De meses a anos: as previsões dos especialistas para a vida voltar ao normal

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Para quem sofre os impactos econômicos, como o desemprego, até para quem acorda sentindo que os dias são todos iguais, fica uma pergunta que não saí da cabeça: quando a pandemia de Covid-19 irá embora e tudo voltará a ser como era antes?

Ancorados em diferentes estudos, como a experiência de outros países, outras pandemias históricas e modelos matemáticos, as previsões dos especialistas apresentam cenários distintos. Eles apontam a permanência de algum grau do isolamento social em um prazo que varia de meses a anos.

Movimentação vazia nas ruas de Florianópolis durante isolamento social, em decorrência da pandemia de coronavírus – Foto: Anderson Coelho/ND

A diferença de tempo que existe entre os estudos é porque, além da dependência de pesquisas científicas e decisões políticas conscientes, ainda  se sabe pouco sobre esse vírus, ainda sem vacina nem remédio comprovadamente eficaz, que passou a assolar o mundo já nas primeiras semanas de 2020.

No começo de janeiro, o causador da Covid-19 era chamado de “vírus misterioso”, responsável pela “pneumonia inexplicável”. Cinco meses depois ainda restam dúvidas cruciais aos cientistas e descobertas que complexificam ainda mais o combate.

Dentre elas, ainda não se conhece qual é o tratamento ideal para pacientes, não existe vacina e não há garantias se a infecção garante o chamado “passaporte de imunidade”, explica Márcia Grisotti, pós-doutora em sociologia, e especialista em Sociologia da Saúde.

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O “passaporte de imunidade” garantiria que desde a socialite Gabriela Pugliesi, primeira famosa brasileira a ser infectada, até as vítimas invisíveis da Covid-19 distribuídas em periferias, não se infectariam mais com a Covid-19, mesmo em contato com o vírus.

“A resposta para essa pergunta é fundamental. Se você imaginar que as pessoas vão ficar se infectando o tempo inteiro, seria uma tragédia” explica Grisotti. Apesar de estudos apontarem a possibilidade da imunidade, eles são pequenos. “A OMS (Organização Mundial da Saúde) declarou que não existe evidência de que as [pessoas] que contraíram Covid-19 estão imunizadas”, afirma.

Como nossos tataravós

Ficar em casa, usar máscaras, evitar aglomerações e criar cordões sanitários em fronteiras entre estados, países e até municípios, são as as coisas que os nossos tataravós faziam para enfrentar a gripe espanhola, que matou entre 20 a 50 milhões de pessoas – os números da época são imprecisos.

“Se colocarmos a pergunta ‘o que aprendemos com a história social das pandemias’, mesmo com todo o avanço científico e tecnológico, vemos que dispomos hoje de dispositivos de biossegurança medievais. Usamos práticas que vinham antes da teoria dos germes” conta Grisotti.

Família durante gripe espanhola, em 1918, junto a seu gato. Eles combatiam a Covid-19 de forma semelhante a de hoje – Foto: Wikimedia Commons/Divulgação/ND

Para a especialista, que conta com amplo trabalho no estudo de pandemias e é também professora do Departamento de Sociologia Política da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), apesar de termos avançado na assistência médica, a saúde pública brasileira estagnou há décadas.

A situação amplia as nossas dificuldades em combater a Covid-19 no Brasil. E, para a doutora, é responsável pelo retorno de uma quantidade enorme de doenças infecciosas, como a meningite e a sarampo.

Até 2022”

Quem acessou o Twitter no dia 14 de abril viu que o “trending topic”, ou seja, o termo mais comentado na rede, daquela noite era “até 2022”. As citações causavam susto. Na ocasião, os internautas repercutiam o tweet do biólogo Atila Lamarino, que citava um estudo norte-americano, publicado na revista Science.

Em linhas gerais, baseado na modelagem matemática de propagação de doenças, o estudo aponta que, caso não haja vacina ou tratamento mais efetivo, podemos vivenciar algum grau de isolamento até 2022, explica o professor Daniel Santos Mansur, do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

Os especialistas de Harvard que desenvolveram o estudo concluem que uma única quarentena não é suficiente. Isso porque, conforme as previsões matemáticas, picos posteriores possuem risco de serem maiores do que aquele que vivenciamos agora.

Caso se confirme a existência do “passaporte de imunidade”, citado no início da reportagem, o vírus “desapareceria” em cinco anos. Entretanto, caso contrário, os especialistas sequer conseguem determinar data.

