Covid-19: “Somos pais e guarda-costas”, diz servidor que levou menino de abrigo para casa

Quando a OMS (Organização Mundial da Saúde) declarou no dia 11 de março que o mundo vivia uma pandemia em razão do novo coronavírus (Covid-19), Jailson Vander da Rocha e Vinicius* já se conheciam há pelo menos três anos.

Servidores de um abrigo em Florianópolis levaram os menores para suas casas durante o isolamento social – Foto: Willian Ricardo/ND

A relação dos dois, contudo, era restrita ao ambiente da Casa de Acolhimento para Meninos. O local, em Florianópolis, abriga seis crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social – órfãos, vítimas de violência física ou da pobreza extrema.

Se estivesse funcionando, a casa grande, que conta com piscina, iria restringir a circulação dos que ali trabalham. Todos teriam de fazer uma quarentena na unidade. O contato inevitável com os abrigados e as entregas constantes de materiais e alimentos, teriam de ser cessadas.

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Na casa, os vulneráveis recebem os cuidados de nove educadores sociais, que se alternam em turnos de 12h. Jailson trabalha à noite. Servidor da prefeitura há uma década, ele foi readaptado há cinco anos e colocado na função de educador social. O motivo foi um câncer de pele.

A pele menos resistente em razão da doença o levou à Casa e também para perto de Vinicíus. O menino de 16 anos é atendido pelo abrigo desde os 13. Ele estuda em uma escola municipal e trabalha como jovem aprendiz na Caixa Econômica.

Com a pandemia, Vinícius foi para a casa de Jailson. A decisão foi tomada com aval da Justiça.

Nova rotina como pai

Solteiro e sem filhos, o educador viu a rotina ser alterada pelo cotidiano do adolescente. “Ele passa o dia conversando com a namorada e amigos por vídeochamada, quer mostrar que está presente”, comenta.

O isolamento fez dele pai, mesmo que de outro modo e por tempo limitado. “A gente cuida deles com todo o carinho. Somos pais, vigilantes, seguranças e guarda-costas”, conta Jailson.

Além de cuidar dos abrigados na Casa, é função dos educadores acompanhar os primeiros dias de aula, as idas ao trabalho até que os meninos aprendam o caminho e o encaminhamento ao médico quando necessário.

Medo do coronavírus

Quanto ao coronavírus, eles mudaram os hábitos em prol da saúde. São pelo menos três banhos curtos ao dia, alguma séries de exercícios restritos ao ambiente da casa e o reforço na higienização da mãos.

Jailson diz que Vinicius não teme o vírus, mas sabe que o contágio da doença é rápido e muitas vezes letal.

“Acompanhamos os noticiários todos os dias e sabemos que a situação é crítica em outros países. Não queremos que se repita aqui”, diz o educador.

Até que o isolamento social seja encerrado, as crianças e adolescentes devem permanecer nas casas dos educadores. O lar provisório, de certo modo, conforta os profissionais e garante a segurança de ao menos seis vidas do abrigo.

*A reportagem usou nome fictício para preservar a identidade do adolescente.

Saúde