Dia do pescador: sem motivos para comemorar

Atualizado

Na data em que se comemora o Dia do Pescador, 29 de junho, há pouca coisa para festejar, segundo os pescadores artesanais do Sul da Ilha de Santa Catarina. E isso é praticamente um consenso entre esse grupo de trabalhadores do mar que luta, ano após ano, para manter a atividade.

Pescadores da praia do Campeche passaram a tarde observando o mar à espera das tainhas. Bem à direita, Adir Plácido Vigânigo – Anderson Coelho/ND

Sua resistência quase beira a teimosia, mas é por conta dela que ainda apreciamos lindos espetáculos da rede sendo puxada e do alimento sendo compartilhado nas comunidades. Mas, até quando?

Para o engenheiro ambiental Adir Plácido Vigânigo, que pesca há 50 anos, o futuro da pesca artesanal é cultural. “A gente continua por teimosia e para manter a tradição”, diz. “Analisando economicamente, nunca foi lucrativo. A pesca era um meio de subsistência para as pequenas comunidades no inverno, época em que não havia colheita nas plantações, então as pessoas se dedicavam à captura da tainha”, conta.

“Hoje, todos os pescadores aqui tem outra atividade e 90% são aposentados. Até entra gente nova, mas não o suficiente para substituir os que estão envelhecendo”, afirma.

Na análise de Adir, proprietário de barco de pesca no Campeche, a industrialização provocou mudanças drásticas na forma do ilhéu ganhar a vida. “A agropecuária foi sendo substituída pela prestação de serviços e a pesca também se modernizou, com os barcos industriais”, aponta.

Na opinião dele, a tendência é que as embarcações passem a ser feitas de fibra, como as utilizadas de Laguna a Torres, e motorizadas. “Além de serem mais leves, apenas duas pessoas conseguem operar a embarcação. Hoje, as canoas que temos são reformadas e há poucas pessoas que trabalham nesse ramo”, diz.

Marcio Manoel da Silva, pescador da praia da Armação – Anderson Coelho/ND

Para Márcio Manoel da Silva, 50 anos, da Armação do Pântano do Sul, o futuro da pesca é ruim e a atividade é prejudicada pelos barcos de grande porte. “Antigamente era mais fácil, tinha muito peixe aqui na beira da água. Mas os atuneiros e camaroneiros fazem a pesca predatória que acaba com os filhotes de peixes, que nem chegam até a costa, como é o caso da abrótea que vem desovar”, analisa.

“Os atuneiros vêm buscar a manjuba e levam para o alto mar, mas ela é alimento de outros peixes – como espada, gordinho e pescadinha – que acabam deixando de vir em busca de comida e ficamos sem ter o que pescar”, afirma Márcio.

“A pesca artesanal capturou 254 toneladas até agora [equivalente a 21% da cota deste ano], mas um barco de cerco pesca essa quantia em um dia, vai acabar com o pescado. Fizeram o certo não liberando a industrial este ano”, analisa Filipe Silveira, 23 anos, pescador do Pântano do Sul.

Filipe Silveira é um dos poucos jovens que se dedica à pesca artesanal no Pântano do Sul – Anderson Coelho/ND

“Sou favorável à redução ou suspensão da pesca industrial por uma ou duas temporadas, pois há uma redução gradativa de várias espécies. Já não pegamos mais corvina, que era muito comum aqui no Campeche. Então, a medida é necessária para que os cardumes se renovem e possam crescer”, diz Adir.

Dificuldades e alternativas

“A pesca artesanal piorou muito nos últimos 50 anos, tanto pela industrialização quanto pela prática de esportes náuticos como o surfe e os passeios turísticos para a Ilha do Campeche, com botes motorizados. Nossa pesca é quase silenciosa e essa movimentação das águas junto com o barulho de motores espantam os cardumes”, justifica Adir.

Além disso, o tempo não colaborou. “A tainha deixa as águas frias da lagoa para desovar em águas mais quentes ao longo de toda a costa brasileira até Santos. Quando entram as correntes fortes com vento Sul, elas param para descansar, procurando os costões. Mas este ano está horrível, com pouquíssima captura por falta do frio”, afirma o pescador.

A opinião é similar à dos pescadores do Pântano do Sul. “O tempo não ajudou, não deu vento Sul forte e esse calor não é bom para nós. Enquanto capturamos 17 toneladas no ano passado, neste ano ainda não passou de quatro aqui no Pântano”, diz Claiton dos Santos, 39 anos.

Nascido na comunidade de pescadores, Claiton reclama da política de pesca e da falta de fiscalização. “Somos cerca de 70 pescadores aqui no Pântano do Sul, mas a Associação tem 600 que recebem defeso e nem pescam mais”, diz.

Alto custo x preço baixo

Para José Hercílio Gonçalves, o seu Zeca, que pesca desde os dez anos de idade, a atividade está cada vez mais cara e difícil. Aos 64 anos, ele já se desfez de seu barco, mas continua ajudando a consertar redes. “Criei quatro filhos com a pesca, mas hoje não vale a pena porque o resultado não dá para cobrir os custos”, afirma.

