Sorte e azar

"Imagine o noivo ver a noiva vestida antes da cerimônia? O casamento estará fadado ao fracasso."

No antigo Egito, os faraós viviam inconformados com a falta de cuidados dos escravos na limpeza dos palácios. Os imensos e caros espelhos não resistiam por muito tempo. Quebravam quase todos. O castigo físico não era suficiente para evitar tanto prejuízo. Decidiram então adotar uma estratégia: espalharam o boato da maldição, ou seja, quem quebrar um espelho terá sete desgraçados anos de azar. A partir daí, os espelhos tiveram vida longa.

Na 1ª Guerra Mundial, para economizar, os soldados acendiam vários cigarros com um palito de fósforo. Na escuridão, era o tempo certo do inimigo apontar, mirar calmamente e atirar. A partir daí surgiu a famosa história que não se deve acender três cigarros com a mesma chama, pois o último fumante sempre morre. Faz sentido. Mas até se chegar a essa conclusão, muita gente morreu antes de dar a primeira tragada.

Além destas, outras maldições continuam atuais. Imagine o noivo ver a noiva vestida antes da cerimônia? O casamento estará fadado ao fracasso. Comer carne na Sexta-Feira Santa é um sacrilégio, pecado mortal.

Mas o azar não para por aí. Ainda tem a sexta-feira 13, a escada, o gato preto, o cachorro uivando, o calçado virado com a sola para cima, caminhar de costas, comer carne de animal que cisca para trás na virada do ano, rir muito na sexta-feira, varrer o pé de gente solteira, não atender o desejo de mulher grávida, apontar o dedo para as estrelas, sonhar que perdeu um dente, desejar sucesso na estreia de espetáculo artístico, entre outras crendices populares, que apavoram nove entre dez mortais.

Mas a cumplicidade do universo também conspira em nosso favor, asseguram os supersticiosos. Por exemplo, comer carne de porco, pular sete ondas e vestir branco na virada do ano, jogar arroz nos noivos, pendurar um galho de arruda na orelha, ver estrela cadente, passar a mão em corcunda, guardar uma pimenta ou folha de louro na carteira, encontrar um trevo de quatro folhas, ser visitado por um grilo verde, comer nhoque nas quartas-feiras, bater três vezes na madeira, sonhar com a morte de uma pessoa querida, pendurar uma ferradura atrás da porta e outras bobagens tradicionais.

Fora isso, é preciso trabalhar muito e engolir os sapos do cotidiano todos os dias. Afinal, a sorte é de quem acredita no seu próprio taco e sabe que ela não vai cair do céu. Mas, na dúvida… No creio em las brujas, mas que elas hay, elas hay.

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A nossa opinião

"Opiniões nada mais são do que preenchimento de vazios"

No começo dos anos 90 escrevi um artigo sobre a precariedade da vida noturna de Joinville. Naquela época era visível a falta de criatividade, profissionalismo e visão dos empresários que se aventuravam a abrir um bar ou uma boate.  

Não havia estudo técnico nem a sensibilidade de um profissional com experiência neste segmento. Quase tudo era definido pela cabeça do dono, a partir do que ele conhecia geralmente no Rio ou em São Paulo. Ambientes que funcionavam como revenda de automóveis ou casas de moradia, simplesmente eram radicalmente adaptados em poucos dias com uma reforma aqui, uma escadaria ali.

Decoração de mau gosto, iluminação ruim, cadeiras desconfortáveis, banheiros sem a devida higienização, som ensurdecedor, péssimo atendimento, além de cardápio caro, indigesto e com poucas opções. Este era o quadro que o frequentador enfrentava após pagar uma exorbitância para entrar no ambiente.

Tão logo o jornal chegou às mãos de um amigo, proprietário de uma recém-inaugurada boate, ele me ligou bastante contrariado. Na opinião dele eu havia cometido uma injustiça. Desfiou uma infindável argumentação, mas sem muita consistência, que segundo ele eu teria ignorado no texto.

