Escritor Maury Borges compartilha lembranças da Praia de Fora, atual Rua Bocaiúva

Maury Borges na Travessa Harmonia com a atual Rua Bocaiúva ao fundo. Foto: Flávio Tin/ND 

Autor de livros que resgatam a história do futebol em Santa Catarina, o jornalista, escritor e pesquisador Maury Dal Grande Borges, 83 anos, guarda muitas lembranças na antiga Praia de Fora, atual Rua Bocaiúva. Um dos espaços mais nobres e valorizados da Capital catarinense, a rua guarda histórias do tempo em que era possível pescar e frequentar a praia da atual avenida Beira-Mar Norte.

A reportagem do ND convidou Borges a dar um passeio pela atual rua Bocaiúva. Foi lá que o escritor passou a sua infância e início da idade adulta até o casamento, quando se mudou para a atual residência no bairro Estreito, no Continente. Era uma via distante do Centro, de início acessível apenas pela Rua do Passeio, atual Esteves Júnior, e depois pela Avenida Mauro Ramos.

“Era o final da cidade, porque logo em seguida vinha o morro, que naquela época era habitado apenas por pobres. Eles que lavavam as roupas do povo e desfilavam aos sábados com as roupas lavadas nos ombros”, relata. Se hoje, a rua Bocaiúva é uma das vias mais acessadas para se dirigir ao Centro da cidade, naquela época era diferente. “Passava um carro de hora em hora”, lembra Borges.

Mais do que guardar um pouco do patrimônio histórico da cidade, como a Igreja de São Sebastião e antiga estação elevatória mecânica de esgotos, datada de 1913, a antiga Praia de Fora guarda reminiscências que Borges faz questão de compartilhar. Confira as histórias a seguir:

A PESCA DO CAMARÃO

A prática da pesca do camarão ocupava toda a extensão da orla. Para isso, o pescador usava uma palha de bananeira. Dobrada ao meio, era arrastada para revolver a areia, fazendo saltar o camarão, que era colocado em um vasilhame de vidro de boca larga muito utilizado na época. Adultos e adolescentes se postavam ao longo da praia, numa verdadeira procissão na busca do saltitante camarão.

HORA E VEZ DOS SIRIS

Outra atração para a garotada era a pesca do siri: o guerra azul e o goia infestavam a baía.  Os gererés (redes) eram utilizados para a pesca em locais de maior profundidade. Os arrecifes eram visitados em agosto, época em que os longos recuos das marés deixavam à mostra as tocas mais procuradas.

As tarrafas eram lançadas trazendo cocorocas, peixe-rei, corvina, papa-terra, escrivão, bagres e o indesejado baiacu. Pelo esporte ou necessidade, o alimento era consumido.

Praia de Fora era local de banhos da população. Foto: Reprodução – Flavio Tin/ND

CANIÇO, OUTRA ATRAÇÃO

A pesca de caniço era outra atração e meio de sobrevivência para os moradores. Cada participante procurava fisgar o maior “espécime” e quantidade. Ao final, transferia sua preciosa carga para casa. Quando a maré estava alta, a pescaria se transportava para cima dos muros que limitavam os terrenos-praia. Acomodados os anzóis, eram lançados em busca do bagre marisqueiro.

O parú, peixe de certa nobreza, era caçado, com tarrafa. Seu destacado pescador foi o professor José Martins Neto, cearense de nascimento e residente no bairro. Ao anoitecer, o nortista partia com a tarrafa presa no pulso em busca das pedras do Capim e Biguá. Retornava com a coleção de parús e largo sorriso estampado no rosto.

ESPINHEL

O espinhel foi outra arma dos pescadores da baía norte. Uma linha mestra, com vários anzóis pendurados em sua extensão, catutos (boias) demarcando o local, com pesos adicionais no centro e nas extremidades. Estava lançada a sorte.

