão, entre os membros de um júri, ele afirma que a vontade era atuar como advogado.

Figurinha carimbada no Fórum

É evidente que João já virou um “patrimônio” do Fórum. Nos júris, por exemplo, é comum ver os promotores, advogados e até o juiz do tribunal cumprimentando o engenheiro.

“De vez em quando, João participa de uma ou outra sessão como jurado e dá pra ver que ele cumpre muito bem o seu papel”, explica o promotor Ricardo Paladino. “Chama a minha atenção, depois de anos de carreira, ver alguém com tanta disposição participando dos debates”.

Outro que também admira a atitude do engenheiro é o juiz Gustavo Aracheski, titular da Vara do Tribunal do Júri de Joinville.

“Conheço o seu João desde 2011. Naquela época ele sentava aqui na frente. Na sexta sessão eu perguntei para o pessoal aqui do Fórum se eles o conheciam, porque achei diferente”, garante Gustavo.

“As pessoas, geralmente, criam o mito de que perdem segurança se participam do conselho de sentença. Isso não é verdade, já que os votos são secretos”, explica o promotor.

“Pra mim, júri não é hobby, é compromisso!”

Com o passar dos anos, João até perdeu as contas de quantos júris já assistiu. “Já aconteceu de o acusado prestar depoimento numa maca porque ele tinha sido baleado durante o conflito e ficou com sequela”, revela.

“Outra vez buscaram um policial de helicóptero, pois ele estava em outra cidade, e a gente precisou ficar esperando”, relembra João. Ao longo dos anos, viu um dos réus pedir perdão durante o julgamento apenas uma vez.

Seu João tem como paixão acompanhar júris – Foto: Luana Amorim/ND

As conversas sobre o júri vão muito além dos tribunais. Além de ser pauta nas rodas de amigos, João compartilha com a esposa todos os detalhes das sessões.

“Já teve vezes que eu estava em outra cidade, com a minha esposa, e saí de lá só para ir em um júri. Outra vez um oficial de justiça foi lá em casa e falou ‘eu trouxe uma coisa aqui que [o João] não vai gostar’ – era uma intimação. Na mesma hora ela respondeu: ‘nem te preocupa, ele adora isso'”, conta aos risos.

O aposentado garante que todo o esforço não é por puro hobby ou forma de distração, mas sim um compromisso. “Eu tenho orgulho de vir aqui”, diz. A experiência, que João recomenda a todos, é definida por ele como “um exercício de cidadania”.

Outro motivo que o faz ser tão presente é a vontade de colaborar com o poder judiciário a fazer justiça. Isso ajuda, segundo o “senhor dos júris”, a “entender como está a nossa sociedade, já que [o tribunal do júri] é um retrato do que acontece aqui fora”.

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