Empreendedorismo familiar e renovação na história do Despachante Sonagli

Esq. para dir.: José Luiz Sonagli e Luiz Antônio Sonagli: renovação dos negócios entre as gerações – Anderson Coelho/ND

Abrir uma empresa de despachante não estava nos planos do então jovem chapecoense José Luiz Sonagli, que aos 20 anos e recém-formado como contador, veio a Florianópolis para trabalhar com fotografia. Eis que a empresa para a qual ele prestava serviço estava localizada justamente na frente do Detran (Departamento Estadual de Trânsito) e era responsável pelas fotos da carteira de habilitação e carteira de identidade. Foi lá que Sonagli logo descobriu uma segunda fonte de renda. “Percebi que as pessoas tinham muita dificuldade em lidar com as documentações solicitadas pelo Detran e que necessitavam de ajuda nesse processo burocrático”, revela o proprietário da Despachante Sonagli, empresa familiar com 47 anos de estrada, e que tem como lema do seu negócio: agilidade e segurança.
No Dia do Despachante, comemorado neste sábado (27), a Inspira! conta a história desta empresa, que cresceu em paralelo à regulamentação da atividade em Santa Catarina. De acordo com Sonagli, antigamente não existia a profissão de despachante, mas em 1976 o governo estadual organizou a profissão e começou a credenciar estes profissionais junto ao Detran.
Ele afirma que, para o Estado, os despachantes são reconhecidos como profissionais documentalistas e, atualmente, estes profissionais estão a caminho da regulamentação acadêmica. “O objetivo principal do nosso ofício é ser uma ponte entre a instituição e uma pessoa leiga, que tem dificuldades em lidar com as documentações solicitadas, assim como executar os processos para aquelas que não têm disponibilidade de tempo”, afirma o proprietário. Com o passar dos anos e com o crescimento dos negócios, a Despachante Sonagli tornou-se uma sólida empresa familiar. Em 1978, Sonagli casou-se com Rita de Cássia, que era professora primária, mas que em seguida tornou-se sócia e também não demorou para que a cunhada viesse a trabalhar junto ao casal.
Com uma família de três filhos, Elisa é formada em fonoaudiologia, Joseliane em advocacia e o mais novo, Luiz Antônio, tem duas formações – é engenheiro civil e administrador de empresas. O caçula foi o único que entrou no time da Sonagli e assumiu muitas responsabilidades, principalmente depois da morte da mãe, há 11 anos, de leucemia.
Questionado sobre a origem da informatização dos processos, Sonagli explica que em 1988 sua empresa foi uma das primeiras no Brasil a adquirir uma rede de microcomputador 286. Ele destaca que com a expansão da empresa foi fundamental entrar no mundo da tecnologia no escritório, tanto pelo volume de informações como pela necessidade de armazenamento de dados, por isso contratou uma empresa de tecnologia para implementar esses sistemas. O proprietário conta que, para isso, contratou um programador, que durante quatro meses desenvolveu um programa de cadastramento de veículos – durante anos serviu como referência para muitas outras empresas do ramo.

Trabalho do despachante é intermediar processos entre a instituição e a comunidade, explica Sonagli – Anderson Coelho/ND