Da praia, acompanhava-se o comportamento das boias. Quando o peixe era fisgado, o catuto dava o alarme. Era colocar a canoa no mar e buscar o peixe que balançava no anzol.

Trapiche da praça Esteves Júnior. Foto: Reprodução/Flávio Tin/Acervo Edio Mello 

LANCHAS AO MAR

Alba e Delta era o nome das duas lanchas a motor que singravam às tranquilas águas da baía norte. Higino Gonzaga e Mario Meyer, dirigiam as “voadoras”. Quando expostas na areia, eram cobiçadas por todos.

Vez por outra, era realizado uma corrida, de ida e volta ao balneário de Ponta do Leal, no Estreito. Vitórias alternadas eram comemoradas entre moradores e visitantes.

O FANTASMA DA PRAIA

Inspirado no seriado Fantasma Voador, surgiu uma réplica do personagem vivido na tela do Cine Ritz. Usando máscara, capa esvoaçante e braços cobertos, o falso astro da ilha começou a movimentar aquele pedaço da Praia de Fora, atirando pedras com mensagens ameaçadoras através das janelas das casas. “O fantasma chegou para atacar. Amanhã voltarei. Quem se habilita me perseguir?’’

As visitas do fantasma mané foram se sucedendo e o grupo de jovens acumulava bilhetes com variados tons ameaçadores. Quem seria? O mais evidente dos moradores apresentava-se aos olhos do grupo, personificado através de seu porte físico. Era ele! Um dos garotos foi destacado para visitar a família do possível mascarado, mas a suspeita não se confirmou.  

Era noite quando a turma foi despertada por gritos de socorro, nas proximidades. Não deu tempo para o grupo se preparar e agir. Um vulto, feito relâmpago, passou em velocidade, abrindo espaço entre os garotos em busca do acesso à praia.

Era o mascarado que, com sua capa esvoaçante, tomava o trajeto da praia depois que uma moradora do conjunto habitacional precisou usar o banheiro coletivo, o local de refúgio do mascarado.

A turma havia definido que um “soldado” permaneceria na esquina da Travessa Harmonia, onde o fantasma desaparecia na escuridão da praia. O encontro foi iminente. Acertado por uma pedra, o mascarado caiu na areia da praia e foi desmascarado diante do olhares curiosos de quem chegavam da perseguição.

Conduzido ao Hospital, Virgílio Freitas foi medicado e liberado, terminando aquela aventura que continua na memória dos participantes: Virgílio Freitas, Jair Hammes, Maurity Borges, Carlos Castro, Luiz Santiago, Renê Machado, Leibenitz Cabral,  Pedro Vidal e o cronista.

Mesmo com o episódio desconhecido do público, afirma-se que o codinome de Ilha da Fantasia e Ilha da Magia foram originadas deste acontecimento. A verdade é que aquela inocente aventura poderia ter se transformado em tragédia.

FESTEJOS DE SÃO SEBASTIÃO

O mar também contribuía com os festejos de São Sebastião em janeiro. Dezenas de pequenas embarcações se agrupavam defronte ao largo, hoje transformado em ‘’praça dos namorados’’. O pipocar dos foguetes, amedrontava os passageiros, com a garotada procurando abrigo.

Vista parcial da Praia de Fora, com o Continente ao fundo. Foto: Reprodução/Flavio Tin/Acervo Maury Borges – Flavio Tin/ND

BAR E CAFÉ CRISTAKIS

Funcionou na esquina das ruas Bocaiúva com Esteves Junior, reduto de dirigentes e atletas do Paula Ramos E.C. além de desportistas. Foi ali, em plena praça, com a turma acomodada na mesa do café, que em 15 de dezembro de 1937, nasceu o tricolor, campeão catarinense em 1959, comandado em sua melhor fase mais tarde pelo clã dos Carioni.

Embora alterado em sua fachada, o prédio continua sendo referência histórica, merecedor de tombamento.