Sugeri então que ele escrevesse um artigo para o mesmo jornal, no mesmo espaço, na semana seguinte, dando as suas razões. Afinal, eu não era o dono da verdade e o jornal veiculou nada mais que a minha opinião.

Após alguns segundos de silêncio, ele pigarreou, baixou a voz e disse em tom de confissão que não tinha muito intimidade com as letras. Por isso, não queria se expor e virar alvo de gozações. Então, pediu-me para escrever um artigo a partir daquelas justificativas. Claro que ele assinaria o texto. Não gostei da ideia, mas acabei concordando.

Como na época não existia a internet, em pouco mais de duas horas ele apareceu na minha casa com algumas folhas de caderno rabiscadas. Decifrei o que ele queria dizer e meia hora depois lhe entreguei o artigo. Ele leu, gostou e partiu para a redação do jornal.  

Na semana seguinte o texto foi publicado e ele ligou-me agradecido pela gentileza. Então lhe revelei que o próximo artigo, ainda sobre o tema, na outra semana, seria escrito por mim, com a minha assinatura, uma tréplica para contestá-lo. E aí, resmunguei, vou parar de polemizar comigo mesmo. Arrume outro escriba para as suas ideias, finalizei.

Fiquei com a última palavra.

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A força do abraço

Cronista Léo Saballa lembra que essa forma de amparo passa a certeza que não estamos sozinhos em momentos decisivos

     Há duas semanas um amigo sofreu grave acidente e foi levado para o pronto-socorro do Hospital Municipal São José de Joinville. Tão logo soube do ocorrido, fui até o local buscar informações sobre o estado de saúde dele e levar apoio à família.

     Como não poderia ser diferente, na sala de espera do hospital encontrei os seus familiares profundamente abatidos, inconformados com aquele episódio avassalador. Além de lágrimas, vi rosários enroscados nos dedos, ouvi orações e presenciei outras manifestações de fé.

     Compreendi que não havia muito que eu pudesse fazer naquele momento, além de oferecer um abraço silencioso, porém solidário, como a dizer a cada um deles: aconteça o que acontecer, vou estar aqui o tempo todo. Dividam comigo essa dor.

     Logo veio a informação que ele teria de ser submetido a uma delicada cirurgia. Passava da meia-noite e nos acomodamos em um canto da sala, revezando cadeiras, para enfrentar uma longa, fria e imprevisível madrugada. Quando a porta do corredor se abria, olhares desconfiados se voltavam para ela, na expectativa de alguma notícia alentadora que pudesse acalmar os corações angustiados.

     Então, observei que assim como nós, havia outros grupos unidos pelo mesmo sentimento. Eram familiares e amigos de pessoas em risco, que enfrentavam situação semelhante nesta cruel insegurança e iminente sensação de perda. A todo instante chegava alguém apressadamente, com o semblante preocupado e procurando com os olhos algum rosto familiar.  

    De imediato, não era preciso dizer nada. Antes de qualquer troca de palavras, acontecia aquele demorado abraço, este gesto universal de entrelaçar corpos e atritar as mãos nas costas. Funciona como uma transfusão de energia que aquece o coração. Essa forma de amparo passa a certeza que não estamos sozinhos em momentos decisivos como estes.   

   Ao amanhecer, a notícia que todos esperavam: a cirurgia do meu amigo havia sido realizada com sucesso e ele estava fora de perigo, em plena recuperação. Então, aconteceu outra rodada de abraços, mas desta vez, para dividir a alegria pela manutenção da vida.  

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Visitantes da Vida

E lá vamos nós, no frio, sob olhares gelados, no vento, alinhando tijolinhos nesta escada espiral e escorregadia da vida

     A gente não se lembra de todos os tombos, mas, vez por outra, perdemos o equilíbrio e caímos da bicicleta frágil, imaginária, simbolizada pela nossa insegurança. O que dói não é o atrito com o solo, mas a solidão e o vazio da queda. Outras vezes somos jogados violentamente contra as paredes da intolerância e do rancor.

