Defensor da Justiça Social: confira a trajetória do ex-desembargador Lédio Rosa de Andrade

Morreu na madrugada desta terça-feira (29), em Florianópolis, o desembargador Lédio Rosa de Andrade, aos 60 anos. Lédio foi internado há uma semana no SOS Cárdio para tratar de uma bactéria que se alojou no coração, foi liberado para fazer tratamento em casa, mas o quadro se agravou. Lédio concorreu a uma vaga ao Senado nas eleições de 2018 pelo PT.

Lédio Rosa de Andrade - Flávio Tin/ND
Lédio Rosa de Andrade – Flávio Tin/ND

Nascido em 1º de dezembro de 1958, na cidade de Tubarão, em uma família de três filhos de uma professora estadual com um representante de bebidas, Lédio destacou-se desde jovem como um ferrenho defensor da Justiça social e do direito alternativo. A poliomielite, adquirida com 1 anos e 8 meses não impediu de ter uma infância como as das outras crianças.

Na década de 1980 tornou-se o juiz mais jovem do país, ao ingressar na magistratura como substituto na comarca de Araranguá, e passou pelas principais cidades do estado — Chapecó, Itajaí, Criciúma e Tubarão, onde ficou 18 anos— até ascender ao posto de desembargador do Tribunal de Justiça de Santa Catarina.

Foi um dos responsáveis por conduzir o projeto Lar Legal, do Tribunal de Justiça catarinense, que garantiu a milhares de pessoas de baixa renda o direito ao título de suas casas. O projeto inspirou projeto de lei que tramita no Senado com objetivo de federalizar o projeto.

Na juventude, militou pelas causas sociais, presidiu a o DCE da UFSC,  fundou o PDT de Laguna e chegou a ser perseguido pela Ditadura Militar, o que lhe rendeu uma ficha no DOPS (Departamento de Ordem e Política Social). Ajudou na reconstrução da UCE (União Catarinense dos Estudantes).

No início da carreira de advogado chegou a oferecer seu trabalho de forma gratuita aos mais necessitados, em Laguna, através de um programa de rádio. Na época ainda se candidatou a prefeito da cidade, mas acabou abrindo mão da vida partidária para ingressar na magistratura.

Enxadrista, escritor, professor, doutor em psicanálise e pós-doutor em direito, ambos os títulos conquistados em Barcelona, que chamava de sua segunda cidade, Lédio também foi um crítico da Justiça e dizia que o aparato judiciário acabava servindo para manter a estrutura de poder e não para fazer a Justiça social que tanto defendeu. Lédio deixa esposa, três filhas e uma neta.

Manifestações públicas e o retorno a política

Depois de 37 anos dedicados à carreira judiciária, Lédio tentou voltar a política após se aposentar como desembargador. Chegou a ter seu nome considerado para o governo do Estado, mas acabou escolhido pelo PT para disputar uma das vagas ao Senado, cuja ficha de filiação foi assinada pelo ex-presidente Lula, na passagem da caravana do PT por Florianópolis, em março de 2018. A morte do desembargador gerou manifestação de políticos, autoridades e instituições.

“O desembargador Lédio teve uma longa carreira na magistratura, percorreu várias cidades do Estado, onde sempre atuou com independência e brilhantismo. Era uma pessoa de posições firmes, posicionamento ideológico bem marcado, mas sempre preocupado com a justiça, sempre preocupado em fazer justiça com base na Constituição Federal e nas leis. Deixa um legado importante para nós e seguramente vai fazer falta no mundo jurídico catarinense”, afirmou o presidente do TJ, Rodrigo Collaço.

O reitor da UFSC, Ubaldo Cesar Balthazar, lamentou o episódio: ”Realmente, triste. Um grande amigo que parte, grande homem, excelente intelectual! Uma pena!”.

Joares Ponticelli, presidente da Fecam, disse que “Santa Catarina perdeu um homem que testemunhava e resistia”.

O senador Dario Berger (MDB) divulgou nota de pesar onde destacou que o ex-desembargador

Era “um dos mais brilhantes magistrados do nosso estado”. Dário é o autor do projeto de lei para expansão do Lar Legal em nível federal.

A deputada estadual Ana Paula Lima (PT) citou uma das máximas de Lédio. “Ele sempre dizia: a democracia não permite descanso. Pode deixar Lédio, não vamos parar nossa luta”.

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