Descubra o que é incongruência de gênero e como a família deve tratá-la

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Imagine a seguinte situação. Você nasceu. “Parabéns, é um menino”, diz o médico empolgado aos seus pais ao checar sua saúde e ver seus órgãos genitais. Automaticamente, você ganha roupinhas azul, quarto verde, carrinhos, bolas de futebol, skates e tanto outros elementos do tal “universo masculino”. Vira até torcedor fanático com direito a roupinhas com emblemas do Avaí ou Figueirense. Torna-se o João, Luiz, Paulo, Alex.

Mas então você começa a crescer. Aos três anos, acaba gostando mais das brincadeiras “ditas do sexo feminino”, da companhia das amiguinhas. Coloca uma toalha na cabeça e diz “sou menina”. Quer vestir roupas de sua mãe, de sua irmã. Apresenta um desejo muito mais íntimo pelo gênero oposto, algo que vai além de uma simples descoberta ou brincadeira de criança.

“O transgênero é alguém que nasce com um sexo biológico, mas se identifica como do sexo oposto, ou seja, ele tem uma incongruência.”

Os anos passam, e cada vez mais você percebe que há algo errado contigo. Por volta dos sete anos, ou aos 12, já na pré-adolescência, sente uma divergência salutar ente ti e os demais meninos do bairro ou da escola. No coração e no cérebro se entende como menina, quer ser Maria, Luíza, Paula, Alex… mas algo no meio da suas pernas mostra o contrário.

Chega então a puberdade, a enxurrada de hormônios e tudo fica ainda mais complicado. O que fazer? Como lidar com todos estes sentimentos controversos? “O que há de errado comigo”, você se pergunta.

Apoio psicológico ajuda famílias e crianças e adolescentes trans a encontrarem sua verdadeira identidade – Foto: Anderson Coelho/ND

Federação médica defende aprimoramento de assistência

Difícil né? Mas é em meio a esta realidade que vivem milhares de trans do Brasil e do mundo afora. Crianças e adolescentes que apresentam incongruência de gênero. O termo foi proposto pelo CFM (Conselho Federal de Medicina), que no último dia 9, publicou a resolução 2.265/2019. O documento aprimora a assistência em saúde às pessoas nesta condição.

A Federação Médica define incongruência de gênero como a “não paridade entre a identidade de gênero e o sexo ao nascimento, incluindo-se neste grupo os transexuais, travestis e outras expressões identitárias relacionadas à diversidade de gênero”.

É na assistência a estes pacientes e suas famílias que se concentra o trabalho de pesquisa de uma psicóloga manezinha da Ilha. Priscila Netto de Campos da Silva, 34 anos, integra um dos mais importantes grupo de estudos sobre gênero no país, desenvolvido no Amtigos (Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual, do IPQ/USP (Universidade de São Paulo), no Hospital das Clínicas de São Paulo.

“Uma das teorias cientificas que estão mais em voga hoje em dia para se entender a incongruência de gênero é a de que, durante a gravidez, o cérebro se desenvolve com determinados hormônios para um gênero – feminino, por exemplo, – enquanto o corpo, biologicamente se desenvolve para o sexo oposto – masculino, neste caso, – ou vice-e-versa”, afirma a especialista catarinense.

O trabalho da catarinense tem sido pioneiro no Estado. Priscila atente a mais de 30 jovens que passam por esta transição na capital paulista. Em Florianópolis, outros 10 fazem tratamento psicológico com a pesquisadora. Entre seus pacientes a maioria é de meninos trans, ou seja, pessoas que nasceram com o sexo biológico feminino e se sentem pertencentes ao gênero masculino. A idades deles variam entre 12 e 18 anos.

Os fatores biológicos e os psicológicos que definem os gêneros – Foto: Ilustração/ND

Gênero se expressa na primeira infância

Foi Priscila Netto Campos da Silva quem ajudou a construir parte da narrativa que abre esta reportagem. Assim como foi ilustrado no começo do texto, a maioria dos casos de incongruência de gênero se manifesta muito cedo, mas nem sempre pelos pais, professores, psicólogos ou médicos percebem a situação.

“É por volta dos dois três anos que a criança expressa a sua identidade de gênero. É ali, em meio à experimentação que ela se descobre e se identifica como menino ou menina. Para alguns esta será só uma fase de experimentação. Mas para outros, tudo pode ficar mais intenso aos sete oito anos”, explica a pesquisadora.

Segundo Priscila, “se este quadro não foi percebido a tempo, e um tratamento não foi iniciado estas crianças entram em depressão, isolamento, que, em alguns casos podem até levar a cortes, mutilações, suicídios”. “Por isso, a atenção dos pais é fundamental, com um diagnóstico e tratamento especializado esta criança, este adolescente pode passar por esta fase com mais segurança e crescer feliz e saudável, mesmo diante de sua incongruência de gênero”, alerta a psicóloga catarinense.

Ainda conforme os estudos da especialista, meninos e meninas que seguem com atitudes e sentimentos de incongruências de gênero até os 12 anos, normalmente levam o comportamento a vida adulta, torando-se homens e mulheres trans.

“O sofrimento de uma criança trans pode ser imenso. Imagine só na escola, você se vestir como menina, viver como uma menina e na hora da chamada o professor ou a instituição se recusar a utilizar seu nome social, e te chamar pelo nome masculino ou te obrigar a utilizar um banheiro no qual você não se sinta adequada a utilizar.”

Equipe multidisciplinar para tratar a família

Este trabalho de atendimento aos trans e suas famílias não é feito apenas por psicólogos, mas sim por uma equipe multidisciplinar. “Quando estes casos são identificados e estas crianças e adolescentes começam a integrar os grupos de pesquisas, elas passam a ser acompanhadas por médicos, psiquiatras, pediatras, endocrinologistas, assistentes sociais e psicólogos. Juntos eles vão trabalhar para dar a melhor qualidade de vida e tratamento a este paciente e seus familiares”, salienta a psicóloga e pesquisadora da USP, Priscila Netto Campos da Silva.

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Com todo este suporte, e depois de um diagnóstico fechado, é que começam então os tratamentos de bloqueio hormonal e depois de readequação hormonal. Com a nova resolução do CFM estes procedimentos agora podem ser feitos a partir dos 16 anos. Já a cirurgias de resignação sexual, retirada das mamas e aparelho reprodutor feminino – no caso dos homens trans –  e órgãos genitais masculinos –  no caso das mulheres transexuais – agora podem ser realizados em jovens maiores de 18 anos. Antes isso só poderia ser feito a partir dos 21 anos de idade no Brasil.

Em todo o país este tipo de tratamento é oferecido na rede de saúde privada e também pelo SUS (Sistema Único de Saúde).

Saiba mais

Quem é a profissional Priscila Netto de Campos da Silva

Psicóloga clínica

Especialista em terapia cognitivo comportamental

Mestranda em Psicologia Clínica – PUC/ SP

Psicóloga no AMTIGOS (Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual), do IPQ/USP

Saúde