Desgastadas e apagadas, faixas de trânsito da Capital colocam pedestres em risco

Daniel Queiroz/ND

Faixa apagada em frente ao Terminal do Rio Tavares, na SC-405

Faixas de segurança, como o próprio nome diz, são sinalizações fundamentais para garantir que o pedestre atravesse a rua em segurança. Deveriam servir como “ilhas” de proteção ao lado mais frágil do trânsito. A realidade em Florianópolis, entretanto, é oposta.

Em diferentes regiões da Capital, cruzar pelas listras (quando existem) da faixa não significa estar seguro. Pedestres ficam vulneráveis. Vulnerabilidade calcada no desrespeito de motoristas, na falta de manutenção das faixas e da quase “inexistência” de muitas delas.

Ciente da dificuldade de se fazer cumprir as normas do Código de Trânsito Brasileiro, que dispõe, no artigo 71, que “o órgão ou a entidade com circunscrição sobre a via deve manter, obrigatoriamente, faixas e passagens de pedestres em boas condições de visibilidade, higiene, segurança e sinalização”, o Notícias do Dia circulou pela Capital para conferir a situação das sinalizações horizontais.

A situação é crítica, especialmente em alguns pontos do Centro, Córrego Grande, Rio Vermelho e em Ingleses. Nessas regiões, a população clama pela demarcação correta das faixas. Além da insegurança, muitos têm que conviver com o trauma de presenciar acidentes, muitas vezes em frente a escolas, como Maria Roseli de Castro, 52 anos. “Fui atravessar a rua pela faixa de pedestres, com meu filho, para ele ir à escola. Íamos tranquilos, quando o primeiro carro parou. O problema é que o de trás não viu e bateu. Aconteceu um engavetamento com quatro carros, foi horrível”, relatou Maria, em frente à Escola Municipal Luiz Cândido da Luz, na SC-403, em Ingleses. “Meu menino de sete anos ficou assustado”, completou.

Diretor de Trânsito do Ipuf (Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis), órgão responsável por manter e conservar as faixas de pedestres na Capital, Adriano Melo reconhece a dificuldade em atender todos os pedidos de reforço na pintura das faixas. Os motivos, explicou, são o pequeno efetivo para cuidar da manutenção – cinco pessoas -, as condições climáticas e o trânsito intenso durante o dia, o que obriga o trabalho ser feito à noite.

Ilma não esperou pela prefeitura

Há pouco mais de 20 dias, cansada de esperar pelo poder público na manutenção de uma faixa de pedestres em frente à sua casa, Ilma Maria Marcos, 76 anos, moradora da rua Capitão Romualdo de Barros, na Carvoeira, decidiu pintar a faixa. Em companhia de uma amiga, Ilma fez por conta e risco o que é dever da Prefeitura da Capital: cuidar das faixas.

O Notícias do Dia contou com exclusividade a história de Ilma no dia 18 de março, uma terça-feira, três dias depois que ela, que já foi atropelada em cima da faixa de pedestres, ter feito o serviço do poder público. “Ligamos para a prefeitura e eles disseram que só poderiam vir aqui pintar depois da Copa do Mundo (em julho), então decidimos fazer nós mesmas”, contou Ilma. Após a publicação da reportagem, funcionários da prefeitura terminaram o trabalho começado por Ilma.

Ipuf prioriza locais mais movimentados

Adriano Melo, diretor de trânsito do Ipuf, explicou que a prioridade do órgão são escolas e locais com fluxo intenso de pessoas. Após isso, garante, o trabalho se volta à precariedade das faixas, do Centro em direção aos bairros.

Segundo Melo, de 2.000 faixas que precisavam de manutenção, 286 foram pintadas ainda no final do ano passado. “Estamos levantando o total de faixas na cidade, mas em situação precária foram essas 2.000 que calculamos”, afirmou.

Cada faixa de pedestres pintada pelo Ipuf, conforme Melo, deve durar de três a quatro anos. Não existe distância pré-determinada entre elas. O diretor informou que na noite de ontem diversas ruas do Centro ganhariam reforço nas faixas de pedestres. Após isso, a prioridade do Ipuf se voltará para Ingleses, Rio Vermelho e Córrego Grande. “São regiões que receberão nossa total atenção nos próximos meses”, afirmou.

