Emergências lotadas e estrutura precária mostram falta de investimento na saúde em SC

Atualizado

Enquanto o governo do Estado tenta reduzir os investimentos na saúde, a situação nos hospitais públicos é um retrato da falta de recursos. Com emergências lotadas, faltam espaço para alocar pacientes, funcionários para agilizar o atendimento e até mesmo equipamentos de apoio, como cadeiras de rodas e macas. No Hospital Regional de São José é visível a necessidade de se investir em melhorias na infraestrutura. Quem precisa de atendimento enfrenta fila, espera durante horas e muitas vezes tem que apelar para os bancos do lado de fora do hospital enquanto a medicação recebida faz efeito.

O aposentado Edésio dos Santos Thédiga, 63 anos, saiu da Armação do Pântano do Sul, no Sul da Ilha, encaminhado pela UPA (Unidade de Pronto Atendimento) Sul para consultar um médico sobre a queimação que sente no pé direito. Portador de diabetes, ele teve parte da perna esquerda amputada no mesmo hospital, onde chegou acompanhado do sobrinho Ayrian Hugo dos Santos Thédiga, 27, na tarde desta quarta-feira (6). “O atendimento foi rápido, ele está medicado, mas o médico que vai atendê-lo só vem para a emergência quando terminar as consultas agendadas. Não sei que horas vamos sair daqui”, disse Ayrian.

Rosimeri Rosa, com a mãe Maurina Ferreira Justino, aguardavam resultado dos exames há seis horas - Andréa da Luz/ND
Rosimeri Rosa, com a mãe Maurina Ferreira Justino, aguardavam resultado dos exames há seis horas – Andréa da Luz/ND

Com dor e queimação no pé, Edésio esperava, como dezenas de outros pacientes, no banco do lado de fora da emergência. Ele preferiu deitar no banco porque se sentiu muito desconfortável na pequena cadeira de rodas que o hospital disponibilizou. “Tem outras cadeiras melhores, mas elas ficam para os pacientes da cardiologia. E maca é só para os internados. Eu até poderia ficar com ele ali dentro, mas o cheiro do banheiro está insuportável, não dá para ficar lá”, contou Ayrian.

Na sala de espera, por volta das 16h, cerca de 30 pessoas aguardavam atendimento. Rosimeri Rosa, moradora do bairro Estreito, chegou com a mãe, Maurina Ferreira Justino, 81 anos, às 10h. Às 16h15 elas ainda aguardavam no pátio o resultado dos exames de sangue e urina e do eletrocardiograma feitos pela manhã, para poder consultar com o médico. “Minha mãe está nessa cadeira desde que chegamos aqui, já está com dor nas costas. Não tem maca e nem um lanche para esses pacientes que ficam esse tempo todo aqui. A diabetes [glicose] dela já está baixa, tive que ir ali comprar um lanche, mas o hospital bem que poderia fornecer um café, umas bolachinhas. E ter mais gente para trabalhar, porque o atendimento aqui é muito bom, mas precisa melhorar a estrutura”, disse.

Com suspeita de princípio de pneumonia e uma infecção urinária reincidente, dona Maurina reclamava da espera e queria ir para casa. “Não quero ficar internada aqui, quero ir para casa”, contou. “Tenho uma irmã com câncer em casa, faz oito meses e já trouxemos ela várias vezes aqui, mas o hospital não faz o encaminhamento para o Cepon, já nem sei o que fazer, e ainda a gente perde o dia inteiro aqui, é muito demorado”, reclamou Rosimeri.

A professora Silvia Berro não conseguiu usar o banheiro devido ao mau cheiro - Andréa da Luz/ND
A professora Silvia Berro não conseguiu usar o banheiro devido ao mau cheiro – Andréa da Luz/ND

Acompanhantes de outros pacientes elogiaram o atendimento do Regional, especialmente na Cardiologia. Ainda assim, avaliam que a estrutura do hospital pode melhorar. Metalúrgico em São José, Marcio Godinho, 51 anos, teve um infarto e agora faz o acompanhamento no Hospital Regional. “Fui muito bem atendido pela equipe médica, inclusive agora que faço fisioterapia, mas a estrutura realmente precisa de melhorias: há vários quartos onde o ar condicionado não funciona e os banheiros estão com um cheiro horrível, nem dá para entrar”, afirmou.