     Quantas vezes a porta da generosidade foi fechada na nossa cara e a gente ficou no escuro, sem ter para onde ir, sob a chuva da indiferença, sem o teto do acolhimento, sob o decreto da humilhação. Com os joelhos e cotovelos ralados, ficamos a esperar outra vez que alguém estenda a mão e nos estimule novamente a seguir neste caminho íngreme, tão conhecido e ao mesmo tempo traiçoeiro.

     Não há tempo a perder com o choro ou com a dor, com a mágoa ou ingratidão. O caminho tem de ser refeito assim, na hora, sem tempo, sem escolhas prévias e nem prerrogativa para decidir algum trajeto. Somos aprendizes de nós mesmos, viajantes do tempo, visitantes da vida. Por isso, nos é dado a escolher apenas o nosso ritmo, no tempo diferenciado de cada relógio, mas na conexão com outras vidas e na dependência de todos os destinos.

     E lá vamos nós, no frio, sob olhares gelados, no vento, alinhando tijolinhos nesta escada espiral e escorregadia da vida. Não é permitido sorrir, apenas sonhar. A gente não sabe muito bem o que quer construir. No entanto, é preciso recolher os resíduos do caminho e hidratá-los com o suor, para marcar os dias vividos.

     Em cada curva um novo tombo, uma dor desconhecida, um rosto diferente, porém, o mesmo calor familiar da lágrima companheira. Cada olhar é representado por sonhos e esperança. Ninguém é apenas um número de CPF, uma impressão digital borrada na carteira de identidade, um DNA para rastrear antepassados.

     Carrego uma chave no bolso e não sei qual porta ela abre. Vejo cartões na carteira, mas não visualizo senhas na memória. E, na palma da mão, a história de uma vida inteira dentro de um aparelho celular que determina o vivenciar dos meus dias.  

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A taxa do assaltante

Em menos de um ano, sofreu três assaltos. Em todos eles, entregou o dinheiro sem reagir e saiu ileso.

     João Alfredo não saía de casa sem levar no bolso a taxa do assaltante. Era assim que ele definia a cédula de R$50, geralmente dobrada, que carregava naquele bolsinho, usado antigamente para se guardar o isqueiro. Em menos de um ano, sofreu três assaltos. Em todos eles, entregou o dinheiro sem reagir e saiu ileso.

– São “drogaditos” viciados em crack, capazes de matar se a gente não tiver algum dinheiro no bolso. Por isso, mesmo que eu precise, nunca vou gastar esse dinheiro. É a taxa do assaltante, que me garante vivo.

     Essa era a pregação do operário, consciente da violência que ameaçava a todos.  

– Ele é um homem “aprecatado” e sabe que a vida dele vale muito mais que isso, dizia a mulher, Jurema, para a vizinhança.

     No entanto, João Alfredo abria um sorriso quando mostrava o bilhete da Mega Sena que ele chamava de “taxa da ilusão”.

– Esse é o meu passaporte, a minha esperança para mudar de vida. Enquanto não chega esse dia, trabalho muito e pago a taxa do assaltante.

     De fato, sempre foi um homem trabalhador e dedicado à família. Trabalhava no chão de fábrica a partir das cinco horas da manhã, empilhando ferro. Depois, à tarde, pegava na construção como ajudante de pedreiro. Ia de um lado para o outro, pedalando a sua velha bicicleta, literalmente, cruzando a cidade de ponta a ponta.

     Com a ajuda do irmão e de um colega do trabalho, finalmente ele acabara de construir a casa onde morava com a mulher e dois filhos, um menino de três e a menina de quatro anos. Foram seis meses de trabalho duro, incluindo finais de semana e feriados. Isso sem contar o financiamento que custava R$600 todo mês, para comprar o material de construção. Não era uma casa grande nem bonita. Ficava no Loteamento Cinco, o ponto mais afastado e temido da cidade. Mas, o importante é que havia se livrado do aluguel.