AS LAVADEIRAS

Pela manhã dos sábados, as lavadeiras desciam do Morro do Céu para entrega semanal de trouxas de roupas às famílias dos mais abastados. Vinham mostrando brancura (lavadas com sabão Joinville e passadas a ferro de carvão em brasa, com amido (goma).

Um festival diferente, pois os cabides eram os próprios braços das lavadeiras, que desfilavam com os mais variados tipos de roupa, apresentando um branco caprichado, com calças e ternos, vincados.

O ARTESÃO DA BOCAIUVA

Ao final da rua Altamiro Guimarães, pertinho do mar, funcionava em um imóvel de pequeno porte, a sapataria de Waldemar Coelho. Consertava sapatos, bolsas, cintos, chuteiras, bolas de futebol. Ele era a salvação dos clubes de futebol que perdiam as bolas com furos e eram socorridos pela oficina.

Na época, os clubes tinham uma bola e eram responsáveis pela realização dos jogos oficiais (oferecimento da bola do jogo), definido pela Federação. Sem saber, colaborou oficialmente com a história do futebol catarinense.

STÚDIO A2

Ocupou o último imóvel da Travessa Harmonia, junto à praia. Ali se concentrava a equipe de trabalho do colunista Beto Stodieck. Por sua criação e realização, aconteceu em Floripa, a primeira competição entre pandorgas.

Ao final da badalada competição, foram entregues os prêmios, obedecendo critério definido em cronograma. A inovação causou reboliço na cidade, trazendo competidores de toda região da Capital.

O SURFE NA BAÍA NORTE

O surfe daquela época apresentava-se com uma lancha, puxando um atleta que fazia manobras arriscadas. Tinha gente na praia torcendo para que o exibicionista fosse ao mar, obrigando ao condutor dar círculos para salvar o atleta.

Esse modelo de surfe foi apreciado nos anos 50 na Praia de Fora, organizados pelas famílias Mesquita e Lobato, nossas referências.

OUSADIA & MENTIRAS

Filho de Abílio de Oliveira, ‘’Chico Olivera’’, tornou-se conhecido pelas façanhas que contava oriundas de sua fértil imaginação. Tinha percepção aguçada para escolher os locais, onde “disparava” suas mentiras “cabeludas”,  levando aos ouvintes à “dúvida”, se verdadeiras ou não, tal a maneira envolvente de contar os fatos.

Uma delas foi a perda de um relógio quando pescava na baía norte. Semanas depois retornou ao mesmo local e fisgou um peixe de porte médio. Nas entranhas do animal, lá estava o relógio; marcando a hora certa do dia do achado.

O SUPERMERCADO DO SEU VIRGÍLIO

A venda do seu Virgílio era uma espécie de supermercado da época. Num espaço reduzido, eram empilhados sacos de alimentos. Era um espaço democrático, onde ‘’Chico Olivera’’ aproveitava para contar histórias mirabolantes.

Entre os freqüentadores  estava Arnaldo Viana (o Nanado), um ex-jogador do Atlético e Avaí. Foi um reduto onde a cidade era passada a limpo. O rádio trazia à notícia, e no entardecer, famílias se reuniam na areia da praia e ali, jogavam conversa fora, enquanto aguardavam o sol se pôr por trás do morro.

MERGULHO PARA A HISTÓRIA

O salto da asa do trapiche da praça Esteves Junior era praticado pelos mais destemidos. Alguns dos atletas demonstravam coragem e técnica e ganhavam o aplauso.

Destaque para o estudante Alhor Dias. Levava consigo, para o alto da asa, dezenas de apreciadores que buscavam o salto perfeito.

OS CATALINAS DESCIAM AQUI

Vento sul soprando forte, as águas da baía sul revoltas, não permitiam a descida dos aviões Catalinas. A solução passava a ser a baía norte. O atracamento das aeronaves acontecia no trapiche.

