Ele fez mais de 500 CANOAS

Carpinteiro. Aos 85 anos de idade, Raul da Rocha é um dos símbolos do Museu Nacional do Mar

Rogério Souza Jr/ND

Entalhes.Todos os dias, de barco bem cedinho, Raul segue da Vila da Glória para o centro histórico de São Francisco e segue o trabalho na oficina que fica ao lado da sala dos barcos

Ao visitar a oficina do Museu Nacional do Mar, no Centro Histórico de São Francisco do Sul, ninguém dá os 85 anos reais de Raul Geraldo da Rocha, o mestre carpinteiro e faz-tudo da instituição. “Sou do coração brando, não tenho medo do trabalho. Enquanto a saúde ajudar, vou ficando”, diz o seu Raul, do alto da experiência de ter entalhado mais de 500 canoas durante a vida. Algumas delas podem ser apreciadas no acervo do museu, entre elas uma que teve uma “ajuda” especial: “Essa eu estava entalhando quando o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva passou por aqui. Ele até pegou a ferramenta e deu uns talhos”.
Raul nasceu na então localidade de São João do Itaperiú, que pertencia a Barra Velha antes de se emancipar. Mais velho de oito irmãos, sonhava com um ofício bem diferente do pai, marceneiro e carpinteiro: “Eu queria mesmo era ser alfaiate”. Até chegou a aprender o ofício, quando passou a morar, a partir de 1940, em São Francisco do Sul, com o alfaiate Quintilhano. Com saudade da família, ficou feliz quando todos vieram para a cidade. “Era o início da Segunda Guerra, havia movimentação de soldados e navios de guerra fundeados na baía”, conta Raul. Os Rocha foram morar na Vila da Glória, onde ergueram um engenho de farinha. “Meu pai construiu tudo sozinho, e foi aí que aprendi o ofício dele e larguei o sonho de ser alfaiate.” Mesmo assim, Raul costurava sozinho suas camisas e roupas para a família. Também aprendeu a entalhar canoas.
A variedade de ofícios era necessária: “O salário era mais curto que picada de mosquito”. Sempre com uma citação ou tirada na ponta da língua, Raul é do tipo ansioso por conhecimento: “O saber não ocupa lugar”, filosofa. Na Vila da Glória, Raul conheceu e casou-se com a costureira Maria Etelvina, natural de Piçarras. Com ela teve 14 filhos, que se multiplicaram em mais de 70 netos, uns 30 bisnetos e uma trineta. A emoção aflora quando se lembra que ficou viúvo pouco antes de completar Bodas de Ouro. Hoje, encontra apoio na companheira Luíza Rosa, com quem se casou há sete anos.

“Sou do coração brando, não tenho medo do trabalho. Enquanto a saúde ajudar, vou ficando.”

O faz-tudo do Museu
No Museu Nacional do Mar, onde trabalha há uma década, Raul da Rocha é pau pra toda obra. Sua oficina, ao lado da sala dos barcos, está sempre em atividade, seja para montar uma prateleira, seja para eliminar cupins e remendar embarcações. Demonstra muito conhecimento de causa: “Os cupins vêm aqui do morro, que nunca foi desmatado. Para liquidá-los quando penetram numa canoa, precisa eliminar os ovos e aí fazer o remendo”.
Na Vila da Glória, onde ainda reside, Raul vendeu o engenho de farinha e as terras. Dos velhos tempos, só lamenta a perda de algumas tradições, como o fim da roda d´água. “A eletricidade era gerada pela roda d´água que eu mesmo construí. Quando ela se desgastou, fui obrigado a puxar eletricidade, pois não podia mais utilizar madeira para fazer outra.”
Fazendo diariamente o trajeto entre a Vila da Glória e o Centro, Raul pega o primeiro barco, às 7h da manhã, e retorna às 16h30. Enquanto coloca as mãos firmes a serviço do Museu do Mar, a esposa cuida dos afazeres bancários e da administração da casa. Com sua voz mansa e excelente memória, Raul é testemunha viva de uma parte importante da história contemporânea de São Francisco do Sul.

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