     Certa noite, por volta das onze horas, a mulher o acordou, com o menino no colo, ardendo em febre. Não havia mais remédio em casa. Apressadamente, João Alfredo se vestiu, botou a receita do médico no bolso, subiu na bicicleta e pedalou até encontrar uma farmácia. Na pressa, se esqueceu de levar a carteira com o dinheiro. Mas, revirando os bolsos, percebeu com alívio uma nota de R$50, enrolada no bolsinho. Era a taxa do assaltante.

     Naquela noite, ele não voltou pra casa. Jurema soube pela polícia que o corpo do marido tinha sido encontrado ao lado da bicicleta, perto da ponte, com uma perfuração à faca no pescoço. Na mão, uma pequena sacola plástica com medicamentos.  

      Para a mídia, um número de estatística e algumas linhas no jornal. Para a polícia, imprudência da vítima e uma investigação na gaveta. Mas, para a família, uma tragédia intransponível e uma dor infinita.     

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Sonhar acordado

Confesso que nunca pensei que a simplicidade fosse tão difícil de ser conquistada

Há alguns anos acalento o sonho de morar numa pequena casa rústica no meio do mato, ao lado de um riacho com água transparente, peixe em abundância, sob a pinguela que range e balança no meu pisotear decidido, mas lento.  

Ao cair da noite, ali no pé da serra, depois de recolher a criação e garimpar algumas preciosidades na horta, visto um agasalho, ajeito o velho chapéu de feltro na cabeça e abro os trabalhos no aconchegante fogão à lenha, assobiando uma música inventada por mim, naquela hora.

O fogo, o aroma do café passado no saco de pano e o canto da coruja me dão a certeza que a paz germina no coração de quem não exige muito da vida.  É uma sensação indescritível poder estar longe de tudo e de todos e me bastar com tão pouco.

Não se trata de revolta urbana, nem desencanto do cotidiano. Acima de tudo é uma necessidade de me reencontrar e descobrir quem sou e o que me importa nesta altura da vida.

Confesso que nunca pensei que a simplicidade fosse tão difícil de ser conquistada. Descobri que a cada dia me afastava mais de mim. Neste contato de pele com a natureza, agora, no sonhar acordado, há uma leveza indescritível e a certeza que estou no controle do meu destino, das minhas vontades.  

Sempre que o estresse me arremessa contra o relógio e sou pressionado pelo tempo, imagino-me neste universo quase cenográfico. Nada de energia elétrica, microondas, e-mail, internet que cai, programas chatos de TVs, trânsito congestionado e filas para tudo.

Quero me manter longe do celular egoísta, de alarme que dispara na madrugada, de sirenes assustadoras, de caixa de correspondência entulhada e de contas injustas para pagar. Neste momento, quero esquecer os elevadores lotados, a carteira vazia, o almoço relâmpago e as metas profissionais.

O que vejo? Uma noite prateada pela lua e eu deitado preguiçosamente em uma imensa rede estendida na varanda. Pendurado no teto, um pequeno lampião para quebrar o negrume da noite e permitir uma leitura preguiçosa.  E lá me vejo, mergulhado em um bom livro ou buscando inspiração no silêncio para escrever com caneta esferográfica na folha de papel almaço.

Deitado no chão, bem próximo, sonolento, mas atento a qualquer ruído, o meu cachorro, companheiro fiel, que nada me pede além da amizade e, claro, um osso grudado em carne suculenta. Permito-me relaxar neste momento único.   

Ao fundo, para se contrapor ao silêncio, um rádio portátil chorando uma moda de viola. Logo, chega o vento brando e me traz o aroma convidativo da carne de panela, que só espera o acabamento para ser devidamente saboreada. Desço da rede e em passos cadenciados sou seguido pelo meu cachorro.  

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A infância fria

Queria estudar, ser alguém importante para trabalhar num emprego decente

     O frio se fez intenso naquela manhã chuvosa. Ele chegou à escola completamente molhado. Morava longe de tudo e todo o dia caminhava mais de meia hora para conseguir estudar. Depois, outro tanto para voltar para casa. Não possuía guarda-chuva, muito menos uma capa que o protegesse. Aliás, todas as roupas que aquele menino de sete anos vestia, eram doadas por clubes de serviço ou campanhas de agasalho promovidas por professores junto à comunidade.