Rodovias estaduais

Nas rodovias estaduais, de responsabilidade do Deinfra (Departamento de Infraestrutura), obras e projetos de reurbanização fazem com que ninguém assuma ser responsável por manter as faixas de segurança. Superintendente regional do Deinfra, Cleo Quaresma afirmou que na SC-403, no perímetro da rodovia que está sendo duplicado, a construtora Espaço Aberto é que deve manter e conservar as faixas. “Todo trabalho de limpeza, manutenção e conservação da 403 é com a Espaço Aberto”, afirmou.

Diretor técnico da Espaço Aberto, Reinaldo Damaceno disse desconhecer o problema nas faixas de pedestres da SC-403, mas relativizou dizendo que ali será construída uma passarela. Quando questionado se as crianças terão que esperar a passarela ficar pronta para chegarem à escola em segurança, Damaceno prometeu verificar a situação.

Sobre a SC-405, Quaresma disse que o projeto de revitalização, que inclui a construção de ciclovias, ficou a cargo da Secretaria de Estado de Infraestrutura. “Assim, as faixas de segurança também são responsabilidade da Infraestrutura”, disse. A reportagem tentou confirmar a versão de Quaresma, mas ninguém da secretaria se dispôs a falar sobre o assunto.

Córrego Grande

Principal rua do bairro, a João Pio Duarte Silva passa em frente à UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), escola, posto de saúde e supermercado, tem em dois quilômetros de extensão 19 faixas de pedestres. Mesmo assim, atravessá-la não é fácil, pois a maioria das faixas está com a pintura desgastada e algumas têm apenas uma listra demarcada. “As faixas são péssimas. Moro no Jardim Itália, sou pedestre e motorista, mas falta maior cuidado com as faixas, é preciso que estejam sempre bem pintadas”, cobrou a aposentada Marly Mira, 78.

Centro

No cruzamento da rua Doutor Armínio Tavares com a avenida Rio Branco, numa região movimentada do Centro, ao lado do Hemosc (Centro de Hematologia e Hemoterapia de Santa Catarina), duas faixas de pedestres só são reconhecidas pelos restos de tinta branca. Quem trabalha e frequenta o Hemosc reclama: “Aqui já teve vários acidentes, principalmente porque a faixa apagada fica numa ladeira. O pior é que já ligamos pra prefeitura e ninguém fez nada”, disse o vigilante Fábio Prestes, 33, que da guarita do Hemosc já presenciou de tudo. “Já vi atropelamento, mas batidas traseiras são mais frequentes”.

SC-405, Sul da Ilha

Faixas de segurança mal demarcadas e outras desativadas que ainda estão pintadas são a tônica da SC-405, no Sul da Ilha. Nos comércios às margens da rodovia, as pessoas comentam sobre o fato de que as faixas desativadas estão com melhor pintura do que as “oficiais”. “Nessas desativadas, as pessoas atravessam porque está pintada. E é perigoso, já que nem todos os carros param”, afirmou a comerciante Maria Aparecida, 55. Em frente ao terminal do Rio Tavares, a faixa de pedestre que leva aos ônibus está com a pintura desgastada. “Há meses a pintura está fraca”, revelou Daniela Martins.

Rio Vermelho

Uma das principais vias do Rio Vermelho, a Servidão dos Vieiras, tem quatro faixas de pedestres em que apenas metade do cruzamento está pintada. A outra metade é asfalto sem tinta. Por lá, relatam moradores e comerciantes, as passagens entre um lado e outro da rua estão apagadas há mais de um ano. Atendente num restaurante, Francine Bastos, 19, calcula que toda semana a faixa de segurança em frente ao seu emprego é palco de freadas bruscas que assustam pedestres e clientes. “A gente liga para a prefeitura, para o Ipuf, para todo mundo e ninguém faz nada”, contou.

SC-403, Norte da Ilha

Num trecho de menos de um quilômetro tem três faixas em péssimo estado de conservação. A pior delas é a que deveria estar melhor, pois fica em frente à Escola Municipal Luiz Cândido da Luz. Centenas de crianças atravessam a faixa para estudar. Ao lado, fica o canteiro de obras da empresa Espaço Aberto, responsável por duplicar a rodovia e também por cuidar das faixas de segurança no perímetro da obra. Um funcionário da construtora teve uma filha atropelada perto da escola. “Por sorte a moto vinha devagar. Foram só alguns esfolados”, disse o operário Robson Alves, 31.

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