Eduardo de Lima e Silva Hoerhann protagonizou um feito que entrou para a história do país

Reprodução/ND

Eduardo de Lima e Silva Hoerhann promoveu a pacificação entre os Xokleng

Há 100 anos, em 22 de setembro de 1914, um jovem chamado Eduardo de Lima e Silva Hoerhann, bisneto de Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias (1803-1880), protagonizou um feito que entrou para a história das relações entre índios e brancos no Brasil. Aos 18 anos, vindo do Rio de Janeiro apenas com a qualificação de auxiliar de fotografia, ele promoveu a pacificação entre os Xokleng do Alto Vale do Itajaí e as famílias europeias que haviam sido fixadas na região por conta dos projetos governamentais de colonização do interior do Sul do país. Os desdobramentos desse ato são sentidos até hoje, principalmente pelos índios, que eram nômades e caçadores e foram confinados na reserva Duque de Caxias, que tem 14 mil hectares e ocupa parte dos municípios de José Boiteux, Victor Meirelles, Itaiópolis, Doutor Pedrinho e Rio Negrinho.

Para muitos historiadores, foi o primeiro caso de criação de uma reserva para índios em conflito com a população branca no Brasil. De sexta-feira até este domingo, a Prefeitura de Ibirama (município do qual José Boiteux se emancipou em 1989) realiza uma série de atividades para comemorar o centenário da façanha, incluindo palestras em escolas, homenagens aos familiares de Hoerhann e visitas à reserva, onde vivem cerca de 400 famílias. Entre os presentes estão o historiador, arqueólogo e professor aposentado Edmar de Lima e Silva Hoerhann, último filho do pacificador, e o historiador Rafael Casanova de Lima e Silva Hoerhann, bisneto dele, que escreveu em 2012 a tese “O serviço de proteção aos índios e a desintegração cultural dos Xokleng (1927-1954)”, depois transformada em livro, na qual discorre sobre a situação na reserva a partir dos anos 20 do século passado.

A descendência de Eduardo Hoerhann, que teve seis filhos, está espalhada, mas uma pessoa guarda na memória e dentro de casa muito da herança e do espólio do pioneiro – a neta Edly Kubin Sardá. No Balneário do Estreito, em Florianópolis, onde mora, ela conserva móveis, fotografias, textos e instrumentos utilizados pelos indígenas na caça e nos ataques aos colonos que ameaçavam tomar suas terras. Há fotos que mostram o próprio Hoerhann quase nu, como os índios, manuseando arco e flecha e participando de rituais que os nativos do Alto Vale praticavam em diferentes épocas do ano.

O primeiro contato bem-sucedido

Em 1910, quatro anos antes da ação vitoriosa de Eduardo de Lima e Silva Hoerhann, o governo brasileiro decidiu criar um mecanismo de proteção aos indígenas, cada vez mais acossados pela presença do homem branco que queria expandir as áreas de plantio. Para isso, criou o SPI (Serviço de Proteção ao Índio), com o objetivo de nacionalizar as comunidades existentes e tentar reduzir os conflitos que pipocavam em diferentes regiões do país.

No caso dos Xokleng, o aldeamento amainou, mas não eliminou as refregas com os colonos e bugreiros (matadores mantidos pelo governo e pelas companhias de colonização), que se estenderam pelo menos até a década de 1940. Ao mesmo tempo, a facção Laklanõ radicada no Alto Vale foi se tornando um lugar de homens sedentários e de vida agropastoril, pelo abandono progressivo das atividades de caça e coleta herdadas dos ancestrais.

O primeiro contato não belicoso da facção com os brancos se deu na confluência dos rios Plate e Hercílio, graças, em boa parte, ao domínio de palavras do vocabulário xokleng pelo funcionário do SPI Eduardo de Lima e Silva Hoerhann. Ele negociou a outorga de uma área especialmente destinada aos índios, que aceitaram a proposta, mas nunca a assimilaram totalmente. Aos poucos, os nativos foram sendo vitimados por doenças dos brancos e deixaram de executar rituais como a cremação dos corpos dos mortos e o uso do botoque (daí o termo botocudos, como também eram identificados), perfuração dos lábios inferiores dos rapazes que tinha as funções de ritual de iniciação dos homens e de construção da identidade da tribo.

Nome indígena na lápide

No final da vida, Eduardo Hoerhann se disse arrependido da pacificação que promoveu. Numa entrevista dada ao jornalista Laudelino José Sardá, publicada na edição de 14 de dezembro de 1975 em “O Estado”, afirmou que, se pudesse, “não voltaria a cometer esse pecado”. Ele afirmou: “O índio pacificado é destituído de tudo. E o pior é que todos ainda cometem esse pecado, inclusive a Funai”. Hoerhann morreu em 1976, antes de completar 85 anos. Foi enterrado em Ibirama, e em sua lápide aparece apenas o nome que os índios lhe deram: Kathangara.

