Esperas emaranhadas

Tua pele parece que foi tricotada, assim, durante o tempo demorado das manhãs de domingo, por agulhas perfeitas. Vejo que os fios, entrelaçados em plenitude, formam uma malha uníssona com teus afetos, ternuras e harmonias que repousam silentes sob a derme irrigada de lã. Da cabeça aos pés, teu tecido fronteira o horizonte do mundo desalinhado lá fora. É teu invento particular de proteção, escudo urdido na fiação de muitos invernos ou mesmo no tear de frágeis dias de verão. 

Ainda na nudez estás vestida de tua própria trama. Rósea, férrea, crispada nos cantos mais vulneráveis. Eis aí um privilégio, quase uma dádiva de quem te teceu dos novelos mais raros, das linhas mais nobres, das fibras mais resistentes. Vives assim inteira, mas sempre a se fiar de amplitudes, fazendo e desfazendo o tempo como se esse fosse uma estopa qualquer que pode ser descartada para apodrecer num canto úmido, após serventia na limpeza das mãos e retirada da fuligem do rosto. E talvez o tempo seja isso mesmo, nada mais que um pano que poucos sabem usar. 

Observo tua coragem como um menino venera o herói. Mas os heróis são feitos de artificialidades e distâncias que me cansam. Couraças, capas e espadas. Elmos, broquéis e estigmas. São coisas que tornam o homem um erro, um alvo, um fraco. Tua aparente fragilidade, no entanto, é apenas um tipo de timidez que camufla o ardil de tuas forças. Na contraluz, tua pele se mostra como uma intrespassável armadura, metalizando habilmente as armadilhas escondidas no enleio da carne. Esse foi um dos segredos que descobri, mas sei também que tuas amarras são imprevisíveis. 

Eu vi quando te feriram. Cortaram os flancos de tuas urdiduras bem cuidadas. A lâmina estúpida interrompeu o fluxo de teus gumes dentro das veias, fazendo o sangue desfiar sem reverência até se emaranhar no chão. O corte foi suturado com a precisão de quem vive costurando abismos, mas o rasgo na pele, mesmo reparado, nunca deixará de revelar a cicatriz – espécie de memorial da dor. Quem dera houvesse como desfazer a trama até o ponto de ruptura e retomar a fiada sem emendas, sem nós nem rugas. Mas mal temos tempo de aproveitar os retalhos que sobram dos dias. 

Tu tens essa ousadia, porque teu nome é Penélope. De tecer e destecer os lençóis que revestem teu próprio corpo. De ter a cura e o enigma em tuas próprias mãos. De tramar o lenço para enxugar as próprias lágrimas. Tens ainda outra coragem, que é essa de não esconder os cortes, que foram todas as vezes que lutastes contra ti mesmo. E vencestes. Teu nome é Penélope – foi outro segredo que descobri. Porque demoras, te pretendo. Enquanto teces, sou espera.

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