Especial: Jornalista Moacir Pereira estreia no Grupo ND

Comunicador fala da carreira, do jornalismo atual, do novo momento profissional, dos livros, além da experiência de trabalhar em home-office

Com 57 anos de carreira e 52 livros publicados, o jornalista Moacir Pereira é a mais nova contratação do Grupo ND, que contará com o seu talento e competência em diferentes plataformas – no jornal Notícias do Dia (a partir deste fim de semana), na NDTV (onde já estreou) e no portal nd+ (a partir da segunda-feira, dia 6 de julho).

Moacir Pereira estreia nos veículos do Grupo ND – Foto: Anderson Coelho/ND

Formado em direito pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), ele tem mestrado em ciência política, mas sua carreira foi inteiramente dedicada ao jornalismo, do rádio à televisão, passando pelo jornal impresso e pelos canais digitais. Suas colunas e comentários são respeitados, lidos e assistidos por políticos de todas as colorações partidárias, administradores públicos, empresários, trabalhadores e estudantes.

O jornalista já presidiu a ACI (Associação Catarinense de Imprensa), foi o primeiro coordenador do curso de jornalismo da UFSC e recebeu vários prêmios estaduais e nacionais em sua área de atuação. Fez coberturas de missões empresariais, parlamentares, culturais e oficiais na América do Norte, Europa, Ásia, Oriente Médio, Extremo Oriente e Oceania. É membro do IHGSC (Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina) e titular da cadeira nº 3 da ACL (Academia Catarinense de Letras), entidade na qual ocupa atualmente o cargo de vice-presidente. Casado, tem três filhos e quatro netas.

Nesta entrevista, Moacir Pereira fala da carreira, do jornalismo atual, do novo momento profissional, dos livros, leituras e viagens, além da experiência que é trabalhar em home-office por causa da pandemia de coronavírus.

Toda a sua vida foi dedicada ao jornalismo. Como começou esse casamento?

O primeiro despertar foi no Colégio Catarinense, quando tinha de 15 para 16 anos e participava do grêmio cultural da escola, que editava um jornalzinho para distribuir entre os alunos. A facilidade para escrever e a agilidade na datilografia me abriram muitas portas desde a adolescência. De forma mais efetiva, comecei fazendo rádio-escuta na rádio Anita Garibaldi, em 1963, transcrevendo o que emissoras do Rio de Janeiro e São Paulo (Tupi e Nacional) noticiavam para que os apresentadores lessem nos programas de informação ao longo do dia. Depois fui para a rádio Santa Catarina e conheci Salomão Ribas Júnior, que seria um radialista reconhecido e depois entraria para a política, Fenelon Damiani e George Peixoto (o publicitário Picolé), apresentador e programador musical, respectivamente. Já no Diário da Manhã trabalhei com Adolfo Ziguelli, que comandava o célebre programa “Vanguarda”, que fez história no rádio catarinense.

O jornalismo impresso era um caminho natural para quem sabia escrever, mas você encarou outros desafios. Como foi essa fase de sua vida?

Estreei uma coluna no jornal “O Estado”, em 1966, ano em que também entrei no curso de direito da Universidade Federal de Santa Catarina. Na UFSC, conheci figuras importantes como Murilo Pirajá Martins, José Acácio Santana e os reitores Ernani Bayer e Caspar Erich Stemmer. Naqueles anos, estive muito próximo de personagens do porte de Lauro Zimmer, Jair Francisco Hamms, Péricles Prade, Dakir Polidoro e o pintor Hiedy de Assis Corrêa (Hassis). Em 1979, criamos o curso de jornalismo, com Paulo Brito, Cesar Valente e outros pioneiros, com o apoio de Stemmer, que peitou os militares – eles preferiam a área de exatas, não a de humanas. Depois, trabalhei na sucursal do “Correio do Povo” (de Porto Alegre), que publicava o que os jornais locais, muito partidários, preferiam esconder.

O jornalista Moacir Pereira com o colega Cacau Menezes – Foto: Arquivo Pessoal/ND

Daí para a televisão foi um passo natural. Como se deu essa transição?

Quase todos os profissionais da TV Cultura, criada em 1970 por Darci Lopes e um grupo de empreendedores de Florianópolis, vinham da imprensa escrita ou do rádio. Era uma experiência nova para nós. Em 1979, fui para a RBS, enfrentando o desafio de fazer comentários políticos diários no “Jornal do Almoço”. Dali para frente sempre estive ligado ao jornalismo televisivo.

O jornalismo mudou muito de lá para cá. Como conviveu com tantas mudanças?

O jornalismo sofreu uma transformação radical. Antigamente, era um elo forte entre as autoridades e a comunidade. Hoje é preciso dar uma informação diferenciada, ir além dos fatos, comentar as notícias. A responsabilidade é maior. Também recordo da satisfação que era estar numa redação, do companheirismo e até do cheiro do cigarro, porque quase todos fumavam.

As pessoas falam mal da política, e no entanto o jornalismo político atrai todas as atenções e fascina quem se envolve com ele. Como interpreta esse paradoxo?

