Entrevista: “Morre muita gente pela falta de saneamento”, afirma engenheiro catarinense

Rosane Lima/ND

Veiga Filho diz que “morre muita gente pela falta de saneamento” 

“A falta de saneamento mata.” A afirmação do professor Afonso da Veiga Filho, 76, coloca no centro da discussão um dos itens mais básicos para o desenvolvimento humano e social, mas que ao longo de anos foi relegado por governos e sociedade. “Agora, estamos pagando o preço”, declara o professor. A falta de planejamento adequado, com soluções integradas, segundo Afonso da Veiga, coloca o Brasil em uma das piores situações globais. Apesar dos bons números na economia e dos altos índices de qualidade de vida da população, Santa Catarina é apenas o 18º do país em saneamento. Confira a entrevista.

Este ano a campanha da fraternidade lança tema sobre saneamento, com o lema “quero ver o direito brotar como fonte e correr a Justiça qual riacho que não seca.” O saneamento entrou de vez na ordem do dia?
Na realidade o saneamento tem um envolvimento forte com a área ambiental, com a ecologia, mas o saneamento em si, que inclui fornecimento de água, esgotamento sanitário, resíduos sólidos e drenagem urbana, não tem tido o mesmo destaque, por exemplo, que as questões ambientais. Não se debate saneamento no mesmo nível. Os acontecimentos na área ambiental são mais pesados, os desastres naturais são fatos que acarretam em grande número de mortes em um curto espaço de tempo. Por exemplo, o acidente da Samarco, que gera um debate diante da grandiosidade do acontecimento. A falta de saneamento mata quase que na mesma proporção só que ao longo do tempo e aos pouquinhos.

Quais os efeitos mais fortes causados pela falta de saneamento, ou diante de um saneamento não adequado?
Morre muita gente pela falta de saneamento. Muitas vezes pessoas de baixa renda, de comunidades desassistida. A falta de saneamento é problema de saúde pública. Se for feito um levantamento, veremos que 60% das mortes nos hospitais têm ligação com a falta de saneamento. O negócio é que o Brasil nunca se preocupou em ensinar ao povo os princípios básicos da autodefesa do saneamento. Ensina-se a escovar os dentes, lavar as mãos, mas não se ensina, por exemplo, a descartar o lixo corretamente, o porque de não deixar água parada. O problema do mosquito Aedes aegypti é reflexo disso. A autodefesa do brasileiro é ir ao hospital depois que fica doente. É uma questão cultural e vai ser muito difícil enfrentar isso.

É um problema nacional? Como Santa Catarina aparece neste cenário?
O Brasil só começou a ter algum interesse por saneamento na década de 1960. Digo água e esgoto, porque resíduos sólidos e drenagem sempre foram os primos pobres do saneamento. Naquela época, tivemos a presença da Fundação Sesp (Serviços Especiais em Saúde Pública), hoje Funasa, que era do Ministério da Saúde que trabalhava engenharia sanitária. Em 1970, a criação de um plano nacional de saneamento (Planasa) deu certa organização ao setor com a criação das empresas estaduais, como a Casan. Havia monitoramento do BNH (Banco Nacional de Habitação) e as companhias não eram usadas politicamente. A ideia da criação das companhias era tornar o serviço mais ágil e mais técnico, o que era difícil com um órgão do governo. Alocaram-se recursos para o setor e Santa Catarina, a exemplo do resto do Brasil, avançou bastante. Só que Santa Catarina não privilegiou o esgotamento sanitário e quase nada foi feito neste setor. Fizeram bastante pela água e hoje estamos pagando o preço por ter deixado de lado a questão do esgoto, pois a recuperação é muito pior. Imagina, estamos falando de situações da década de 1970. Mas aí em 1985 o governo Sarney extinguiu o BNH e aí virou bagunça. O controle, que era feito por órgão nacional, passou a ser feito pelos próprios Estados e aí cada governador deu o rumo que entendeu conveniente para as companhias. A grande maioria politizou.

Mas Santa Catarina é um Estado destacado pela economia forte e pelos bons índices de qualidade de vida, mesmo estando em 18º no país no ranking do saneamento. A falta de sabeamento não afeta estas questões?
Isso é uma grande negação de Santa Catarina em relação ao resto de seu comportamento. Não podemos ser considerados um Estado com perfil de primeiro mundo justamente pela falta de saneamento. Nosso Estado é equilibrado na indústria, comércio, a agricultura é forte, grandes empresas nacionais nasceram aqui, mas somos atrasados em saneamento. Principalmente no esgotamento sanitário. A falta de saneamento impede de qualificarmos Santa Catarina como de primeiro mundo. Mas os problemas de saneamento não são exclusividade de Santa Catarina. Temos essa mesma fotografia em praticamente todo o Brasil, com cores um pouco diferentes.

