Enchente em Santa Catarina: tragédia no Estado completa 30 anos

Durante 32 dias, Vale do Itajaí foi devastado pela chuva

Julho de 1983. Há exatos 30 anos, o inverno chegava com força em Santa Catarina. Com ele a chuva que insistia em cair desde o fim de junho. Os dias passavam e a água deixava o leito do rio Itajaí-Açu para invadir as ruas, arrastando tudo pela frente. Era o começo de uma das maiores tragédias naturais vivida pelos catarinenses. A enchente de 1983 atingiu 135 cidades de Santa Catarina. Foram 198 mil desabrigados, pelo menos 49 mortos (não há um número oficial) e 32 dias de isolamento total. As cidades mais atingidas foram Rio do Sul, Blumenau e Itajaí.

Daniel Queiroz/ND

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Nas paredes de casa, Athanásio e a filha Anilze guardam recordações dos dias de desespero embaixo d água

Em 8 de julho, o Estado decretou situação de calamidade pública. A chuva ininterrupta fez com que os catarinenses aprendessem a olhar para o céu de um jeito diferente: com medo de que as previsões de uma grande enchente estivessem certas. E o que foi suposto por meteorologistas se cumpriu mais rápido do que se esperava. No dia 9, o rio Itajaí-Açu bateu recorde histórico, com 15,34 metros acima do leito. 

Mais do que números da tragédia, a enchente de 1983 é um marco para quem foi personagem dos dias de total isolamento. As estradas se transformaram no curso de um rio imenso, onde as margens quase não podiam ser vistas. 

Comida, remédios e roupas chegaram aos montes, mas só podiam ser distribuídos por helicópteros. A FAB (Força Aérea Brasileira), que atuou durante todo o resgate, sobrevoou por 1.320 horas, transportando 3.889 pessoas. 

Quem mora nas cidades do Vale do Itajaí tem alguma história para contar sobre a tragédia. A cada chuva, o povo teme que a cena de uma nova enchente devastadora se repita. Até mesmo quem não era nascido na época, certamente ouviu do pai, mãe ou avós sobre como foi sobreviver aos dias de cheia.

Seja pela rapidez assustadora da água que invadiu casas, sem dar tempo de resgatar qualquer recordação ou documento preservado por uma vida inteira, ou pelo orgulho em ter reconstruído as cidades em poucos dias. Em meio à lama e à sujeira deixada pela água barrenta, Santa Catarina ressurgiu em tempo recorde. Em Blumenau, por exemplo, foram necessários dez dias para que lojas reabrissem as portas.

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A tragédia em fotografias

A dona de casa  Rosa Sibert, 65 anos, mora no bairro Garcia, em Blumenau, na mesma casa que viu ser tomada pela água barrenta. A 13 km dela, o aposentado Athanásio Schmidtt, 87, vive no bairro Fortaleza. Em comum, além de morarem na mesma cidade, eles sentiram na pele a enchente de 1983 e, mais do que isso, usaram a destruição causada pela chuva constante como uma lição.

Daniel Queiroz/ND

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Rosa guarda em fotografias e também na garagem de casa as principais recordações da enchente

Para relembrar o que o mês de julho de 1983 causou às suas famílias, Rosa e Athanásio guardam fotografias. Nas paredes de casa, o aposentado tem dois quadros misturados às fotos dos netos, bisnetos e filhos: neles, aparecem a casa e a antiga marcenaria cobertas pela água. Na casa de Rosa, as fotos da destruição estão guardadas junto ao álbum da família. “É uma forma de relembrarmos tudo o que  passamos”, disse Rosa.

A própria arquitetura dos bairros mais atingidos pela enchente se alterou. Quem pôde, depois de 1983, optou por construir casas de dois andares. Na rua onde Rosa mora com marido e filho, as casas têm quintais arrumados, porém, no térreo não há quase nada de valor. Tudo que é mais importante está na parte de cima.

“Além das fotos, temos outras marcas que a enchente deixou. O assoalho precisou ser perfurado para que a água pudesse escorrer”, contou. Os buraquinhos, ainda que pequenos, estão lá. “Até hoje temos coisas para arrumar da enchente”, destacou.

