Em diálogos, policiais envolvidos em esquema criminoso falam sobre matar

Atualizado

Diálogos divulgados pela Justiça após o pedido de prisão de cinco policiais militares denunciados por envolvimento em esquema criminoso na região da Grande Florianópolis revelaram também ameaças de morte entre os agentes e traficantes.

Em uma das conversas interceptadas pelo Ministério Público, um PM disse que iria matar a família de outro soldado, caso ele contasse sobre o esquema do grupo em depoimento na corregedoria. O caso corre na Vara de Direito Militar.

A reportagem divulgou apenas os nomes dos policiais que constam como réus no processo. Os policiais não identificados ainda estão sendo investigados.  

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As informações constam no decreto de prisão dos PMs Alexandre Silva Ventura, Josiei Domingos da Silva, Cícero Moraes Coelho e Douglas Fernando Gil. O ex-PM, Ramon Freitas Kuhn, também foi preso. Douglas Fernando Gil, no entanto, foi solto dois dias depois. 

Ao menos 15 agentes militares são investigados por roubar traficantes, esconder provas, repassar informações falsas e cometer uma série de irregularidades durante o exercício da função.

Há cerca de seis meses, no dia 13 de junho, o Ministério Público interceptou a conversa em que os PMs descobriram que estavam sendo investigados. A informação, segundo o juiz Marcelo Pons Meirelles, teria sido repassada pelo soldado Douglas Fernando Gil, que trabalha na Corregedoria-Geral da PM. 

No dia 6 de junho, Cícero Moraes Coelho, preso desde 15 de janeiro, afirma que se o ex-PM Ramon Freitas Kuhn e outro soldado falassem sobre o esquema, seriam mortos:

O outro policial, também investigado pelo Ministério Público, afirma que mataria também a família dos agentes. 

As mensagens trocadas entre os policiais serviram como justificativa para o pedido de prisão de Cícero feito pelo juiz da Vara Militar. Em trecho do documento, o magistrado afirma que a medida se mostra necessária em razão da “periculosidade do agente”.

“[…] visto que ao longo das interceptações telefônicas e extração de dados das conversas de whattsapp, verificou-se que o agente menciona em diversas oportunidades que se o denunciado Ramon não assumisse a autoria dos delitos praticados, ele não só mataria a ele, mas como poderia fazer algo com toda a sua família”. 

Roubo originou investigações

Em outra conversa sobre vazamento das informações, o PM Cícero afirma que levou R$ 103 mil e 1 kg de cocaína durante uma ocorrência. “Se a história respingasse nele, pessoas iriam morrer”. O caso deu início às investigações do MP. 

PM teria filmado traficante

Em outra mensagem, no dia 16 de março de 2016, o PM Alexandre Silva Ventura, também preso, afirma que iria entregar um traficante ao grupo criminoso rival caso ele não desse algo as policiais.

As investigações

Além de Cícero, Ramon e Alexandre, está preso o soldado Josiei Domingos da Silva, também investigado participar do esquema. O PM lotado na corregedoria, Douglas Fernando Gil, também é réu no processo, chegou a ser preso, mas foi solto em seguida. 

Outros 11 policiais, entre eles uma soldado mulher, foram alvos de mandados de busca e apreensão de celulares e investigações complementares. Durante as interceptações de mensagem, o Ministério Público encontrou indícios de outros infrações, como agenciamento de policias para segurança pública, Invasão em residências sem mandado uso diplomas e carteiras de estudante falsificados

A ação foi liderada pela 5ª Promotoria de Justiça da Capital. A Polícia Militar de Santa Catarina também abriu Inquérito Policial Militar para apurar a conduta dos policiais e afirma estar contribuído com a investigação. O caso é conduzido pela Justiça Militar.

CONTRAPONTO DA PM

Por meio de nota, a Polícia Militar de Santa Catarina disse que seguirá as determinações judiciais, mas seguirá acompanhando o trabalho da promotoria e colaborando quando demandada. Confira na íntegra:

A PMSC seguirá as determinações judiciais.

1 – A investigação foi conduzida pela Corregedoria da Polícia Militar e encaminhada à Justiça para apreciação.
2 – Neste momento, o assunto está sob responsabilidade da Justiça.
3 – A Polícia Militar segue acompanhando o trabalho da promotoria e colaborando quando demandada.

CONTRAPONTO DOS RÉUS

Alexandre Silva Ventura e Josiei Domingos da Silva
Segundo consta no sistema do Poder Judiciário, ambos os policiais são representados pelas advogadas Daniela Queila dos Santos Bornin, Renata dos Santos Theodoro Takashima e Camila Leticia de Moraes. Nenhuma das defensoras foi encontrada, pois não há contato delas no cadastro nacional da OAB.

Cícero Moraes Coelho
O advogado Victor da Costa Malheiros é quem atua na defesa do PM Cícero. O defensor se manifestou por meio de nota: a defesa tem ciência do oferecimento da denúncia, respeita o posicionamento do Ministério Público e acredita que os fatos serão esclarecidos ao longo da instrução processual.

Ramon Freitas Kuhn
A defesa do ex-PM está aos cuidados dos advogados Robson Luiz Ceron e Mariana Lixa. Segundo Mariana, como ainda não houve oferecimento de denúncia, a defesa não vai se pronunciar sobre o caso. Ela informou apenas que está recorrendo da prisão preventiva. “Não tem ação penal ainda, fica difícil antecipar a estratégia da defesa, preciso saber pelo o que ele está sendo acusado”, destacou.

Douglas Fernando Gil
Atuam na defesa do policial os advogados Cristiano de Amarante, Paulo Sergio Alves Madeira e Nelson Pacheco Vieira Júnior. A reportagem conversou com Nelson nesta quarta-feira. De acordo com o defensor, Douglas afirma não ter nenhuma relação com os fatos narrados pelo Ministério Público. “Ele vai demonstrar, ao longo do processo, a inocência dele”, afirmou.

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