Éramos vips

Boas lembranças da Jovem Guarda

Ouço música neste momento em que escrevo a crônica semanal, como geralmente faço. É bom pra inspirar. Normalmente escolho repertório instrumental, seja clássico, das antigas ou contemporâneo. Só que nesta quarta-feira, 20 de janeiro, há vocais vindo da caixinha acústica do PC. O título da canção é “A Volta”, que sucedeu “Faça Alguma Coisa pelo Nosso Amor” e precede “Parei na Contra-Mão”, “Lá Muito Além” e outras que os irmãos Ronaldo e Márcio Antonucci gravaram em meados do século passado, assinando seus discos como Os Vips. Justamente nesta quarta-feira fez dois anos que a dupla se desfez, com a morte do mano mais velho Márcio.

As gerações do século 21 dificilmente saberão a quem me refiro. Os Vips integraram a nata da Jovem Guarda, movimento social e musical liderado pelo trio Roberto-Erasmo-Wanderlea – o Rei, o Tremendão e a Ternurinha. Eles ditavam moda e comportamento entre nós, adolescentes e jovens brasileiros dos anos 60. Eram mais ou menos como hippies bem comportados. Pregavam mais amor do que paz, vestiam-se com elegância (tá, tá, usei calça Zé Beto de duas cores, roxo atrás e bordô na frente, mas era o must em 1969, oras), não faziam apologia da droga (ainda que a maioria curtisse um baseado) nem do sexo livre (mas o que eram aquelas minissaias da Martinha, ô cronista?).

Se, por um lado, Eduardo Araújo exagerava nas cores berrantes e no visual descabelado, por outro Os Incríveis e The Fevers se apresentavam vestindo impecáveis terninhos. Sylvinha, Waldirene e Vanusa preferiam as calças jeans e os “slacks” (aportuguesemos para eslaques, aquelas calças femininas coloridas), enquanto Wanderlea e Martinha disputavam quem usava minissaia mais curta. Em tempos de censores com olho de águia – e cérebro de pulga –, a saia criada por Mary Quandt era o máximo de ousadia a que as cantoras se permitiam. Cláudia Leitte seria presa se expusesse os peitos como faz hoje.

Havia ranger de dentes entre os jovem-guardistas e os puristas da MPB. Tropicalistas e bossa-novistas não engoliam os sons da guitarra elétrica, nem as incontáveis adaptações de sucessos estrangeiros. E daí? Pra nós, fãs, foram os Beatles que pegaram “Menina Linda”, sucesso de Renato e Seus Blue Caps, e transformaram em “I Should Have Known Better”. De qualquer forma, Caetano, Gil & cia. bela trataram de pavimentar seu glorioso caminho, sem alimentar rusgas inúteis. Cada um na sua.

Também tinha a “turma do lamê”, mais romântica. Ali reinavam Agnaldo Timóteo, Nelson Ned, Altemar Dutra, Paulo Sérgio e Cauby Peixoto (o primeiro a usar paletós enfeitados com o brilhante lamê). E os showmen como Moacyr Franco e Agnaldo Rayol. Comandavam, respectivamente, os programas “Moacyr Franco Show” e o “Corte-Rayol Show” (esse com o comediante Renato Corte Real). Tempos das TVs Excelsior e Record.

De todos esses estilos e gêneros que citei, uma característica se sobressaía: a qualidade musical. Nem sempre as composições eram autorais, havia na Jovem Guarda e no Lamê muitas versões bobinhas. Mas todos CANTAVAM e TOCAVAM de verdade. Os vocais dos Vips ou dos Golden Boys eram harmônicos, afinados, eles cantavam bem. Excrescências como ludmilas, anitas, luans e emicis não se criariam naquele tempo. Precisava ter gogó! Quer conferir? Acesse o iutúbi, digite jovem guarda e fique ouvindo.