Documentos comprovam passagem de Saint-Exupéry por Florianópolis

Atualizado

De relatos orais a pesquisas acadêmicas, a passagem e estadia do piloto e escritor francês Antoine de Saint-Exupéry pela Ilha de Santa Catarina finalmente está comprovada. Mesmo com muitos indícios, a permanência de Saint-Exupéry foi contestada durante anos, justamente porque não havia provas documentais.

Foto colorizada de Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944), autor de O Pequeno Príncipe – Mônica Corrêa/Divulgação/ND

Após mais de 12 anos de pesquisas – com apoio da Fapesc (Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina), a historiadora e presidente da Amab (Associação e Memória da Aéropostale no Brasil), Mônica Cristina Corrêa, apresentou vários documentos que atestam o fato.

As referências estão em jornais brasileiros e franceses – digitalizados há pouco tempo pelas hemerotecas da Biblioteca Nacional, Folha de São Paulo e Estadão – e foram apresentadas em conferência pela pesquisadora esta semana, na sede do IHGSC (Instituto Histórico Geográfico de Santa Catarina), em Florianópolis.

As reportagens falam sobre os voos feitos por Saint-Exupéry entre 1929 e 1931, como piloto da Aéropostale, e de sua passagem pela capital catarinense. “Ele vinha, abastecia o avião, pegava as encomendas do correio e ia embora. Quando não dava para ir devido às más condições do tempo, ficava, tomava um café, conversava com as famílias locais”, diz Mônica.

Autor de vários livros, entre eles sua obra mais famosa – O Pequeno Príncipe (1943), Jean-Baptiste Marie Roger Foscolombe era um nobre. O Conde de Saint-Exupéry teve uma vida breve, aventureira e heroica, e trabalhava como aviador contratado para fazer entregas postais. E foi assim que veio parar no Campeche, no Sul da Ilha de Santa Catarina.

‘Zé Perri’ no Campeche

Exupéry inaugurou a aviação turística com um voo de Buenos Aires ao Rio de Janeiro, com escala em Florianópolis – Divulgação/ND

As referências à estadia dos pilotos franceses no Campo de Aviação do Campeche, foram contadas e recontadas pelos pescadores e seus descendentes.

Pouco acostumados com a vinda de estrangeiros, ainda mais em ‘máquinas voadoras’, chamavam o piloto-escritor de Zé Perri. O simpático francês fez amizade por aqui. Uma delas foi com o pescador Rafael Manoel Inácio, o seu Deca, que o ensinou a pescar, a preparar os peixes e comê-los com pirão d’água. A história é contada no livro “Deca e Zé Perri” (2000), de Getúlio Manoel Inácio, filho do seu Deca e falecido em 2018.

Como consequência de algo tão inusitado na pequena comunidade de pescadores dos anos 1920, essas lembranças ainda estão vivas na família. A neta do Deca, Carla Inácio da Cunha, lembra que seu pai falava muito sobre isso. “Ele dizia que o meu avô tinha dificuldade de pronunciar o nome do Saint-Exupéry, e o chamava de Zé Perri”, afirma Carla. “Os relatos encontrados em jornais confirmam aquilo que meu pai e avô contavam”, diz.

Provas documentais

Na internet ou em livros, é possível encontrar algumas citações sobre a passagem de Saint-Exupéry pela capital catarinense. “Mas não temos fotos de pilotos no Campeche, e eles não costumavam registrar essas escalas nos planos de voo”, conta Mônica. Apesar disso, os recortes de jornais encontrados servem como prova documental da presença do francês na Ilha.

Os textos revelam, por exemplo, que Saint-Exupéry desembarcou pela primeira vez na América do Sul em 12 de outubro de 1929. E continuou fazendo o correio aéreo entre a Argentina e o litoral brasileiro até março de 1931, quando a Aéropostale entrou em crise. A maior companhia de aviação comercial foi finalmente aglutinada, junto com outras quatro empresas francesas, em 1933, tornando-se mais tarde a Air France.