Pioneira na informatização

A Sonagli foi pioneira e se informatizou muito antes do Detran. “No Brasil, por sermos um país excessivamente burocrático é fundamental termos paciência para lidar com a falta de agilidade e a lentidão dos órgãos públicos”, afirma. E acrescenta: “A grande verdade é que mesmo que atualmente o mundo esteja mais dinâmico e que existam mais facilidades devido à informática e às novas tecnologias percebo que sempre haverá profissionais trabalhando como despachante, pois pessoas com dificuldades para realizar determinados processos e serviços existirão”.
Não por acaso desde o início da empresa havia na entrada uma placa com os dizeres: “Não funda sua cuca, deixa que nós resolvemos este problema para você”. E foi assim que a Despachante Sonagli transformou-se em uma empresa de referência e que desde o início sua sede segue as mudanças de endereço do Detran para a comodidade do público.
“Minha maior alegria e satisfação é me sentir útil para aquelas pessoas humildes que por falta de conhecimento não conseguem tirar seus documentos, bem como para aquelas que não têm tempo e depositam sua confiança em nossos serviços”, pontua o empresário. E agrega: “Não existe nenhum problema de documentação séria e legal que não tenha solução, a não ser aquelas que não sejam corretas, por isso cabe a nós como empresa dizer não a qualquer situação que esteja fora da lei, afinal a moral do despachante consiste em solucionar somente problemas de ordem legal”.
Com quase 50 anos de trabalho na área de despachante o empresário questiona a importância dada aos veículos pelos florianopolitanos: “Sem dúvida, a falta de um sistema de transporte público de qualidade na cidade faz com que o cidadão valorize excessivamente o carro privado”. Segundo Sonagli, não por acaso existem pedidos de placas de automóvel que são no mínimo bizarras. Ele que já viajou pelo mundo inteiro, desde China, África e vários países europeus, pôde assim comparar os sistemas de transporte público em diferentes continentes.

Do Acre à Patagônia

Mas nem só de trabalho é a vida do empresário José Luiz Sonagli, de 67 anos. Seu grande hobby é tirar fotos de pássaros e para isso não mediu esforços, Já viajou de carro do Acre à Patagônia para fotografá-los. Sua outra paixão são seus quatro netos, que segundo ele são os xodós do vovô e não pensa duas vezes na hora de sair de bicicleta e brincar com eles durante os finais de semana.
Com uma fisionomia tranquila de dever cumprido, José Luiz Sonagli foi também tesoureiro durante seis anos da Adotesc (Associação dos Despachantes de Santa Catarina). Hoje ele é só elogios ao comentar sobre seu filho caçula, Luiz Antônio, de 36 anos, e que começou a trabalhar com os pais desde os 14 anos e hoje é sócio da empresa. “Eu e minha esposa o ensinamos a trabalhar com muito respeito e seriedade, além disso, ele se assemelha muito as atitudes da mãe, que era uma profissional extremamente agregadora, prestativa e persistente na resolução de problemas”, afirma o pai.
Há 40 anos, Nilson Dutra, 57, é um dois funcionários mais antigos que trabalha na empresa. Ele conta que ajudou a cuidar de Luiz Antônio desde bebê, quando era levado para o trabalho dos pais.

Negócio familiar

Por outro lado, Luiz Antônio, que é formado em duas graduações e tem uma pós-graduação em Gestão e Segurança em Trânsito, avalia que tem prós e contras em trabalhar em um negócio familiar: “A parte positiva é que eu tenho a segurança e a liberdade para expor minhas ideias e a parte ruim é que apesar de toda minha dedicação à empresa sinto que em vez de ser um negócio conquistado por mim foi um negócio herdado pela família”. Essa formação acadêmica do filho é, sem dúvida, um dos diferenciais da empresa, pois se a mãe e o pai entraram com o conhecimento prático de décadas dedicadas ao trabalho de despachante, o filho agregou com as soluções de problemas presentes nas leis e nos aprendizados nas universidades.
“O que me difere dos meus pais como profissionais é que eles trabalharam muito até começarem a aproveitar a vida e a meu ver é preciso medir melhor o trabalho e o lazer; é claro que hoje com a internet e o celular é possível se ausentar por uns dias da empresa para tirar férias, mas por pouco tempo, pois é a presença do dono que faz a diferença na excelência da prestação de serviço da empresa”, explica Luiz Antônio Sonagli.
O filho também ressalta que o maior desafio da profissão do despachante é acima de tudo o saber lidar com pessoas. “É preciso muito jogo de cintura para lidar com diferentes tipos de pessoas para conseguir solucionar distintos problemas a cada dia”, destaca Luiz Antônio.

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