No terreno de Athanásio, a casa foi mantida em pé, mas atrás foi construída outra de dois andares. “Assim conseguimos salvar mais coisas numa emergência”, afirmou.

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A rapidez da água 

 
Quando a água começou a subir no bairro Fortaleza, em Blumenau, a casa da família do aposentado Athanásio Schmidtt, 87 anos, já estava alagada. “Eu estava com o meu filho de sete meses nos braços. Não tivemos tempo de trazer nada junto. Eu nem tinha fraldas ou comida para dar para ele”, relembrou a filha Anilze da Silva, 51.

Daniel Queiroz/ND

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A rua XV de Novembro, em Blumenau, foi assolada pela enchente de 1983

Quando entra na casa onde mora até hoje com o pai, Anilze não vê mais nada do que existia em 1983. Móveis, roupas e até mesmo as fotos do casamento foram cobertas pela lama. Tampouco documentos puderam ser salvos. A destruição era tanta que em meio à limpeza era impossível não chorar. “Não dava pra fazer nada, aquele lodo estava grudado em tudo e não tinha como tirar. Na falta de água limpa, lavávamos a casa com o que sobrou da enchente”, lamentou.

“Estava tudo muito sujo”

 
Mais emblemática do que as imagens da enchente de 1983 que a dona de casa Rosa Sibert, 65 anos, guarda no álbum de fotografias, a maior recordação daquele ano pode ser vista todos os dias na garagem de casa. A canoa de fundo verde e de assentos azuis é uma verdadeira relíquia. “Ela ajudou a salvar muita gente em 1983, 84 e também em 2008 e 2011”, listou Rosa, lembrando as enchentes que se passaram desde então. Foi de canoa que Rosa pôde chegar ao apartamento onde, há 30 anos, ficou abrigada com outros 28 vizinhos.

“Tínhamos cinco salsichas para todas essas pessoas. Precisamos dividi-las para dois dias, só depois é que chegaram os primeiros mantimentos que vinham de helicóptero”, recordou Rosa, garantindo que no desespero mal se tinha tempo de sentir fome. “Na hora que percebemos que a água estava na porta de casa, não tivemos tempo para nada. A última coisa que imaginávamos era que a enchente permaneceria por tantos dias e que precisaríamos de comida”, salientou.

Mais do que a fome e a sede, os sons da enchente marcaram Rosa. No meio da madrugada, ouvia o gado que pastava em terrenos baldios do bairro Garcia, agonizando para, em minutos, morrerem afogados. “Em frente ao prédio em que estávamos passava de tudo, desde árvores gigantes, casas inteiras, até animais mortos”, completou.

Por vezes, ela e o marido pegavam a canoa para conferir a situação da casa, que tinha água passando pela altura da janela. “Nosso grande medo eram as doenças. Muita gente ficou doente e a demora para transferir até o hospital poderia ser fatal”, disse. Apesar dos cuidados, o marido adoeceu. A leptospirose foi emblemática na época e ele precisou ser transferido para o hospital de canoa para o tratamento, no fim, bem sucedido.“Estava tudo muito sujo”.

Bairros isolados

 
Os bairros de Blumenau ficaram tão isolados que era impossível saber o que acontecia a poucos metros de distância. Foi o caso do comerciante José Stringari, 76 anos, que na enchente de 1983 recém tinha aberto a loja de consertos de televisores. Ele ficou longe da família por dois dias.

Daniel Queiroz/ND

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Água chegou até o teto da loja de José Stignari

“Fui me abrigar em um apartamento perto da loja e não sabia ao certo como minha mulher estava”, disse Stringari, que além da ansiedade em ver a família perdeu todo o investimento feito na loja. “Eu tinha mais de 80 tevês aqui dentro. Nada pôde ser salvo”, disse.

Ele lembra que todos os comerciantes e seus negócios da época foram atingidos de forma avassaladora. “Ninguém acreditava que a água seria tão devastadora. Quem é daqui [de Blumenau] está acostumado com enchentes, mas não iguais àquela”, afirmou o comerciante, que mesmo com o prejuízo fez questão de continuar investindo no bairro Garcia, um dos primeiros a encher todas as vezes que a chuva cai com intensidade no município. “A gente gosta daqui. É o nosso lugar”, enfatizou.

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