Da coletividade

As crianças, em sua maioria, esperam um escritor que seja velho, barbudo, que só viva lendo e escrevendo, que conhece todas as palavras, que more num lugar isolado onde o silêncio é seu lampião, um tanto esquisito, que fala sozinho, coleciona enciclopédias e que, quando criança, escrevia no prato quando a mãe servia sopa de letrinhas. As da escola Arnaldo Moreira Douat podiam até pensar assim, até eu chegar lá. Bicicleta, camisa xadrez, mochila, sino na mesa, uma caixinha de música, cartas coloridas, livros surrados, história digitada num papel, piadas, biografia, olho no olho. Pronto: desconstruí o escritor da torre de marfim e o trouxe para perto de mim: Escritor Marinaldo de Silva e Silva,  mãe semianalfabeta, pai caminhoneiro, avó cigana, nascido no Guanabara, crescido no Fátima, caranguejo como cachorro, maré e mangue, parque aquático, pão assado em folha de bananeira, e uma vontade imensa de me esbarrar com palavras que eu sequer imaginava a que ligavam…

No quadro da parede do auditório da escola, eis a frase: Cada um é responsável por escrever a sua história, ou algo mais ou menos assim. Os desafiei a construir uma história coletiva por meio de figurinhas que, viradas uma a uma, iam dando a cena para o enredo. Disse que nutrir a imaginação era o salto ideal para o ser humano alcançar o seu sensível, que a poesia era a pulsão absoluta de Deus. Eles se calaram. Ficaram ouvindo aquilo. Acho que entenderam. Se não, ficaram pensando com certeza. O que é um grande ganho.

Quando o primeiro aluno virou a carta, a imagem era de uma escadaria cujos degraus superiores eram escondidos por uma neblina. E agora, o que tem lá em cima? Ali começou o era uma vez. A ideia era que cada carta fosse erguida por um aluno. No começo a vergonha, mas depois que começou…. haja cartas pra todo mundo!

“Era uma vez uma escadaria gigante e brilhante que ficava escondida num lugar escondido. Um velho passava por ali, ele fumava um cachimbo, e olhou pra cima da escadaria e não conseguiu ver nada, só fumaça. Ele ficou curioso, subiu devagar, do seu jeito, chegou lá em cima e espantou a fumaça. Ainda fumava. A tosse espalhou a neblina pra lá e pra cá. Daí ele viu que lá em cima tinha um muro, que na realidade era a parede de uma fortaleza. Tudo era bem quieto. Daí ele ouviu barulho de gente, tipo assim, quando todo mundo fala junto e ninguém entende nada, mas sabe que é gente. Daí ele atravessou o muro por um buraco. Do outro lado, gente que nada, tinha um cavalo que falava sozinho, que ele descobriu que era um unicórnio. O cavalo se aproximou, assim, como se fosse um colega, e falou que era um príncipe, que tinha sido enfeitiçado e que não conseguia sair dali porque esperava que seu filho, um bebezinho que havia desaparecido, um dia voltasse. Daí o unicórnio mostrou a caminha, e ela estava vazia, e parecia que chorava. Daí o velho disse que ele tivesse paciência e perguntou o que era aquele portão que brilhava. E pasmem! Era um portal. O cavalo disse que não podia atravessar porque só gente humana podia, não gente unicórnia. O velho nem pensou, atravessou, e do outro lado, se deparou com um moço bem bonito, que tinha crescido e esquecido que a vida dele continuava do outro lado do portal. E o moço já tinha casado, era apaixonado, e disse que sabia da história, mas que se atravessasse, teria que abandonar a sua Vitória. Ah, esse era o nome da mulher. Daí o velho voltou. Viu que não podia desistir, mas daí viu que no outro lado seu cachimbo transformou-se num objeto dourado, que brilhava tanto, que quando encostou no unicórnio, ele voltou a ser homem, que no mesmo instante atravessou pro outro lado, e viu seu filho lá distante, com a mulher abraçado. Ele esperou pelo velho, o velho não tinha atravessado. Dai ele correu atrás do filho e explicou tudo. Dizem que eles choraram. E se abraçam. E pensaram: agora seremos felizes para sempre.Ah, e a escada continua escondida. Dizem que é atrevida e muda de lugar todos os dias.”           

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