Escola de Oleiros de São José mantém viva a tradição das cerâmicas açorianas

Do barro modelado por mãos ágeis foi construída uma das maiores tradições de São José, as peças em cerâmica. A tradição herdada dos açorianos que formaram a cidade passa por transformação, como tudo que atravessa séculos. Em São José a preocupação em manter as raízes é levada a sério. E para sustentar o que é um dos ícones josefenses foi construída uma escola que está perto de completar 27 anos de existência.

A Escola de Oleiros Joaquim Antônio de Medeiros está localizada no bairro Ponta de Baixo, região onde tempos atrás foi o nicho de várias olarias e oficinas que formaram centenas de homens e mulheres em artesãos do barro.

“A olaria viveu alguns ciclos, como quando se fazia apenas peças utilitárias. O novo ciclo é a escola tentando formar novos oleiros”, analisa Heloísa Souza, diretora da escola há cinco anos. A escola oferece três cursos: Roda de oleiro, com duração de três anos, modelagem figurativa e modelagem diversa, com duração de dois anos cada uma. Atualmente a escola tem 192 alunos, a maioria adultos. Quase não há crianças e adolescentes.

Neto de oleiro, Luciano da Silva se dedica em manter viva a tradição – Marcela Ximenes/ND

“Essa profissão está na contramão de tudo”, acredita Luciano da Silva, um dos professores da Escola de Oleiros. “Criança e adolescente querem saber de estar com um jogo, um celular na mão. Só se interessa por esse profissão quem tem algum vínculo afetivo com a olaria”, disse, usando a própria experiência como exemplo.

Neto de oleiro, Luciano rodou por outra área antes de se dedicar ao torno e ao forno. Um dia, impulsionado pelas lembranças da infância quando brincava entre os objetos do avô e o forno, especialmente durante o inverno, ele se inscreveu na escola onde o seu José de Souza era professor. “Meu avô começou como servente de oleiro aos 16 anos, se dedicou muito. Trabalhou aqui mesmo na Ponta de Baixo, fazia panelas, canecas, todos os utensílios em cerâmica”, conta, saudoso.

Luciano começou a trabalhar como professor-oleiro em 2001 e o avô se aposentou em 2000. Ele herdou a roda onde o seu José trabalhou por décadas. A ligação emocional move Luciano a trabalhar para formar novos oleiros e, mais do que isso, apaixonados pela profissão.

Myllene Machado é professora-oleira e restauradora de cerâmica – Marcela Ximenes/ND

De empresária a oleira

Das tintas da loja em que era sócia-proprietária para os pincéis e cores da restauração de peças em cerâmica. A mudança na vida de Myllene Machado aconteceu quando viu na capa de um jornal a foto de um homem na roda, modelando uma peça. O oleiro era o seu José de Souza, avô de Luciano. “Eu enlouqueci de paixão. Disse: é isso que eu quero fazer”, e assim foi. Ela fez os três cursos oferecidos na Escola Municipal de Oleiros e, após formada, começou a trabalhar.

A nova oleira dava cursos em programas de extensão na UFSC e quando houve um concurso da Prefeitura de São José para professores de artesanato, Myllene se inscreveu. Isso foi há 15 anos.

Mas a paixão de Myllene pela cerâmica é de muito antes. Nascida em Biguaçu e moradora do Estreito, a professora conta que quando era criança fazia festa ao acompanhar os pais nas compras de utensílios domésticos pelo comércio de São José. “Eu sou apaixonada pela cultura josefense. Não quero ficar longe disso tudo. Enquanto puder, estarei aqui trabalhando. Acho que sou a única que não está preocupada com a aposentadoria”, afirma, sorrindo, sem largar o pincel que finaliza a restauração de um vaso.

Escola de Oleiros, na Ponta de Baixo, em São José – Marcela Ximenes/ND

Aulas e visitas

A Escola de Oleiros Joaquim Antônio de Medeiros abre turmas todo início do ano, com inscrições em fevereiro. Podem se matricular pessoas a partir dos nove anos de idade. As aulas acontecem de segunda à quinta-feira pela manhã e tarde.

Durante a semana, de segunda a sexta-feira, a escola recebe grupos de visitas com até 20 pessoas que agendam previamente e também visitantes em grupos menores ou individualmente, em horário comercial.

O endereço da escola é: rua Frederico Afonso, 5545, Ponta de Baixo. Telefone: 3343-3387.

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