Deixar a chuva chover

Asfalto, concreto, piso, betume, calçada, laje, cimento. Nada disso combina com esta cidade que chora chuva, respira umidade e tem o corpo encharcado. A água não consegue mais respirar. Não se infiltra, não se esconde nos tubos, não se aninha em seus lençóis. Ela não dorme, faz vigília o tempo todo sob um céu estrelado ou de nuvens carregadas. 

As águas das torneiras e das chuvas correm sobre dutos cimentados e entupidos, sobre o asfalto-lâmina que se racha quando os líquidos tentam penetrar sua pele de piche. O desaguar dos pingos bate em pisos intransponíveis. Tentam fugir, escorrer, deslizar, mas não encontram nenhum reles ralo. Revoltados, formam poças e lagos artificiais, esperando com rasa paciência o sol: tornar a ser vapor e subir aos braços inquietos de cúmulos-nimbos. 

O cidadão líquido gosta de água. Mineral, potável, de coco, que-passarinho-não-bebe, gelada, do rio, do mar, da piscina, dos olhos. Odeia, porém, aquela água do céu: a água que voa, a água vertical, a água que deságua, a água-chuva-que-Deus-dá.  Odeia tanto que faz tanques, barreiras e misturas químicas que impedem o mergulho da água no solo-esponja da cidade. 

Muitos habitantes molhados lacraram o chão como cofres de zinco. Jogaram as chaves no mar e esqueceram a combinação para abrir. A chuva-que-Deus-dá não é bem recebida em sua própria terra. Ela se vinga pela falta de zelo (e fé) do homem impermeável: invade as casas pelas portas, janelas e outros buracos. 

Há água sobre o asfalto e não é miragem. Há poças andando nas calçadas novas. Há pingos aglomerados esperando ônibus nos terminais. Há águas reticentes no centro alagado e nos cantos mofados da cidade. Chuvisco, garoa ou chuvarada estão impedidos de entrar nas artérias da terra: hemorragiam-se todos os dias, chova ou faça sol. E por ironia – veja só – falta água no parque das Águas. 

Pluviais ou fluviais, as águas reclamam seus ciclos, caminhos, bueiros e saídas. Querem correr as correntezas e quedas que lhes são próprias. Obstruída, água parada é morte, sujeira e medo. O limo no muro, nas trincas dos paralelepípedos e nas rachaduras da parede são avisos da resistência aquática. A água derramada quer apenas ser água, deixar-se levar pelos poros do chão, entrar no casulo da terra e metamorfosear-se em novas nuvens, novas chuvas e novos rios em verões do por vir. 

Calhas, encanamentos, tubulações, conexões, drenagens, sulcos e escoadouros são palcos perfeitos para os movimentos dançantes das águas e o respirar altivo da terra. As águas anseiam ser livres para que todos possam andar pelas ruas sem precisar vestir aquele desconfortável escafandro.

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