“Os médicos daqui são muito bons, mas a demanda já é grande demais para essa unidade que atende gente do interior e de cidades próximas”, disse Osvaldo da Costa Cordeiro, 33, morador de São José. “Em alguns dias leva de sete a dez horas para completar o atendimento, entre exames e consulta. Uma vez fraturei o dedo do pé ao cair de moto e levou dois dias para conseguir colocar o gesso”, contou.

“Também falta espaço para os pacientes medicados aguardarem lá dentro, não tive coragem de entrar no banheiro por causa do mau cheiro e a porta nem fecha direito. Acho que os pacientes precisam de um pouco mais de conforto”, disse Osvaldo. Ele e Marcio aguardavam há três horas pelo término do atendimento da irmã do metalúrgico, que está com suspeita de câncer. “Queríamos que o hospital desse um encaminhamento para minha irmã ir para o Cepon ou outro hospital, mas a gente vem aqui, ela é medicada e mandam de volta para casa. Estamos sofrendo junto com ela”, afirmou Godinho.

A professora Silvia Berro, 40 anos, engrossa a fila do lado de fora. “É sempre essa demora, aí quando chamam muita gente até já foi embora”, disse. Ela se sentiu mal e aguarda o resultado dos exames para saber se tem algum problema no apêndice. “Estou aqui há cinco horas e ainda preciso passar pelo médico depois de pegar o resultado dos exames. A gente perde o dia todo aqui, e nem consegui ir ao banheiro por conta do cheiro”, criticou.

Não é preciso entrar nos banheiros para sentir o cheiro ruim. Ele é sentido na sala de espera e até do lado de fora do hospital, por conta das janelas dos sanitários. Dentro dos banheiros, não há papel no chão, os vasos e pias estão limpos e as lixeiras fechadas, mas o cheiro é insuportável.

Corte de recursos

Santa Catarina é referência em atendimento na saúde pública, quando comparada a muitos outros Estados. No entanto, na prática, o investimento ainda é pouco para garantir um serviço de qualidade para todos.

Em 2016, foi feito um esforço para aumentar o repasse de verba do Estado para esse setor. Naquele ano, deputados estaduais conseguiram aprovar uma emenda à Constituição Estadual (72/2016), prevendo a destinação de pelo menos 15% da receita líquida do Estado para investimento na saúde. O aumento ocorreria de forma escalonada. Em 2017 e 2018, a saúde recebeu em acréscimo R$ 184 milhões (12,67%) e R$ 403 milhões (14,10%), respectivamente.

Emergência geral do Hospital Regional de São José - Andréa da Luz/ND
Emergência geral do Hospital Regional de São José – Andréa da Luz/ND

Porém, o governo estadual quer suspender a emenda, através de uma Adin (Ação Direta de Inconstitucionalidade). Com base na LOA (Lei Orçamentária Anual) de 2019, essa suspensão pode representar R$ 840 milhões que deixarão de ser aplicados no setor.

Alegando falta de recursos, no dia 18 de janeiro o governador Carlos Moisés (PSL) pediu ao STF (Supremo Tribunal Federal) o julgamento com urgência da liminar para suspender a emenda. Mas o despacho do ministro Luiz Fux, na condição de presidente interino do STF, negou o pedido no dia 25. A Procuradoria Geral do Estado deverá apresentar novos argumentos para tentar suspender a emenda, por considerar que os valores da receita destinados à saúde podem comprometer outros compromissos do governo do Estado, principalmente nas áreas de segurança pública e sistema penitenciário.

Por meio de assessoria, a Secretaria de Estado da Saúde informou que a pasta permanece com seu planejamento para 2019 dentro do percentual constitucional previsto, que é de 15%. Caso ocorra alguma alteração, novo planejamento será executado para atender os valores repassados.