Ali, a tripulação da aeronave deixava o avião e os curiosos visitavam a aeronave sem percalços. A gentileza imperava.

LEMBRANÇA DA FÁBRICA

Na rua Bocaiúva, esquina com Rafael Bandeira, funcionou uma fábrica de óleo (nozes). Aos sábados, nos intervalos para o almoço, era comum a prática do jogo de calhas. A rua não tinha calçamento, todos empenhados pela queda do bastão. O prédio de dois andares ainda guarda resquícios daquela época.

CLUBES DE FUTEBOL

A Bocaiúva foi pródiga em formar clubes de futebol. Na várzea, o Palmeiras – vermelho e branco – foi o time mais divulgado, surgindo mais tarde o Bangu (campeão amador) treinado por Waldir Mafra.

O América e o Tamandaré, também deram suas contribuições ao nosso futebol. No profissional, o Trabalhista (vice-campeão em 1924), Paula Ramos e Bocaiúva. A equipe boquense, ficou conhecida como o “moleque travesso” devido aos sucessos surpreendentes. O Paula Ramos foi campeão estadual em 1959 para em seguida desligar-se da FCF.

NO ADRO DA IGREJA

Peladas eram realizadas no Largo São Sebastião, espaço de boa dimensão para a diversão, porém contestada pela intervenção sistemática da polícia, comandada pelo temível Trogilo Mello.

É que a garotada gritava alto e a “nomarada” “comia” solta. A direção do hospital chamava a polícia, pondo em fuga os praticantes e acabando com a diversão de todos. Bloqueados, os garotos tomavam o rumo do interior do hospital, onde se perdiam das vistas dos policiais. Sempre havia quem conduzia a “perseguida”, principal objetivo dos policiais.

BARBEARIA DE SEO ACÁCIO

Com máquina e tesoura na mão, João Acácio da Silveira ia raspando a cabeça da garotada. De conversa pausada, Seo Acácio fazia o local do trabalho a peça frontal de seu imóvel. Ainda conservada pelos herdeiros, resiste à tentação das construtoras. O imóvel é aquele mesmo, situado na esquina da Bocaiuva com Othon Gama Deça. A casa tem muitas histórias pra contar.

CONSULADOS

De hora em hora, passava um carro na rua Bocaiúva. Tranquila, a rua foi escolhida para ser sede de dois consulados. O da Suécia, na esquina da Bocaiúva com Alves de Brito, em prédio habitado pela família de Irma Riggenback e o do Uruguai, distante uns 150 metros do prédio de dois andares.

A bandeira da Suécia vez por outra estava içada, ao sabor do vento, porém desconhecia-se a causa. A do Uruguai exibia o brasão junto ao mastro da bandeira e era poucas vezes hasteada.

VISITA AO POMAR

O pomar da casa, onde residia o Coronel Simões, da Polícia Estadual, frequentemente era visitado por um grupo de jovens moradores das proximidades.

Sapoti, cambucá, jabuticaba, olho de boi, fruta do conde e caju faziam parte do cardápio daquela turma. Ficava ao lado do prédio onde, atualmente, vive parte da família Koerich.

O CICLISMO “DOS SANTOS” E O BUTIÁ

Ao lado do largo São Sebastião, ainda na Bocaiúva, morava a família do senhor João dos Santos, pai de oito filhos. O mais velho, Samuel, campeão de provas realizadas pela FAC, tendo a avenida Mauro Ramos, como principal cenário.

Paulo, seu irmão também praticava o esporte, com sucesso. Rubens, o terceiro filho do casal Santos, também sagrou-se campeão de algumas provas. Claudio e Saul foram igualmente destaques no esporte do pedal.

Uns 50 metros à frente, em direção a Praça Esteves Júnior, funcionava a sorveteria da família dos Garofalis, onde dona Cocota era mestre. O sorvete de butiá era o carro chefe da casa. Quem provou o sabor daquele sorvete de butiá ainda lembra.

Geral