É impossível amar na cidade

Essas ruas que dizem ser artérias da cidade. Esse fluxo de metais e motores que dizem ser glóbulos de sangue. Esse trânsito que dizem ser a pulsação da vida urbana. Essas esquinas que dizem ser as dobras sensíveis que regulam o ritmo dos que passam. Engano. Não há mais nada disso. A cidade está desalmada de si, desarmada de suas defesas naturais, corrompida, desfeita em desamor, descaso, desvios. 

É impossível amar na cidade. Porque é impossível amar onde não tem encanto. E onde até os cantos foram desencantados, virando faixas de tráfego, o lugar do extintor de incêndio, a placa de sinalização, a lixeira para lixo reciclável. A cidade agoniza entre tanto concreto e asfalto. Não chora mais de chuva, só lacrimeja poças e infiltrações. A umidade grossa na parede dos monstros de cimento avisa que a cidade está doente. Há necroses do centro à periferia. 

O sangue coagulou no sinal vermelho. Dentro das veias entupidas de gente, poucas pessoas parecem de verdade. Os dias vão somando semanas e infartos. A cidade passou a vestir a mesma pele dos muros. Ninguém sente mais nada, porque a rua está asséptica de vida, entulhada de desesperança. A ferida está aberta como um buraco no cruzamento principal. Mas ninguém vê. Na pressa, desviamos, porque a urgência é de seguir em frente. 

Não posso te convidar para um passeio na praça, ou para sentar num banco à sombra de uma árvore, porque não há mais praça, nem banco e nem árvore. E, a partir das 20h, todo mundo tem que ir embora, por questão da segurança. É impossível amar na cidade depois das 20h. E antes das 6h. E o meio-dia é o tempo que tenho para ir ao banco (o outro). Eu, que queria te encostar no muro na praça, na contraluz dos faróis, e te dizer um poema absurdo daquele desgraçado do Paulo Leminski, só pra você rir sem motivo. 

Mas colocaram a cidade numa caixinha. A caixinha tem ruas e tem brinquedos e tem música e tem luzinhas. E está tudo lá dentro do shopping. Ou da igreja, tanto faz. Porque profanaram a cidade e etiquetaram a liberdade na vitrine das promoções do fim de semana. É impossível amar na cidade antes da sexta. E no sábado ainda estou lúcido demais para fazer qualquer loucura. Sobra pouco tempo para cometer a insanidade de um beijo. 

Não se pode nem errar o caminho. Há placas demais e incertezas de menos. Marcaremos nosso encontro no longe da montanha, na curva do rio, na praia escondida, na trilha dos antigos carroções, no silêncio da mata, no ermo com vista para o chão. E para o céu. E para o mar. É pra onde o amor fugiu, depois que envidraçaram o coração da cidade. Se a gente se perder é porque nos amávamos de verdade.

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