     O pai estava desempregado desde o último Natal e fazia alguns bicos na vizinhança, geralmente capinando quintais. A mãe sustentava a casa com o seu trabalho de diarista. Ganhava menos de um salário mínimo por mês, para pagar a luz, a água e ainda cuidar do filho mais velho, doente, que dependia da cadeira de rodas para se movimentar. Sobrava quase nada para o minguado “pedido” no mercadinho.

     O menino não chegava a passar fome porque reforçava a alimentação com a merenda escolar. Mas, ele não estava na escola apenas para isso. Ao contrário dos coleguinhas pobres da sua idade, o garoto nunca pensou em se tornar jogador de futebol. Nunca ninguém ouviu ele reclamar de alguma coisa. Tímido, abaixava a cabeça para sorrir com a ausência de dois dentes de leite.

     Queria estudar, ser alguém importante para trabalhar num emprego decente e poder ajudar as pessoas necessitadas, assim como ele e a sua família. Por isso, nunca perdeu um dia de aula e nem chegou atrasado. Uma vez foi mandado para casa, porque havia contraído conjuntivite. Foi embora chorando.

      Como acontecia com freqüência, a professora, que morava perto da escola, ficou penalizada ao ver o menino molhado e tremendo de frio. Então, outra vez ela foi para casa buscar uma toalha e algumas roupas secas e quentes. Embora o salário curto de professor, ela o ajudava sempre que podia, com remédios, material escolar e até com brinquedos em datas especiais. No entanto, o mais importante sempre foi o incentivo e a valorização que ela dedicava ao aprendizado daquela criança.

    Apesar das dificuldades impostas pela vida, o menino era determinado, o aluno mais aplicado da sala. E foi assim, se destacando ao longo dos anos, com essa força dos vencedores, que ele superou todas as etapas espinhosas.

     Hoje à noite, numa festa bonita, ele recebe o diploma de médico. Claro que vai passar um filme pela cabeça daquele jovem. No espaço reservado aos seus convidados, além da família, a sua primeira professora, que, orgulhosa, deixa escorrer pelo rosto uma lágrima teimosa e quente.        

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O ocaso e a juventude

A distância no tempo criou um escudo que não conseguiu conter nenhuma manifestação de saudade.

A canção diz que a vida vem em ondas. Para ele, chegou sob a forma devastadora de melancolia como se fosse lava vulcânica, que num primeiro momento brilha, aquece de longe, depois, em lentos intervalos, gruda, queima e logo petrifica sentimentos expostos.

Muitas vezes ele acreditou possuir a eternidade. Depois, veio a desconfiança de ter perdido muito, até realmente perder tudo. No entanto, quando isso aconteceu, descobriu que o “tudo” se transformou em “nada” diante do vazio abissal, sem a presença dela, que preenchia os dias, acelerava as horas e tirava o peso da vida.

Agora, sabia que era irreversível. Não adiantava olhar para trás. Reconheceu na sombra do “nada” o legado triste da sua total falta de percepção. A ausência dela, agora, virou mantra da solidão e imagem do desespero. A distância no tempo criou um escudo que não conseguiu conter nenhuma manifestação de saudade.       

Percorreu, descalço, desorientado, caminhos escuros, gelados e pedregosos, respirando a fumaça do arrependimento. Bebeu o amargo do silêncio e aspirou ao ácido da própria ignorância. Ainda tentou voltar, mas o passado não existe mais. A trilha se fechou. Tentou se levantar, mas não havia mais céu nem sol.     

Claro que reconheceu a presença dela, neste momento todo dele. Identificou o aroma inconfundível do seu perfume, o calor aconchegante do seu corpo, a efemeridade da vida, o fogo dos desejos e tudo a partir dela, que naquele momento, pudesse trazer alguma lembrança para ele continuar vivendo assim, desse jeito, um dia de cada vez.  

