“Éramos mortos-vivos”, lembra Manoel Dias sobre a ditadura

Atual ministro do Trabalho e Emprego foi cassado duas vezes pelos militares

“João Goulart foi morto, e Brizola estava na mesma lista”. As afirmações, peremptórias, são de Manoel Dias, que era vereador pelo PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) em Içara, no Sul de Santa Catarina, quando os militares assumiram o poder no país, em 1964. O atual ministro do Trabalho e Emprego está entre os raros casos (ele, pelo menos, não conhece outro) de políticos com duas cassações no currículo, porque depois de ficar sem o mandato na Câmara local também perdeu o cargo de deputado estadual por conta da obsessão governamental de calar todos os opositores do regime. Assim como ele, os anos de chumbo tiraram os direitos políticos de figuras como Doutel de Andrade, Paulo Macarini, Eugênio Doin Vieira, Paulo Stuart Wright, Waldemar Salles, Evilásio Caon e Fernando Viegas.

A grande força dos sindicalistas da mineração no Sul do Estado fez da região um celeiro de políticos – e de presos políticos. O próprio Maneca Dias, como é conhecido, participava de programas na rádio Difusora de Criciúma que defendiam os interesses dos trabalhadores e a Campanha de Legalidade, iniciada por Leonel Brizola, levantando suspeitas nos meios militares e empresariais de que havia muito tempo conspiravam a favor de Jango. “Tínhamos ali a melhor e mais perfeita organização sindical do Estado”, afirma o ministro. Quando foi preso pela segunda vez, ele ficou 11 meses em reclusão em Criciúma e na 5ª Região Militar, em Curitiba. Depois, passou dez anos proibido de desenvolver qualquer atividade política.

Tão ou mais difícil do que ser impedido de concorrer a qualquer cargo eletivo era a discriminação que se abatia sobre um político cassado. “Na ditadura, éramos mortos-vivos, quase leprosos, pessoas que passavam pelo constrangimento de ver gente conhecida atravessando a rua para não nos dirigir a palavra”, conta Dias. “Éramos demitidos e não podíamos ter qualquer relação com os órgãos do governo. Quando presos, a tortura era psicológica: nos ameaçavam de fuzilamento, nos davam tapas e empurrões e diziam que seríamos mandados para a Ilha das Cobras”.

Daniel Queiroz/ND

Manoel Dias passou dez anos impedido de exercer qualquer atividade política

Ditadura alienou gerações de brasileiros

Presidente da União Catarinense de Estudantes Secundaristas em 1962 e mais tarde vice-presidente da Ubes, que reunia os estudantes secundaristas de todo o Brasil, Manoel Dias lembra que as tropas da Legalidade chegaram até Tubarão, vindas do Sul, e que na sua passagem por Criciúma muitos líderes partidários e sindicalistas foram presos. Contudo, a jornada, que deveria seguir até o Morro dos Cavalos, em Palhoça, onde esperava-se uma luta renhida, não prosseguiu e no dia 31 de março voltou ao Rio Grande, pondo fim à resistência. As reformas de base propostas por Jango e Brizola nunca aconteceram, e “a violência do regime inibiu a reação da sociedade”.

O atual ministro ressalta que Jango tinha 88% de aprovação da população, de acordo com pesquisa feita pelo “Jornal do Brasil”, e que se resistisse ao golpe “estaria criando uma guerra do Vietnã por aqui”, pelo apoio americano ao golpe de Estado. O resultado da ditadura, segundo Manoel Dias, foi “a alienação de três ou quatro gerações de brasileiros”, que resultou na atual tendência de criminalizar a política e o Congresso Nacional. “Não há outra saída e não ser a democracia”, completa.

Com tupamaros dentro de um DKV até o Rio de Janeiro

Uma passagem sobre a qual não costuma falar muito faz Manoel Dias remontar aos anos em que Leonel Brizola estava exilado no Uruguai e ele, então destituído dos direitos políticos, levou 27 guerrilheiros tupamaros de Florianópolis ao Rio de Janeiro. Na maioria dos casos, os jovens tinham entre 14 e 17 anos, e precisavam de salvo-conduto para chegar à Europa. “Um dia, alguns deles bateram na minha porta com um pedido de Brizola para que os transportasse ao Rio, onde o comissariado da ONU, através do cardeal dom Eugênio Salles, arranjava os documentos”, conta. Foram várias viagens feitas num DKV, que iam das 3h da madrugada até o final da tarde do dia seguinte – a mitra metropolitana fechava as portas sempre às 18h.

A guerrilha tinha sido desbaratada no Uruguai, onde também vigia um regime militar e onde há poucas montanhas, matas e esconderijos subterrâneos para quem deseja fugir de alguma perseguição. A maioria do ex-guerrilheiros se dirigia aos países escandinavos.

Brizola também não se sentia seguro no país vizinho, e procurou a embaixada americana em Montevidéu. Dias depois, graças ao presidente Jimmy Carter, caminhava tranquilo nas ruas de Washington. Dali, começou a articular a reorganização do PTB, partido que acabou, por manobras que Manoel Dias atribui ao general Golbery do Couto e Silva, nas mãos de Ivete Vargas, em 1978. “Se não fosse esse fato, Brizola teria sido presidente da República”, afirma ele.

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