Entrevista: Ministro da Justiça Sergio Moro defende combate à corrupção, em Florianópolis

Atualizado

Combate à corrupção, aumento na fiscalização em fronteiras e cruzada contra a criminalidade. O Ministro da Justiça Sergio Moro concedeu entrevista exclusiva ao colunista do ND e comentarista da RICTV | Record TV Paulo Alceu.

Pouco antes da entrevista, o ex-juiz que se notabilizou pela atuação na Lava Jato proferiu palestra no Momento Brasil, nesta segunda-feira (30). O evento foi promovido pela Acaert no auditório Teori Zavascki do TJSC (Tribunal de Justiça Santa Catarina).

Ministro e ex-juiz Sergio Moro proferiu palestra em Florianópolis nesta segunda-feira (30) – Anderson Coelho / ND – Anderson Coelho / ND

Ministro, em algum momento o senhor sentiu vontade de ser juiz novamente?

Não, eu aceitei um compromisso um desafio, sabia que o trabalho não seria fácil, eu estava como juiz da operação Lava Jato há cinco anos. Antes estive com casos envolvendo o crime organizado, quadrilhas, trafico de drogas, PCC e comando vermelho. Fui juiz corregedor de presídio federal, então os desafios sempre foram difíceis. Nós sabemos que nada é linear, qualquer trabalho terá avanços, dificuldades pontuais… O que nos move é esta vontade de mudança, não de voltar atrás, e sim enxergar como uma continuidade de trabalho de uma maneira um pouco diferente.

É inegável que nos últimos 15 anos houve crescimento na criminalidade.

Durante a palestra do Momento Brasil, o senhor falou das novas políticas implementadas na sua gestão e lembrou que foram 15 anos de omissão, descompromisso com Brasil. O senhor está “puxando a orelha” do PT?

Não, eu faço uma referência geral, uma constatação. As organizações criminosas cresceram neste período. O crime violento cresceu mesmo nos períodos de prosperidade econômica, desenvolvimento por si só não é suficiente para reduzir a violência, tivemos o problema da corrupção. Não  gosto de falar a partir do grupo X ou Y. É uma constatação de fato, é inegável que nos últimos 15 anos houve crescimento na criminalidade. Diante deste diagnóstico, é importante que mudemos as políticas públicas de segurança. Esta mudança, a meu ver, tem resultado em bons números. Há muito a fazer ainda, mas tivemos redução de mais de 20% em relação ao mesmo período do ano passado. Está certo que é um trabalho dos governos estaduais e municipais, mas também do governo federal. Temos uma mudança de discurso, valorização do policial, a compreensão de que o criminoso é alguém que tem que ser responsabilizado pelo devido processo, ou seja, temos que melhorar a vida das pessoas.

Ministro, estão querendo descontruir a Lava Jato?

A realidade é que tínhamos um passado que a regra era a impunidade da grande corrupção, esse quadro mudou. Não que tenhamos agora uma situação ideal, mas nós não podemos falar que agora quem comete crime de corrupção nunca é punido no Brasil. Em parte é por conta do trabalho realizado na Lava Jato, e este mérito ninguém tira da Lava Jato. É natural que qualquer operação que se prolongue tenha críticas pontuais e eventuais dificuldades de avançar mais, mas, na minha opinião, as pessoas sabem discernir o que é certo ou errado, e Lava Jato é o certo.

O desafio é grande, pois temos problema de orçamento, uma crise fiscal.

Qual é o foco para proteger as extensas fronteiras brasileiras?

Nós estamos com operações em andamento nas fronteiras do Paraná, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, e queremos expandir para as demais fronteiras. Basicamente queremos implementar uma atuação permanente das forças policiais, para combater o contrabando de armas, drogas ou de outra natureza. No passado se fazia operações em determinadas épocas do ano, assim o contrabandista sabia que depois deste período ele tinha livre trânsito nas fronteiras. Agora temos operações permanentes relevantes, que refletem em um grande número de apreensões neste ano, inibindo a vinda destes contrabandos para o Brasil. O desafio é grande, pois temos um problema de orçamento, uma crise fiscal. Queremos expandir e principalmente trabalhar com inteligência, temos um projeto piloto em foz do Iguaçu, um centro integrado de inteligência e operações de varias agências encarregadas da aplicação da lei, ao meu ver isto vai dar um salto na qualidade nos trabalhos de prevenção de contrabando nas fronteiras.

Ministro e ex-juiz Sergio Moro proferiu palestra em Florianópolis nesta segunda-feira (30) – Anderson Coelho / ND – Anderson Coelho / ND

O programa “Em Frente Brasil” caminha paralelo a estas operações?

O “Em Frente Brasil” é um programa especificamente destinado a reduzir a criminalidade violenta. No passado a União ficava distante destes tipos de crime e imputava aos Estados a responsabilidade. O País é um só e nós temos as responsabilidades e as forças policiais são mais eficientes quando trabalham de forma integrada. Nós selecionamos cinco cidades para a realização do projeto-piloto e o Governo Federal está indo pela primeira vez para os Estados sem que uma crise esteja instaurada.

Não podemos tolerar é um sistema de corrupção disseminado.

Dá para acabar com a corrupção?

A corrupção sempre vai existir, ela está em qualquer lugar do mundo, como um crime isolado no tempo e espaço. O que não podemos tolerar é um sistema de corrupção disseminado, pois afeta os cofres públicos e, por consequência, afeta nossa capacidade de fazer políticas de bem-estar da população, a qualidade da economia e a qualidade da democracia, o sentimento da nação de dignidade.

A corrupção está menor no Brasil?

Sim, certamente. Por ações realizadas nos últimos anos, como disse antes, nós mudamos o quadro da impunidade da grande corrupção no Brasil. Hoje temos várias pessoas que estavam praticando este tipo de crime e agora estão cumprindo pena. Diminuir a impunidade afeta a prática deste crime. Há muito a se fazer consolidar os avanços e evitar o retrocesso e olhar para frente.

Nossa “arma” com o Congresso é o diálogo

O pacote anticrime vai ser esfacelado pelo Congresso?

Nossa “arma” com o Congresso é o diálogo, nós buscamos convencer os parlamentares com muito diálogo e respeito do acerto das nossas proposições, isto faz parte da democracia. Tudo é uma construção coletiva. O Governo não pode impor uma solução, tem que convencer o Congresso e estamos trabalhando para isso. Na quinta-feira [03] teremos o lançamento da campanha publicitária do “Pacote Anticrime”. Na minha avaliação, a população quer medidas que sejam efetivas contra a corrupção, crime organizado e violento. Acredito que o congresso terá essa sensibilidade, pode ser que algumas das propostas sejam alteradas, faz parte do jogo democrático.

O que desanima o senhor?

Não acho que existe algo que desanime, temos que entender as dificuldades e agir para superá-las.

E uma sintonia com a urna eletrônica pode acontecer?

Não, de forma nenhuma, isso já falei um milhão de vezes, até falo brincando que vão falar no futuro que eu ia concorrer, mas desisti da minha candidatura. Não tenho esta pretensão. Minha única intenção é realizar um bom trabalho como Ministro da Justiça, com o objetivo de consolidar os avanços contra a corrupção, avançar contra os crimes violentos e o crime organizado e ter a satisfação no final deste governo. Olhar para atrás, dizer que foi um trabalho bem feito e partir para um novo desafio, depois de uma longa férias em algum lugar.

Minha única intenção é realizar um bom trabalho como Ministro da Justiça.

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