Pensou que tudo poderia ser diferente, se no tempo certo, as mãos dela afagassem o seu rosto. Mas, num gesto de penitência, afastou-se daquela mão pequena, estendida, a roçar na mão dele, calejada e fria.   

Não queria contaminá-la com a mágoa, com a voz alterada, com o olhar sofrido, meio turvo, que contrastava tanto com a viva luz serena dos olhos dela. Preparou-se então para a dor.

E ela, a dor acumulada pelo tempo, chegou represada, mesmo contra a vontade dele, devastando, moldando dias e anos em formatos iguais, em quase morte, em desânimo, em desativação dos sentimentos.

O escuro do céu predomina os últimos raios de sol. Ele, mergulhado nas profundezas do “nada”. Agora, ele tem a certeza que ela se foi para nunca mais voltar. Entretanto, ele, o ocaso, sabe que ela, a juventude, é eterna e recomeçará tudo de novo, em outras vidas, neste breve e ao mesmo tempo interminável reencontro

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Epitáfio do rio Cachoeira

A minha pureza realçava o céu em transparência verde-azulada, no fim de tarde, lambendo a vegetação macia qual veludo a roçar a pele, em consentimento mudo, em sentimento lúdico, na sede saciada, na vida preservada, na natureza equilibrada e desafiadora. Cumplicidade total na explosão silenciosa que fez surgir infinitas formas de vida. Esplendor em tudo o que existiu e, agora, a dor no que se deixou de ver.

No vai e vem do meu curso, sempre retornava para o leito de vida, caudaloso, trazendo do mar o tempero da purificação que respingava liberdade, que hidratava a atmosfera, que vitalizava a cidade. Cumpria este ciclo livre, quase divino, como um menino que corre descalço na relva úmida da manhã.

Na chegada do sol, no afã de receber a luz, ouvia-se uma sinfonia regida a partir da harmonia entre flores, borboletas e pássaros. Exalava um cheiro de chuva, de mato, ruas e frutas. Provocava uma lembrança de gente, de pontes, barcos e pedras. Trazia uma saudade de infância, de árvores, céu e risos. Criava um compasso de verdade, de respeito, futuro e sonhos.

O que existiu em mim, o tempo descreve na memória, na moldura da história desbotada, na imagem descolorida e fria que retira dos olhos o brilho efêmero da vida. No meu leito de morte sou reverenciado pela dignidade ao resistir nesta jornada desumana, fétida, a navegar sem forças, sempre expondo feridas abertas, a gangrenar a gosma da covardia, inoculada sem qualquer gota de compaixão.     

Inquieta-me a agonia dos meus derradeiros peixes. Rezo, peço, imploro, mas sinto que não acredito mais no milagre da multiplicação, neste mar de ingratidão, de indiferença residual.  

Não há crença que sobreviva à fé exaurida ou à esperança despedaçada que resista ao desânimo da alma.  Aumenta a dor em cada molécula mergulhada nos dejetos, na química colorida que escurece a minha, a tua, a nossa sobrevida.

Os cuidadores de agora são os algozes do passado, ruminantes do poder que me transformaram em latrina coletiva, em corredor de exércitos letais a conduzir venenos camuflados de prosperidade. Na verdade, sou monstro da ganância e decomponho-me na lama da arrogância e da desumanização.

Esta morte anunciada se fez quase sem perceber, dia a dia, vida abreviada, arrancada pela raiz, sistematicamente. Fui dominado por corações ressecados, mentes congeladas, entulhos de ignorância, detentores de ambição incontrolável.

Não quero a tua culpa, nem a tua dor, mas a reflexão, sempre que lavar as mãos no lago sombrio da omissão. Basta-me uma lágrima de solidariedade e uma flor desabrochada em qualquer manhã fria de sol.

Cada vez que um rio é condenado à morte, matamos impiedosamente o que existe de mais sagrado em cada um de nós: o futuro.

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