Destinos levam tempo

Tempo e circunstâncias se encarregaram de separá-los, fisicamente, no início, depois, talvez por causa dos caminhos percorridos, talvez porque o caráter é forjado nas lides da vida, separaram-se também as crenças

Há muito não se viam, o encontro foi por puro acaso. Não chegou a ser espalhafatoso, mas sobraram abraços e alegrias.

Estudaram juntos e eram inseparáveis; por dias e mais dias, noites e mais noites resolveram os problemas do mundo, alimentando-se de utopias e justiças. Tempo e circunstâncias se encarregaram de separá-los, fisicamente, no início, depois, talvez por causa dos caminhos percorridos, talvez porque o caráter é forjado nas lides da vida, separaram-se também as crenças.

Parados os dois, cada um vendo o quanto o outro mudou. Diferentes, a começar pela roupa: um, casual, confortável, refletindo no vestir o sorriso do rosto; formal, rígido, tudo certo e no lugar, o outro, retrato de sua postura quase doída. Olhares diferentes, até: curioso, alegre, absorvendo o mundo pelos olhos, um; o outro olhando desconfiado para tudo e todos, como se na iminência de ser atacado. As rugas de preocupação nos cantos da boca não ajudavam nem um pouco.

“Que bom ver você, como é bom lembrar tanta coisa que vivemos juntos. E aí, fazendo o quê?”

“Trabalhando, trabalhando muito, não posso parar, você sabe, não dá para confiar em ninguém. Depois que me formei fui trabalhar com meu sogro, você lembra. Pois é, dei um jeito naquela espelunca e hoje posso dizer que tenho um império.”

“E em casa?”

“Nem te conto; é um inferno, só reclamam. A mulher, os filhos. Só falta o cachorro reclamar. É porque não estou em casa, porque não dou bola, porque só penso em serviço e assim vai. Não entendem que é por eles que faço isso: eles estão com o futuro garantido. Mas me conte de você”

“Eu viajei um tanto, conheci lugares, pessoas. Apaixonei-me a valer. Não fiz nenhum império; em casa temos o que precisamos e curtimos um monte. Sabe nossos ideais de juventude? Pois continuam vivos em mim, ainda creio neles.”

“Não posso acreditar; você continua adolescente, acorde, o mundo não precisa de pessoas como você.”

Conversaram mais um tanto, mas a conversa foi perdendo a graça. O tempo os havia tornado muito diferentes.

Separaram-se. Um,  carregando o peso do passado e a angústia do presente; o outro o desafio do futuro.

“Coitado, não vai mudar nunca”, pensou o primeiro.

“Coitado, não vai mudar nunca”, pensou o segundo.

Numa coisa, ao menos, concordaram.

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