O que temos de planejamento para Santa Catarina? Quanto seria preciso investir para que o saneamento alcançasse níveis aceitáveis?
Em 2006 a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente do Estado fez um estudo em parceria com o Bird (Banco Mundial) e estabeleceu as necessidades de investimentos para água e esgoto no Estado. Este estudo previa alavancar os níveis do serviço num patamar aceitável, 80% esgoto e 95% água. Para isso, o levantamento apontou R$ 5 bilhões para esgoto e R$ 4 bilhões para água. O planejamento de água ficou tão caro, em relação ao previsto para esgoto, porque os sistemas que existem estão ultrapassados. Algumas cidades têm ligações tão antigas que já não têm mais capacidade para comportar o crescimento populacional, seria necessário fazer novos sistemas de água. Mas esse plano, infelizmente, nunca foi perseguido.

Existe solução para a questão do esgoto em Florianópolis? As medidas anunciadas podem realmente mudar o panorama do estado, ou não passam de ações paliativas?
Quando se fala em saneamento não se tem soluções isoladas. Eu digo que existe um casamento entre São José, Palhoça, Santo Amaro da Imperatriz, Biguaçu e Florianópolis quando o assunto é saneamento. A água é captada em Palhoça e Santo Amaro, o esgoto é tratado em São José, Biguaçu abriga o aterro. Seria preciso um plano metropolitano, com um grande estudo dos aspectos hidrográficos, inclusive, para verificar essa discussão, por exemplo, se do rio Brás o fluxo vai para o Papaquara, dali para onde vai, e tudo mais. É preciso estabelecer o comportamento da hidrologia da Ilha e do Continente de forma técnica. Um plano que possa prever a expansão da cidade. Em 1974 eu pedi licença da Casan por um ano e meio para trabalhar no projeto de esgotos sanitários de Florianópolis. Na época, ganhou uma empresa de São Paulo, a Coesa, e eu fui coordenar o projeto para eles. Começava em São José, no divisor de águas, e iria até o Sul da Ilha, onde seriam construídas lagoas de estabilização na planície do Rio Tavares com a construção de um emissário submarino no Campeche. Mas a Casan cortou o projeto na ponte Colombo Salles e construiu uma estação na entrada da cidade. Hoje, 42 anos depois, essa ainda é uma das soluções para o esgoto da cidade. Também com a construção de um emissário nos Ingleses. 

A Casan tem apresentado algumas obras, como a ampliação da ETE de Canasvieiras, construção da estação no Rio Tavares, mas não prevê a construção de emissários como solução imediata, o que só está previsto para 2023. Os emissários são a solução?
Aquela estação era só para Canasvieiras, mas hoje ela atende Cachoeira e Ingleses. Ela não está aguentando tratar todo o volume. Mas a Casan só trabalha por pressão. Nunca se viu um plano de ação apresentado pela Casan. Ninguém conhece o planejamento a médio e longo prazo. Os emissários são uma das soluções, e para nós uma solução viável. O projeto do emissário do Campeche prevê dois quilômetros de distância a 25 metros de profundidade. Água com temperatura baixa, corrente, alta salinidade, alta dispersão, tinha tudo favorável para se fazer como ainda é hoje. Para mim, quem é contra, não é ambientalista, tem que se ter um pouco de razoabilidade. Dessa forma, continua todo mundo jogando no Rio Tavares sem tratar. Isso não é solução, é briga de guri pequeno. Quando se faz o tratamento bem operado, de primeiro ou segundo grau, já se baixa a contaminação em mais de 90%. A poluição é sempre relativa. Se você joga um caminhão de esgoto no rio do Brás faz um estrago. Mas o mesmo caminhão de esgoto no rio Amazonas não faz nem cócegas.

Os problemas históricos de balneabilidade no Norte da Ilha vieram à tona com as notícias de despejo de esgoto in natura pela própria Casan no rio do Brás. Casan e Prefeitura de Florianópolis trataram o assunto como questão pontual da temporada, chuvas, alta taxa de ocupação, entre outros, como o senhor interpreta isso?
A temporada tem que se adaptar a partir da organização cotidiana. Em lugar nenhum se faz nada especificamente para temporada, ou para o turismo, se faz para a cidade e se melhora algumas coisas para que o turismo possa acontecer de forma adequada. Seria necessário um grande plano diretor, não um plano urbano de ruas e essas coisas, mas um plano de ocupação do solo. E a partir daí começar a estabelecer prioridades. Com isso, tranquilamente se chegaria à despoluição das baías, por exemplo. A ameaça do município de Florianópolis em romper com a Casan em nada tinha a ver com a questão do rio do Brás. Isso foi puramente político. Se Florianópolis rompe com a Casan, no outro dia ela está falida.

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