Jornalismo

Emergências lotadas e estrutura precária mostram falta de investimento na saúde em SC

Enquanto o governo do Estado tenta reduzir os investimentos na saúde, a situação nos hospitais públicos é um retrato da falta de recursos. Com emergências lotadas, faltam espaço para alocar pacientes, funcionários para agilizar o atendimento e até mesmo equipamentos de apoio, como cadeiras de rodas e macas. No Hospital Regional de São José é visível a necessidade de se investir em melhorias na infraestrutura. Quem precisa de atendimento enfrenta fila, espera durante horas e muitas vezes tem que apelar para os bancos do lado de fora do hospital enquanto a medicação recebida faz efeito.

Edésio dos Santos Thédiga, 63, preferiu esperar do lado de fora por conta do mau cheiro dos banheiros - Andréa da Luz/ND
Edésio dos Santos Thédiga, 63, preferiu esperar do lado de fora por conta do mau cheiro dos banheiros – Andréa da Luz/ND

O aposentado Edésio dos Santos Thédiga, 63 anos, saiu da Armação do Pântano do Sul, no Sul da Ilha, encaminhado pela UPA (Unidade de Pronto Atendimento) Sul para consultar um médico sobre a queimação que sente no pé direito. Portador de diabetes, ele teve parte da perna esquerda amputada no mesmo hospital, onde chegou acompanhado do sobrinho Ayrian Hugo dos Santos Thédiga, 27, na tarde desta quarta-feira (6). “O atendimento foi rápido, ele está medicado, mas o médico que vai atendê-lo só vem para a emergência quando terminar as consultas agendadas. Não sei que horas vamos sair daqui”, disse Ayrian.

Com dor e queimação no pé, Edésio esperava, como dezenas de outros pacientes, no banco do lado de fora da emergência. Ele preferiu deitar no banco porque se sentiu muito desconfortável na pequena cadeira de rodas que o hospital disponibilizou. “Tem outras cadeiras melhores, mas elas ficam para os pacientes da cardiologia. E maca é só para os internados. Eu até poderia ficar com ele ali dentro, mas o cheiro do banheiro está insuportável, não dá para ficar lá”, contou Ayrian.

Maurina Ferreira Justino, 81 anos, aguardava na cadeira de rodas o resultado dos exames há seis horas - Andréa da Luz/ND
Rosimeri Rosa, com a mãe Maurina Ferreira Justino, aguardavam resultado dos exames há seis horas – Andréa da Luz/ND

Na sala de espera, por volta das 16h, cerca de 30 pessoas aguardavam atendimento. Rosimeri Rosa, moradora do bairro Estreito, chegou com a mãe, Maurina Ferreira Justino, 81 anos, às 10h. Às 16h15 elas ainda aguardavam no pátio o resultado dos exames de sangue e urina e do eletrocardiograma feitos pela manhã, para poder consultar com o médico. “Minha mãe está nessa cadeira desde que chegamos aqui, já está com dor nas costas. Não tem maca e nem um lanche para esses pacientes que ficam esse tempo todo aqui. A diabetes [glicose] dela já está baixa, tive que ir ali comprar um lanche, mas o hospital bem que poderia fornecer um café, umas bolachinhas. E ter mais gente para trabalhar, porque o atendimento aqui é muito bom, mas precisa melhorar a estrutura”, disse.

Com suspeita de princípio de pneumonia e uma infecção urinária reincidente, dona Maurina reclamava da espera e queria ir para casa. “Não quero ficar internada aqui, quero ir para casa”, contou. “Tenho uma irmã com câncer em casa, faz oito meses e já trouxemos ela várias vezes aqui, mas o hospital não faz o encaminhamento para o Cepon, já nem sei o que fazer, e ainda a gente perde o dia inteiro aqui, é muito demorado”, reclamou Rosimeri.

Acompanhantes de outros pacientes elogiaram o atendimento do Regional, especialmente na Cardiologia. Ainda assim, avaliam que a estrutura do hospital pode melhorar. Metalúrgico em São José, Marcio Godinho, 51 anos, teve um infarto e agora faz o acompanhamento no Hospital Regional. “Fui muito bem atendido pela equipe médica, inclusive agora que faço fisioterapia, mas a estrutura realmente precisa de melhorias: há vários quartos onde o ar condicionado não funciona e os banheiros estão com um cheiro horrível, nem dá para entrar”, afirmou.