À direita, o radiotelegrafista Paul-Henri Dissac, que voou com Saint-Exupéry, acompanhado de Odilon Muniz Barreto, na casa de rádio do Campeche, que não existe mais – Acervo Amab/Divulgação

Recortes do jornal República, de junho de 1927, dão conta de que os pilotos franceses faziam escala na Ressacada e chegaram a ser recepcionados pelo então prefeito Heitor Blum e outras autoridades locais. Em setembro daquele ano, o jornal Estado cita o pouso de um dos pilotos, Paul Vachet, na praia do Campeche. Foi este mesmo piloto quem comprou dos pescadores locais o terreno conhecido atualmente como Campo de Aviação.

Também há registros de que Saint-Exupéry não só fazia o correio aéreo como levava passageiros. O francês levou oito jornalistas argentinos de Buenos Aires ao Rio de Janeiro, no dia 16 de abril de 1930, numa viagem que durou 12 horas. “O avião ia ‘pingando’ em Montevidéu, Pelotas, Porto Alegre, Florianópolis – onde pernoitaram porque chovia muito, Santos e finalmente o Rio”, conta Mônica.

Uma foto dele foi publicada no jornal Diário da Noite em 17 de abril de 1930, citando-o como escritor pela primeira vez (seu primeiro livro, Correio Sul, foi publicado em 1929). Também há referências desse voo em O Jornal (RJ), na mesma data, sob o título “Aviação commercial”.

“Saint-Exupéry inaugurou uma nova etapa da empresa – a aviação turística, e por isso foi noticiado. As viagens se tornam semanais, mas a atividade não durou muito – terminou em 15 de maio do mesmo ano, porque a duração da Aéropostale é muito breve”, diz a historiadora.

Por fim, o próprio escritor fala de Florianópolis em sua segunda obra, Voo Noturno, de 1931.

Primeiro aeroporto da Capital

Também foram encontrados um relatório do referido governador de Santa Catarina e outro do prefeito de Florianópolis Heitor Blum registrando a importância do campo de pouso do Campeche. “As notícias revelam que não era apenas um aeródromo, era aeroporto. Houve almoço de inauguração e o piloto Vachet levou autoridades para voar”, aponta a pesquisadora.

Pilotos com moradoras do Campeche. Foto do Museu Air France – Acervo Amab/Divulgação

Em notícia veiculada pela Folha da Manhã (SP), na edição de 11 de maio de 1928, fala-se da inauguração do primeiro aeroporto de Florianópolis, prevista para ocorrer em 13 de maio de 1928, com o nome do então governador Adolfo Konder. E a importância disso está no relatório do próprio governador.

Altino Flores – um dos fundadores da Academia Catarinense de Letras – também voou, com o piloto Mermoz, em 18 de maio. “Flores descreve o casarão dos pilotos e tudo que continha lá, além do Campo de Aviação”, afirma Mônica.

Posteriormente, a cidade também ganhou uma agência da Aéropostale, com sede no entorno da Praça XV de Novembro, nas proximidades do atual Bradesco.

Preservação da memória

Durante o período de funcionamento do correio aéreo francês, os pilotos ficavam nas estruturas montadas pela Aéropostale, ao longo da costa brasileira. Elas contavam com hangar (com um avião sobressalente), casa de rádio, antenas sem fio e a casa de pilotos, que servia de oficina, dormitório e refeitório.

As principais escalas ficavam em Pelotas, Porto Alegre, Florianópolis, Santos, Petrópolis, Rio de Janeiro, Vitória, Maceió, Recife, Natal e Fernando de Noronha, onde também havia base. “Florianópolis foi uma dessas escalas. Ela era auxiliar e os pilotos poderiam passar ‘direto’ sem descer, porque não recebiam por isso, mas eles acabavam parando para pegar o correio e abastecer”, explica a historiadora.