A política é fundamental na vida de todos, mas o público deve fazer a distinção entre a má atividade dos homens públicos e o jornalismo político. Felizmente, o jornalismo não é mais partidário como já foi, quando cada veículo defendia um grupo político e os próprios profissionais eram partidários. Nosso sistema segue o modelo americano, baseado na autonomia editorial dos jornais.

Como vê o futuro do jornal impresso?

Meu apego ao papel vem de longe. Todos os livros que publiquei tiveram por base pesquisas em bibliotecas, folheando periódicos de diferentes épocas. A atual pandemia de coronavírus está mudando nossa relação com a notícia. O home-office melhorou a vida de todos, e veio para ficar. Com isso, haverá ganhos de tempo e menos engarrafamentos. O público não exige mais tanto a nossa presença física no ar, mas uma informação de qualidade. Se, por um lado, todos ficaremos mais pobres após a pandemia, trabalhar em casa passará a ser uma rotina aceita por todos. O impresso é o pergaminho dos nossos dias, e vai permanecer.

Moacir entrevistando o artista plástico catarinense Juarez Machado – Foto: Arquivo Pessoal/ND

Você tem 52 livros escritos, incluindo muitas biografias. Escreveu sobre personalidades como Ivo Silveira, Vilson Kleinübing, Pedro Ivo Campos, Victor Fontana, Colombo Salles, Jorge Lacerda, Aderbal Ramos da Silva, Adolfo Ziguelli e Dakir Polidoro. Como encontra tempo para manter suas atividades profissionais e publicar tantas obras?

Não sou tão organizado, mas tenho muitas anotações guardadas. O tempo é inexorável e deve ser bem aproveitado. Fiz todos os meus livros sob pressão. Devo dizer que eles não são propriamente biográficos, mas testemunhos jornalísticos sobre as pessoas. Escrever é um exercício gratificante, e publicar livros ainda mais, porque eles são a história contada. Além disso, precisamos dar uma retribuição à sociedade.

Quais foram suas referências no jornalismo político? E, hoje, o que você lê? Tem preferência por algum gênero específico?

Carlos Castello Branco, Villas-Boas Corrêa e Carlos Chagas foram minhas principais leituras, falando de jornalismo político. Atualmente, leio mais sobre história, biografias e literatura. Também gosto de assistir filmes e musicais em casa. Nas viagens que faço, costumo visitar livrarias e lojas de discos.

Já pensou em escrever livros de ficção?

Tenho essa vontade, mas não me atreveria a escrever um romance. No máximo, crônicas e contos. A região onde moro (Canto dos Araçás, na Lagoa da Conceição) tem muitas histórias e uma energia muito boa que inspira.

Que novas obras está escrevendo neste momento?

Estou preparando um livro sobre Norberto Ungaretti (1936-2014), que foi um renomado professor, advogado, jurista e historiador catarinense, e tenho nos planos obras sobre Mário Petrelli, Lauro Zimmer e o cartunista Bonson.

Está lidando bem com o isolamento social?

Estou há quatro meses preso. Quando saí da NSC, cogitei parar de trabalhar no dia a dia, me dedicar apenas aos livros, mas aí veio o apelo dos amigos… Além disso, o jornalismo é uma atividade muito envolvente. Estou nesta casa há 21 anos e vejo crescer as árvores que plantei. Aqui aparecem gralhas azuis, tucanos e macacos. Agora, mais isolado, aprendi a valorizar ainda mais o lugar, o tempo, a saúde, a família e os amigos.

Moacir Pereira é o novo contratado do Grupo ND – Foto: Anderson Coelho/ND

Como encara essa nova fase em sua vida de jornalista?

Acreditei no projeto do Grupo ND, que está contando a história do Estado por meio de seus veículos. Um estímulo a mais é que o ND é muito focado em Santa Catarina. Vou falar de política e de outros assuntos, com um enfoque, uma agenda positiva, mostrando os nossos diferenciais e valorizando também a memória, a cultura e personagens relevantes. Ou seja, vou fazer o que gosto.

Você viaja bastante e conhece muitos países. Isso é uma prioridade em sua vida?

As viagens permitem o enriquecimento pessoal, e cada uma delas é uma experiência diferente e especial – porque cada lugar tem sua própria história. Uma das grandes viagens que fiz foi para a Terra Santa, que me permitiu escrever um livro sobre Santa Catarina de Alexandria, padroeira do nosso Estado. Tenho o hábito de pesquisar muito sobre o local que vou visitar. Também costumo trazer objetos característicos de cada cidade – assim, quando estou lendo, por exemplo, volto a esses locais vendo as peças expostas na minha sala ou escritório. Agora, com a pandemia, foi cancelado um cruzeiro que iria do Chile aos Estados Unidos, pela costa do Pacífico.

Como vê o atual momento do país?

Vejo com tristeza essa divisão provocada pela pandemia. Isso se transformou num palanque eleitoral, opondo governadores ao executivo federal. É uma situação grave, e a sociedade não reage, parece estar anestesiada pela pandemia. Falta união para salvar vidas. Aliás, o povo se uniu, mas os políticos não. Bolsonaro não se atentou para a liturgia do cargo, mas vem fazendo coisas boas que são sufocadas porque falta comunicação ao seu governo.

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