A experiência chinesa

As ruas de Wuhan, na China, completamente vazias no início de janeiro. Agora a cidade já reativou comércio e transporte público – Foto: Divulgação/ND

Em fevereiro deste ano era possível observar pelo noticiários as ruas vazias e os altos números de mortes na China, país do “outro lado do mundo”. Chegamos a decorar a pronúncia da palavra Wuhan, primeira cidade a registrar surto do novo coronavírus.

A sensação de empatia e receio era acompanhada também de um alívio por não estarmos no mesmo barco.

Três meses depois, entretanto, o “mundo girou”. Após 11 semanas de combate, a China começou a voltar ao normal. No fim de abril, ônibus e trens voltaram a circular em Wuhan, apesar de escolas, bares e restaurantes ainda permanecerem fechados. Na ocasião a China tinha apenas 2 mil casos de Covid-19, número que vem caindo, apontam os dados oficiais.

“Não é fácil responder. A China levou de três a quatro meses de lockdown para depois retornar a normalidade. Tudo vai depender da diminuição de casos de um dia para o outro” afirma o infectologista Valter Araújo, pós-graduado em controle de infecções na Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos

Seis meses de isolamento indicam “melhores cenários”

As formas de combate contra o coronavírus encontradas por países que sofreram surtos antes do Brasil, como China, Espanha, Itália, Nova Zelândia e Estados Unidos, para citar alguns, tem servido de espelho para práticas adotadas aqui.

Foi através da experiência internacional que, por exemplo, médicos oncologistas brasileiros passaram a considerar pacientes com câncer como parte do grupo de risco. Ou que o uso de máscara, antes restrita a pacientes infectados, passou a ser recomendado a toda população.

Países que foram rígidos com a pandemia logo que apareceram os primeiros registros, como a Nova Zelândia, conseguiram controlá-la bem mais rápido, destaca Mansur. O país, cujas lideranças anunciaram eliminação das transmissões comunitárias, reabriu comércio e as aulas em regime especial.

Via Merulana, em Roma, durante março, quando Itália viveu dias graves pandemia de Covid-19. Agora país tem queda em número de casos e mortes, e retorna lentamente para a normalidade – Foto: Juliana Kroeger/Divulgação/ND

Já países que não foram tão rígidos, como a Itália, Alemanha e EUA, a doença começou a ficar controlada após atingirem a média de 1 mil mortes por dias. “Existe a indicação que quando o pais chega a esse número e as mortes começam a baixar, a curva começa a diminuir junto” explica Mansur.

“O que será indicativo de controle é quando chegarmos num pico e esse pico começar a baixar. A perspectiva melhor para países como o nosso são seis meses, porque não tivemos uma resposta tão aguda” completa. Assim, poderíamos ver um maior afrouxamento do isolamento a partir de setembro.

Os fatores fundamentais considerados pelos especialistas para que possamos encerrar a pandemia: o desenvolvimento de vacina, a testagem de todos os sintomáticos, o desafogamento das vagas de UTIs e o número de curados ser maior que o de infectados.

E como será o novo normal?

Atividades como viagens, congressos e nightclubs serão as últimas a serem normalizadas, acredita o infectologista Valter Araújo. “A previsão da OMT (Organização Mundial do Turismo) é que leve cinco anos para que as viagens voltarem a ser o que eram janeiro, dezembro do ano passado”, destaca.

Para o infectologista, a pandemia influíra em regras mais pesadas para questões relativas à higiene e saúde pública. “A China já está fazendo isso. Para quem cuspir, defecar em público, jogar lixo, estão cobrando multa de $28 (dólares). Antes da pandemia, era $7. Aumentaram em quatro vezes” afirma.

Infectologista acredita que pandemia resultará no endurecimento das regras de higiene e saúde pública – Foto: Pixabay/ND

Para Grisotti, uma das heranças que levaremos dessa pandemia é aperfeiçoamento das formas digitais, como o comércio online, e uma conscientização maior sobre cuidados de higiene. “Também podem surgir patologias e fobias relacionados aos cuidados”, destaca.

A socióloga Márcia Grisotti também acredita que será latente uma discussão em torno das liberdades individuais em oposição à responsabilidade coletiva, dado o perigo do contágio do vírus. Aspectos como tecnologias de rastreamento de pacientes e até mesmo a obrigatoriedade ou não do tratamento.

“Orientei uma dissertação sobre um caso de um paciente que se negou a fazer tratamento para tuberculose. Ele tinha a liberdade para decidir, entretanto, contaminou todos os familiares. Essa é a discussão da modernidade: em nome de mais segurança, abrimos mão da liberdade. Talvez esse seja o dilema que a sociedade vai ter que pensar seriamente” afirma.

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