Naquela época, os aviões eram precários e não tinham grande autonomia de voo. Além de ser necessário abastecer e fazer reparos durante o percurso, muitas vezes as condições do tempo eram tão ruins, com ciclones e chuvas, que obrigavam os pilotos a pernoitar no casarão de pilotos, que ainda existe em Florianópolis. Ele fica na esquina das avenidas Pequeno Príncipe e Campeche e deve ser transformado em museu.

Já o campo de aviação do Campeche tem uma área de 353 mil metros quadrados, sendo 211 mil metros quadrados sob a responsabilidade da Aeronáutica e o restante pertencente à Secretaria do Patrimônio da União e à prefeitura de Florianópolis. O espaço é reivindicado pela comunidade há anos, com objetivo de transformá-lo em área verde de lazer. Mas sua importância para a cidade, como se vê, tem ainda um forte apelo histórico.

A passagem de Antoine de Saint-Exupéry por Florianópolis

Antoine de Saint-Exupéry, o piloto que se tornou escritor de uma das obras mais famosas do mundo: O Pequeno Príncipe - Acervo Amab/ Divulgação

Antoine de Saint-Exupéry, o piloto que se tornou escritor de uma das obras mais famosas do mundo: O Pequeno Príncipe - Acervo Amab/ Divulgação

Diário da Noite, de 17/04/1930 noticia o pernoite de Saint-Exupéry em Florianópolis. Piloto está no centro da fotografia. - Diario da Noite/Divulgação

Diário da Noite, de 17/04/1930 noticia o pernoite de Saint-Exupéry em Florianópolis. Piloto está no centro da fotografia. - Diario da Noite/Divulgação

Exupéry inaugurou a aviação turística com um voo de Buenos Aires ao Rio de Janeiro, com escala em Florianópolis - Divulgação/ND

Exupéry inaugurou a aviação turística com um voo de Buenos Aires ao Rio de Janeiro, com escala em Florianópolis - Divulgação/ND

Foto colorizada de Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944), autor de O Pequeno Príncipe - Mônica Corrêa/Divulgação/ND

Foto colorizada de Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944), autor de O Pequeno Príncipe - Mônica Corrêa/Divulgação/ND

Pilotos com moradoras do Campeche. Foto do Museu Air France - Acervo Amab/Divulgação

Pilotos com moradoras do Campeche. Foto do Museu Air France - Acervo Amab/Divulgação

À direita, o radiotelegrafista Paul-Henri Dissac, que voou com Saint-Exupéry, na casa de rádio do Campeche, que não existe mais - Acervo Amab/Divulgação

À direita, o radiotelegrafista Paul-Henri Dissac, que voou com Saint-Exupéry, na casa de rádio do Campeche, que não existe mais - Acervo Amab/Divulgação

O Jornal (RJ) também registrou o pernoite de Exupéry, em 17/04/1930 - pernoite exupery fpolis

O Jornal (RJ) também registrou o pernoite de Exupéry, em 17/04/1930 - pernoite exupery fpolis

Desenho da ilha e do terreno, feito provavelmente pelos pilotos Roig ou Vachet - Bernard Bacquié/Acervo Amab/Divulgação

Desenho da ilha e do terreno, feito provavelmente pelos pilotos Roig ou Vachet - Bernard Bacquié/Acervo Amab/Divulgação

Foto panorâmica do Campeche realizada pelo piloto Hiram Garcia - Acervo Amab/Divulgação

Foto panorâmica do Campeche realizada pelo piloto Hiram Garcia - Acervo Amab/Divulgação

Trecho traduzido de livro publicado em 2007 na França - Acervo Amab/Divulgação

Trecho traduzido de livro publicado em 2007 na França - Acervo Amab/Divulgação

Trecho traduzido com relato do amigo Léon em homenagem póstuma a Saint-Exupéry - Acervo Amab/Divulgação

Trecho traduzido com relato do amigo Léon em homenagem póstuma a Saint-Exupéry - Acervo Amab/Divulgação

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