Endoenças, Paixão, Aleluia, Ressurreição

Páscoa evoca reminiscências de outrora, na pequena cidade

As palavras utilizadas no título, já percebeu o antenado leitor e a informada leitora, referem-se à Semana Santa, o período iniciado sexta-feira passada e que prossegue até domingo, comemoração da Páscoa. Na verdade, se tomarmos os ritos cristãos mais profundamente, a época pascal começou lá na já distante Quarta-Feira de Cinzas, abertura da Quaresma.

A Páscoa, tal como tantas tradições, vem passando por transformações ao longo do tempo. Quem é da minha geração pode se identificar com algumas reminiscências que evoco mais uma vez (sempre, claro, situadas em Rio Negrinho, meu berço).

A Quaresma, lembro-me, dava início a um período de muita oração, jejum e o máximo possível de silêncio. No seio de uma católica família polonesa, estudando em colégio de freiras, não havia como me alienar ao espírito reinante. A Quinta-Feira de Endoenças, naqueles idos anos 60, já era dia santo, ou seja, feriado. Nada de aula mas, também, nem pensar em curtir o dia de folga. Jogar bola no campinho implicava em gritos, e barulho era proibido. Neste dia a missa era marcada pela cerimônia do lava-pés. Para a piazada, a maior honra era ver o pai ou o avô tendo os pés lavados pelo padre. Na escola já aprendêramos que era uma reconstituição do que Jesus havia feito com seus discípulos (só alguns anos depois, lendo atentamente a Bíblia, aprendi que a Páscoa era um ritual judaico, e que Cristo, seus amigos e a família estavam em Jerusalém justamente para as comemorações).

Sexta-Feira Santa era dia de mais silêncio ainda, peixe em todas as refeições (muitos deles pescados de manhã, junto com meu diadek na beira do rio nos fundos de casa). À tarde, a mais longa missa do ano. Alunos do Educandário Santa Teresinha, ainda por cima, eram obrigados a chegar uma meia hora antes para pegar assento nas primeiras fileiras de bancos.

Sábado, mais silêncio, orações e missa (aí a piazada era dispensada, dava pra jogar pêca no quintal; também sobravam uns restos de judas pra terminar de destruir). Mas a maior curtição deste dia era a elaboração do ninho. Tarefa número 1: recolher o máximo de barba-de-velho das árvores na beira do rio. Alguns galhos pra armação e mãos à obra. Sempre armávamos o nosso ninho em baixo de um banco sob a frondosa macieira ao lado de casa.

Domingo de manhã, missa das crianças às 8 (diadek e babka já foram à primeira missa, das 6 e meia). De volta para casa, enfim, hora de eu e meu primo Amauri pegarmos nossas cestas de Páscoa dentro do ninho. Eram de compensado, feitas com restos de madeira da Móveis Cimo. Na véspera, tia Maria já se encarregara de enfeitá-las com bastante papel e celofane picados, sobre os quais se amontoavam os deliciosos ovos, ovinhos e coelhos de chocolate Buschle (e os chocolatinhos com licor, nham nham…); casquinhas de ovo de galinha cobertas com papel de seda e recheadas de amendoim com açúcar; uma ou outra barra de marca famosa (me babei agora, lembrando do Urso Branco da Sönksen, luxo permitido apenas duas vezes por ano, na Páscoa e no Natal). Nada de se lançar com sofreguidão aos doces petiscos; quanto mais durasse aquele tesouro, melhor. No almoço, família reunida em torno da mesa farta, churrasco e gasosão, alegria e comemoração.

Seja qual for sua crença – mesmo que não tenha nenhuma –, feliz Páscoa!