Marcos Cardoso

A sociedade da Grande Florianópolis, os eventos culturais e as tradições da região analisadas pelo experiente jornalista Marcos Cardoso.


Entrevista: Renato Mondini

Ele criou o serviço Neto de Aluguel para acompanhar idosos em pequenas tarefas fora de casa, atividade que precisou ser ajustada diante da situação atual de quarentena

Renato Mondini e o seu saudoso avô, Manoel Ribeiro, o Nequinho – Foto: Renato Mondini/Divulgação/ND

Nascido em uma família de músicos, o quarto dos cinco filhos da cantora Patricia Ribeiro e do maestro Zezinho Ribeiro, da orquestra Stagium 10, se formou em letras pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), tendo lecionado por três anos. Hoje, aos 32, é 100% “neto de aluguel”, uma atividade despertada a partir da convivência com o avô, falecido em 2019 e com quem dividiu a moradia. Renato faz companhia em atividades externas a quatro idosos efetivos, entre 70 e 95 anos, além de outros esporádicos. No momento, “o melhor que podemos fazer é manter os grupos de risco protegidos em casa”, garante.

Como surgiu a ideia do Neto de Aluguel?

Eu estava um pouco desiludido profissionalmente, faltava aquela alegria que temos ao fazer algo que realmente gostamos. Nesse meio tempo, meu avô, Manoel Ribeiro, que tinha 94 anos, veio morar comigo. Dividimos apartamento, cada um no seu quarto, o que fez surgir uma amizade única. Com tudo o que fizemos juntos, as inúmeras gargalhadas, orações, histórias do passado, uma cumplicidade difícil de se descrever. Sabendo que a vida terrena uma hora chega ao fim, surgiu o insight de continuar esse carinho com outros tantos vovôs.

Quais são os serviços que ofereces?

A companhia que todo idoso precisa para ir aonde bem entender. O serviço oferecido é autonomia do idoso, acompanhá-lo às suas atividades de lazer que ficaram restritas por não poderem mais sair sozinhos. Devolver aquela atividade que fizeram por toda uma vida e, por conta da idade, se tornou dificultosa. Seja tomar um café na padaria, um passeio no parque ou uma pescaria no trapiche às 5h da manhã.

Hoje atendes quantos idosos? São homens, mulheres? De que idades?

Eu tenho quatro idosos efetivos, todos homens, com idades entre 70 e 95 anos. Atendo outros esporadicamente, com uma ida ao médico e aniversário da família, como é o caso de uma senhora de 99 anos que busco algumas vezes.

Estas pessoas vivem sozinhas, em asilos ou até moram com alguém e passam o dia sozinhas?

Dois deles são casados e vivem com suas esposas, outro vive com irmãos e outro em uma Ilpi (Instituição de Longa Permanência para Idosos).

Renato e José Carlos Knoll, um de seus avôs postiços – Foto: Renato Mondini/Divulgação/ND

Quem te contrata? São eles mesmos? Parentes?

Os contatos e contratos são sempre realizados por filhos e esposas. A preocupação com os pais/avós e a rotina corrida em que vivemos faz com que não se consiga dar a atenção devida. Ter alguém de confiança para acompanhar, conversar e dar cor à vida do idoso, enquanto o filho/neto não pode estar presente, proporciona um sentimento de tranquilidade.

O entrosamento entre o “neto” e os “avós” costuma ser rápido, fácil?

É rápido, mas adquirir a confiança é o principal para que isso aconteça. Afinal, é uma pessoa estranha em sua casa, monitorando de certa forma a sua rotina. Respeitar e entender o idoso é o que faz isso dar certo. Eu sempre trato a todos como tratei e trataria meu avô. Como é de coração, dá certo.

Procuras manter um distanciamento emocional? Como lidar depois com o afastamento por motivo de mudança, doença ou mesmo óbito?

É impossível não se apegar. Mas o carinho e o sentimento de ter feito tudo o que era possível e até mesmo proporcionado momentos ímpares a eles me deixam em paz e com sentimento de missão cumprida.

