Dossiê Comcap: folha de pagamento consome 95% do orçamento da Companhia

A empresa deve fechar 2015 com um déficit orçamentário de R$ 44 milhões e uma dívida acumulada de R$ 142 milhões

Reportagem: Fábio Bispo e Paulo Mueller

Do orçamento anual de R$ 124 milhões, 95% vão para pagamento da folha. A Prefeitura repassa R$ 9,6 milhões por mês. Com isso, a empresa deve fechar 2015 com déficit orçamentário de R$ 44 milhões e uma dívida acumulada de R$ 142 milhões.
“Não pode deixar faltar combustível, não pode deixar de faltar pneu, não pode deixar de pagar pessoal e não pode deixar faltar alimentação. Em algum lugar vai ter que faltar, é claro que alguém vai ficar sem receber. E a maneira que se faz é deixar de pagar a previdência.” A declaração do ex-presidente da Comcap, Acácio Garibaldi Filho, dá a dimensão da crise financeira nas contas da Companhia de Melhoramentos da Capital. Filho do ex-prefeito Acácio S. Thiago Garibaldi, fundador da companhia em 1969, Garibaldi Filho defende que diante da situação da empresa não resta outra saída se não a privatização.

Eduardo Valente/ND

 O presidente da Companhia não concorda com a privatização, mas defende mudanças no modelo de gestão e revisão dos valores da taxa de lixo

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Acácio Garibaldi acredita que os custos da Comcap cairiam imediatamente se o serviço passasse do poder público para a iniciativa privada. “Esses custos caem em 40% na área privada.”, afirma. O atual presidente, Mariu Bagnatti não concorda com a privatização, mas defende mudanças no modelo de gestão e revisão dos valores da taxa de lixo. O ex-presidente, que enfrentou três greves em menos de um ano, acusa o Sintrasem (Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público Municipal) de pressionar a administração pública com greves e arrancar sucessivos acordos coletivos, que inviabilizam a folha de pagamento. “Os benefícios que se multiplicam nos acordos coletivos são a causa primordial da falência da companhia. Não há empresa que aguente as vantagens que foram dadas aos funcionários da Comcap”, avalia Garibaldi.

Empresa mista, mas classificada como “estatal dependente”, ou seja, tem orçamento elaborado e liberado pelo município, a Comcap perdeu sua capacidade financeira ao longo dos anos.

Assista à reportagem da RICTV Record

Motorista com salário de até R$ 12 mil

Para o Sintrasem (Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Municipal), o sucateamento da empresa é um problema crônico que atravessa as administrações. Eles apontam o interesse eleitoral, que teria sido a principal causa do inchaço da folha de pagamento, com concessões de cargos em comissão de forma deliberada, e a falta de debate sério sobre a Comcap. “A empresa é reflexo de como é a nossa administração municipal. O que se paga de hora-extra daria para comprar três caminhões”, afirma Márcio Nascimento, servidor e diretor do Sintrasem. Para o sindicalista, os supersalários não são a realidade do setor operacional da companhia, e os valores não são ilegais, já que todos os direitos conquistados estão firmados em acordos coletivos.

Os relatos dos “supersalários” para motoristas de até R$ 12 mil em um único mês, são apontados como entraves para empresa conseguir se recolocar no mercado. No mês de setembro de 2015, o custo total com a folha de pagamento atingiu R$ 14 milhões. Segundo dados do Portal da Transparência, 13 motoristas receberam mais de R$ 6.000 de salário no mês, valor bem acima da média dos demais motoristas da empresa, que gira em torno de R$ 2.000 a R$ 2.500.

Boa parte dos funcionários recebe praticamente outro salário com as chamadas “verbas eventuais”, que incluem hora-extra, produtividade, assiduidade, insalubridade, gratificação de coleta, adicional noturno, tempo de serviço, prêmio por tempo de serviço, entre outros. No mês de setembro, um único servidor recebeu mais de R$ 5.000 em verbas eventuais, que somados ao salário de R$ 4.487,49 chegam a R$ 9,4 mil.

A falta de equipamento e de estrutura é um dos fatores que aumentam, por exemplo, o volume de horas-extras trabalhadas. “No verão, o caminhão faz três viagens do Norte da Ilha até o Itacorubi, cada viagem dura em média duas horas, enquanto isso quatro garis ficam parados esperando o caminhão retornar”, afirma o presidente Marius Bagnati.

A frota operacional, com média de mais de 10 anos de uso, começa a ser renovada agora, com a aquisição de novos veículos. Atualmente são 106 caminhões entre compactores, basculantes e outros modelos. A aquisição 10 novos caminhões no ano passado, e de outros seis este ano vai deixar 40% da frota com menos de cinco anos de uso, realidade que deveria alcançar toda a frota.

Salários Comcap
Remuneração (salário, alimentação, transporte e outros encargos)

Coleta Seletiva
Gari 40 horas semanais: R$ 2.438,00
Motorista 40h semanais: R$ 2.851,00

Limpeza Pública
Auxiliar Operacional 30h semanais: R$ 1.328,00
Motorista 30h semanais: R$ 2.126
Média salarial descontadas verbas eventuais (hora-extra, adicional noturno, bônus, etc) R$ 2.800.

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