Estátua homenageia jacaré Zenóbia, conhecida pelos moradores da praia da Daniela, em Florianópolis

A pedalada de três amigas tinha ponto final definido: a dispersão ocorreria em frente à praça do Jacaré, no cruzamento entre as ruas Papoula e Jacarandá, na praia da Daniela (Norte da Ilha). Bicicletas encostadas, Maria Helena Valente, 73, Maria de Lourdes Alves, 54, e Kátia Maria Vieira, 54, abraçaram-se em frente ao novo ponto turístico do local, sacaram os celulares e fotografaram. Era o primeiro registro das três amigas com a estátua que imortaliza o jacaré Zenóbia, ilustre moradora da Daniela, que morreu em novembro do ano passado. Para elas, é mais que uma imagem. “É a lembrança de que somos nós que abrigamos o lugar que era dos jacarés, e não o contrário. Precisamos dar algo em troca”, resumiu Maria de Lourdes.

Eduardo Valente/ND

Maria de Lurdes, Maria Helena e Kátia foram conhecer a estátua

O “algo em troca” é muita coisa. Para elas, significa proteger os outros jacarés que abrigam o mangue que corta o bairro, a praia, o meio ambiente como um todo. “Isso motiva as pessoas a cuidar”, opinou Kátia. Para Maria Helena, o importante agora é fazer também com que as pessoas preservem a praça, que conta com a estátua, um novo mapa do bairro e uma quadra esportiva.

Zenóbia ficou imortalizada em um lugar que já lembrava ela. É ali, em frente à praça, que o Bloco do Papo Amarelo se reúne todo Carnaval. Os festeiros já não precisam mais levar qualquer referência ao jacaré, agora que a simpática estátua, como percebem os moradores, ocupa seu espaço.  

O Conselho Comunitário da Praia da Daniela contou que foi uma longa luta para vencer entraves burocráticos, escolha do local, aprovação dos órgãos públicos, elaborar o projeto e encontrar o artista que tivesse a técnica para construí-la. “Era para ter sido feita mais no começo do bairro, mas as pessoas comentaram que poderia causar problemas no trânsito, porque era logo depois de uma curva. Então mudaram de lugar”, contou Maria Helena. A finalização do monumento ocorreu na última terça-feira, pelo artista Leomar Anacleto. O trabalho foi totalmente artesanal.

A história de Zenóbia

Maria de Lourdes Alves tem razão ao afirmar que foram os humanos que abrigaram o local em que vivam os animais. O bairro foi construído em parte sobre gleba do manguezal da Estação Ecológica de Carijós. Zenóbia vivia perto da quadra seis da rua das Pitangueiras, em um lago cercado da pouca vegetação nativa que sobrou na área habitada do balneário, nas proximidades do Posto Avançado das Saracuras. Ali era alimentada pela vizinhança e visitantes.

O jacaré de quase dois metros de comprimento foi encontrado por uma moradora do bairro, em novembro do ano passado, morto em um das lagoas interligadas ao manguezal. Zenóbia foi levada para o local em novembro de 1997 e logo fez ninho. Em março de 1998, nasceram 15 filhotes. Em 2002, já crescidos, dez dos filhotes foram realocados no manguezal de Carijós. Zenóbia e os cinco filhotes restantes resolveram seguir os demais. Algum tempo depois, a mascote da Daniela retornou ao refúgio, onde morou nos últimos meses acompanhada de um jacaré juvenil. A morte, segundo especialistas, foi por causas naturais.

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