Jose Hercílio Gonçalves, o Zeca, do Pântano do Sul – Anderson Coelho/ND

E esses custos são bem elevados. Uma canoa antiga, dessas centenárias, custa cerca de 20 mil reais; a pintura das embarcações em torno de 650 reais e uma rede cerca de 300 reais. “Temos 120 redes, cada pesca é uma rede, no final do dia tem que substituir por outra e consertar a que foi usada”, diz Claiton.

Raridade nesse meio permeado de experientes trabalhadores, o jovem Filipe veio do estado gaúcho aos nove anos de idade e acabou ‘fisgado’ pela arte de pescar. Casado e sem filhos, ele afirma que é preciso trabalhar duro para se manter e que a maior dificuldade é a desvalorização do pescado.

“O preço do peixe é muito baixo e não muda de um ano para outro, ao contrário do frango e da carne. Com as frotas industriais paradas, a tendência era de que o preço do artesanal subisse, mas se subir muito as pessoas não compram”, lamenta. Outro agravante é o período da pescaria. “O barco industrial trabalha o ano inteiro enquanto a gente fica uns dois, três meses”, diz Filipe.

Turismo é alternativa

Como alternativa, muitos apostam nos passeios turísticos. “O que nos salva é o turismo. São três meses em que aproveitamos para levar turistas até a Lagoinha do Leste, tirando entre 60 a 100 reais por dia”, revela Zeca.

Essa também é a saída para os pescadores da praia da Armação, que realizam passeios até a Ilha do Campeche, de dezembro a março. “Nossa sorte é o turismo. A gente ganha no verão para poder comer no inverno”, diz Márcio.

Claiton dos Santos, pescador do Pântano do Sul – Anderson Coelho/ND

A ameaça da pesca predatória é real e, somada às mudanças climáticas e à falta de renovação da força de trabalho, forma um cenário incerto para a atividade.

Por isso, nenhum deles pretende festejar seu dia. “A comemoração é com trabalho. A vida de pescador agora não tá fácil e é muito caro pescar em alto mar. Para comprar um barco de cerco desses é preciso desembolsar entre 90 mil e 100 mil reais, sem contar as redes”, diz Zeca.

Apesar das dificuldades, essa turma de resistentes nem pensa em abandonar a atividade. “Tem o lado bom que é o prazer de pescar. A gente entra no mar e esquece tudo, desestressa”, afirma Claiton.

Dia do pescador: sem motivos para comemorar

Dia do Pescado é comemorado em 29 de junho - Anderson Coelho/ND

Dia do Pescado é comemorado em 29 de junho - Anderson Coelho/ND

 - Claiton dos Santos_Dia do pescador - Pantano do Sul_Anderson Coelho_4549

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 - Claiton dos Santos_Dia do pescador - Pantano do Sul_Anderson Coelho_4557

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 - Claiton dos Santos_Dia do pescador - Pantano do Sul_Anderson Coelho_4569

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 - Dia do pescador - Armação_Anderson Coelho_4770

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 - Dia do pescador - Armação_Anderson Coelho_4790

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praia - Dia do pescador - Campeche_Anderson Coelho_4941

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 - Dia do pescador - Campeche_Anderson Coelho_4966

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 - Dia do pescador - Campeche_Anderson Coelho_4970

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pescador - Anderson Coelho/Divulgação/ND

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 - Dia do pescador - Pantano do Sul_Anderson Coelho_4644

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 - Dia do pescador - Pantano do Sul_Anderson Coelho_4695

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 - Jose Hercilio Gonçalves_Dia do pescador - Pantano do Sul_Anderson Coelho_4407

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 - Jose Hercilio Gonçalves_Dia do pescador - Pantano do Sul_Anderson Coelho_4431

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 - Jose Hercilio Gonçalves_Dia do pescador - Pantano do Sul_Anderson Coelho_4464

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 - Jose Hercilio Gonçalves_Dia do pescador - Pantano do Sul_Anderson Coelho_4519

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 - Marcio Manoel da Silva_Dia do pescador - Armação_Anderson Coelho_4809

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 - Marcio Manoel da Silva_Dia do pescador - Armação_Anderson Coelho_4815

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 - Marcio Manoel da Silva_Dia do pescador - Armação_Anderson Coelho_4825

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Mesmo com a queda das temperaturas, lanços de tainha estiveram muito abaixo da expectativa inicial - Marcio Manoel da Silva_Dia do pescador - Armação_Anderson Coelho_4847

Mesmo com a queda das temperaturas, lanços de tainha estiveram muito abaixo da expectativa inicial - Marcio Manoel da Silva_Dia do pescador - Armação_Anderson Coelho_4847

Filipe Silveira é um dos poucos jovens que se dedica à pesca artesanal no Pântano do Sul - Anderson Coelho/ND

Filipe Silveira é um dos poucos jovens que se dedica à pesca artesanal no Pântano do Sul - Anderson Coelho/ND

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