Como fazer para não se envolver com questões familiares e pessoais do idoso, mesmo sendo alguém que se tornou tão próximo, talvez o mais íntimo e amigo que ele tem?

Ética e respeito. Apesar de ser amigo do idoso, eu sou contratado pela família e tenho minhas responsabilidades e atribuições.

O teu trabalho é semelhante ao do cuidador?

São trabalhos distintos, mas que se complementam. Eu sou “neto”. Aquele que busca em casa, conversa, auxilia no que precisa. Muitos idosos são ativos e não necessitam de um cuidador, apenas de alguém que o acompanhe ao parque ou mercado. Conversando e cuidando para que não caia, dirigindo e levando a lugares diferentes.

Com o “vovô” Walter Edgar Antunes – Foto: Renato Mondini/Divulgação/ND

Quais são as maiores dificuldades ao se lidar com uma pessoa idosa, mesmo que somente em parte do dia?

Paciência. Talvez a maior dificuldade seja entender que a mobilidade não é mais a mesma, que o corpo não tem mais o vigor dos 30 e poucos anos. Isso faz com que muitos de nós, acelerados em decorrência da tecnologia e da quantidade de informação que absorvemos diariamente, se incomodem e não deixem o idoso realizar as coisas ao seu tempo. Levar o garfo/xícara à boca pode levar um tempo a mais, mas é o tempo dele e deve ser respeitado. Auxiliar se preciso for, mas não impedi-lo de fazer sozinho.

Como está sendo neste momento em que é necessário o isolamento dos idosos?

Suspendi as atividades externas e faço monitoramento via telefone e janelas. Converso com eles à distância, vendo que estão bem e não foram, nem nunca serão, esquecidos. Além deste contato à distância, faço compras em supermercados, padarias, farmácias e toda e qualquer voltinha que for preciso para deixá-los em casa, sem que nada falte.

Crianças, jovens e adultos têm usado muito a tecnologia para entreterem-se em casa. Já os idosos em geral não tem familiaridade com computador e celular. O que é possível alguém fazer junto com eles ou remotamente?

Hoje, somos totalmente dependentes da tecnologia, e não imaginamos uma vida sem ela. Temos idosos que dominam as tecnologias, mas muitos não têm interesse nem necessidade de aprender. Portanto, para entreter uma geração que viveu e cresceu desconectada, só se nos adaptarmos a eles. Então, devemos, sim, aproveitar o momento para conversar com o vô via telefone, cantar, contar histórias. São as melhores formas de passarmos por esta quarentena.

O coronavírus está transformando a vida do planeta em todos os sentidos (humano, econômico, político). Percebes um olhar diferente em relação aos idosos?

Todos fomos obrigados a desacelerar o ritmo de vida. Estamos em casa, trabalhando, sem sair e preocupados com todos. Mas o fato de vermos, em outros países, idosos contraindo o coronavírus e morrendo rapidamente, com caixões sendo levados pelo exército, sem velório, sem despedida, sem missa, nos assustou. Todos passamos a olhar diferente para aquele vizinho idoso que mora com a esposa, pensar nos pais que têm uma vida ativa e não podem sair para a sua caminhada matinal, para a mãe aposentada que está sempre na praia com as amigas. Temos medo de perder quem amamos. E este medo se transformou em amor, em cuidado.

Muita gente tem se oferecido para fazer pequenas tarefas aos idosos. O que esta prestatividade sinaliza para o mundo neste momento?

Isso é maravilhoso. Independentemente de crenças, todos sabemos o quanto a solidariedade é importante e benéfica. Ajudar o próximo é o que nos faz ser ajudados. Em pequenas ações, como se oferecer via bilhete no elevador para fazer compras no mercado, ir a farmácias ou padarias, mostra que temos muito a ganhar. Espero profundamente que isto continue, que este cuidado com quem nos cerca siga firme após vencermos este inimigo invisível.