“Os médicos daqui são muito bons, mas a demanda já é grande demais para essa unidade que atende gente do interior e de cidades próximas”, disse Osvaldo da Costa Cordeiro, 33, morador de São José. “Em alguns dias leva de sete a dez horas para completar o atendimento, entre exames e consulta. Uma vez fraturei o dedo do pé ao cair de moto e levou dois dias para conseguir colocar o gesso”, contou.

“Também falta espaço para os pacientes medicados aguardarem lá dentro, não tive coragem de entrar no banheiro por causa do mau cheiro e a porta nem fecha direito. Acho que os pacientes precisam de um pouco mais de conforto”, disse Osvaldo. Ele e Marcio aguardavam há três horas pelo término do atendimento da irmã do metalúrgico, que está com suspeita de câncer. “Queríamos que o hospital desse um encaminhamento para minha irmã ir para o Cepon ou outro hospital, mas a gente vem aqui, ela é medicada e mandam de volta para casa. Estamos sofrendo junto com ela”, afirmou Godinho.

A professora Silvia Berro não conseguiu usar o banheiro devido ao mau cheiro - Andréa da Luz/ND
A professora Silvia Berro não conseguiu usar o banheiro devido ao mau cheiro – Andréa da Luz/ND

A professora Silvia Berro, 40 anos, engrossa a fila do lado de fora. “É sempre essa demora, aí quando chamam muita gente até já foi embora”, disse. Ela se sentiu mal e aguarda o resultado dos exames para saber se tem algum problema no apêndice. “Estou aqui há cinco horas e ainda preciso passar pelo médico depois de pegar o resultado dos exames. A gente perde o dia todo aqui, e nem consegui ir ao banheiro por conta do cheiro”, criticou.

Não é preciso entrar nos banheiros para sentir o cheiro ruim. Ele é sentido na sala de espera e até do lado de fora do hospital, por conta das janelas dos sanitários. Dentro dos banheiros, não há papel no chão, os vasos e pias estão limpos e as lixeiras fechadas, mas o cheiro é insuportável.

Corte de recursos

Santa Catarina é referência em atendimento na saúde pública, quando comparada a muitos outros Estados. No entanto, na prática, o investimento ainda é pouco para garantir um serviço de qualidade para todos.

Em 2016, foi feito um esforço para aumentar o repasse de verba do Estado para esse setor. Naquele ano, deputados estaduais conseguiram aprovar uma emenda à Constituição Estadual (72/2016), prevendo a destinação de pelo menos 15% da receita líquida do Estado para investimento na saúde. O aumento ocorreria de forma escalonada. Em 2017 e 2018, a saúde recebeu em acréscimo R$ 184 milhões (12,67%) e R$ 403 milhões (14,10%), respectivamente.

Porém, o governo estadual quer suspender a emenda, através de uma Adin (Ação Direta de Inconstitucionalidade). Com base na LOA (Lei Orçamentária Anual) de 2019, essa suspensão pode representar R$ 840 milhões que deixarão de ser aplicados no setor.

Alegando falta de recursos, no dia 18 de janeiro o governador Carlos Moisés (PSL) pediu ao STF (Supremo Tribunal Federal) o julgamento com urgência da liminar para suspender a emenda. Mas o despacho do ministro Luiz Fux, na condição de presidente interino do STF, negou o pedido no dia 25. A Procuradoria Geral do Estado deverá apresentar novos argumentos para tentar suspender a emenda, por considerar que os valores da receita destinados à saúde podem comprometer outros compromissos do governo do Estado, principalmente nas áreas de segurança pública e sistema penitenciário.

Por meio de assessoria, a Secretaria de Estado da Saúde informou que a pasta permanece com seu planejamento para 2019 dentro do percentual constitucional previsto, que é de 15%. Caso ocorra alguma alteração, novo planejamento será executado para atender os valores repassados.

Emergência geral do Hospital Regional de São José - Andréa da Luz/ND
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