Flavio Tin/ND

Edly Kubin Sardá com a mala que o avô trouxe do Rio de Janeiro


Uma mala com mais de 100 anos

Filha de pai austríaco, assim como Eduardo de Lima e Silva Hoerhann, Edly Kubin Sardá exibe uma vitrola de 1929 e uma coleção de discos do avô – que incluem os grandes cantores do rádio no Brasil, Carmen Miranda, tangos de Carlos Gardel e clássicos em vinil – que demonstra o bom gosto do homem criado no Rio de Janeiro que se fixou no Alto Vale. “O aparelho funciona perfeitamente”, avisa.

Na sala da casa ainda aparecem uma mesa de canto, um armarinho e outras peças de madeira que Edly herdou do avô. No andar de cima fica um minimuseu com fotos de Hoerhann vestido como índio no ano de 1913, quando chegou à região, e do cacique Kam Rem, que morreu com 117 anos e foi um dos últimos xokleng a usar o tembetá, adorno cravado no lábio inferior dos homens da tribo.

Ali também estão flechas e pontas de flecha feitas de pedra, objetos de osso, instrumentos de uso na agricultura, uma velha escrivaninha de madeira maciça e a pia de quarto usada pelo avô, ao lado de pincel de barbear, saboneteira, escova, baú e urinol. E há ainda uma mala mais do que centenária que veio com ele do Rio de Janeiro e que Edly doaria, neste fim de semana, para o museu que leva o seu nome, em Ibirama. Num álbum, ela guarda um poema feito pelo avô em sua homenagem, quando nasceu, e que como outros papéis e documentos quase foi inutilizado por enchentes no casarão que foi da família, perto da Barragem Norte, em José Boiteux.

Parte do material foi resgatado por ela e por Edmar de Lima e Silva Hoerhann, único filho do segundo casamento de Eduardo, que tem 71 anos e passou a morar em Brasília após se aposentar como professor da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Era o espólio que estava na garagem da casa de Setembrino, terceiro filho do pacificador, no bairro Praia Comprida, em São José, que morreu em 2002. Eduardo Hoerhann se correspondia com pesquisadores e antropólogos do mundo inteiro, entre eles o brasileiro Darcy Ribeiro e o americano Jules Henry (que chegou a morar com ele na reserva), além do etnólogo alemão Curt Nimuendaju, grande especialista em assuntos indígenas brasileiros.

Homem austero e respeitado

Edly Sardá conta que sua mãe Esmeraldina, quinta filha do primeiro casamento de Eduardo Hoerhann e moradora da localidade de Barra Dollmann, se tratava com o dentista Franz Johann Kubin em Victor Meirelles, também no Alto Vale, e que quando terminou o tratamento pediu-o em casamento. Era o ano de 1954, e dois anos depois Hoerhann foi exonerado após ser preso sob a acusação de haver matado um índio. Quando ele morreu, em 1976, Edly tinha 11 anos, mas ela lembra que ia com a mãe e uma irmã passar as férias escolares em Ibirama, duas vezes por ano, e que o avô tinha uma personalidade austera e um olhar azul penetrante. “Tinha um certo medo dele”, confessa. “Ele um dia me pediu: ‘diga as vogais’. Eu me encolhi na cadeira”.

Edly e o tio Edmar resgataram parte do material que Rafael usou, depois, para escrever a tese e o livro sobre Eduardo Hoerhann e os índios da reserva Duque de Caxias. Ela conta que o avô era um homem culto e respeitado pelo conhecimento que tinha, chegando a indicar receitas e cuidar da saúde dos índios. Uma de suas mágoas foi a mãe Carolina, neta do Duque de Caxias, nunca haver perdoado sua decisão de vir ainda adolescente para Santa Catarina.

Projeto ficou pela metade

Rafael Casanova de Lima e Silva Hoerhann, bisneto de Eduardo Hoerhann, atuou como professor convidado do curso de licenciatura indígena da UFSC e conta que ainda hoje a figura do bisavô mexe com o imaginário das pessoas no Alto Vale do Itajaí. “Ele seguiu as diretrizes do SPI de promover o processo de nacionalização dos índios, porque no entendimento da época se considerava correto integrar o indígena à sociedade”, afirma.

No entanto, a política oficial nunca foi efetivamente implantada, o que desanimou o pacificador, que foi mudando de ideia por influência de antropólogos como o americano Jules Henry, que achava melhor deixar os indígenas levarem a vida que sempre tiveram. No final, mesmo inocentado da acusação que lhe fizeram, ele perdeu a aposentadoria, após 42 anos de dedicação à causa dos índios, e acabou passando por dificuldades. Tudo isso talvez explique a declaração que deu nos seus últimos anos de que “pacificar o índio é o crime dos crimes”.

Estado

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