Eu presidente

Um dos temas mais debatidos nos corredores da Assembleia, nos botecos de esquina e nas feirinhas de rua é a ausência de uma figura impoluta que possa assumir o comando da nação em 2019 e tirar o Brasil do atoleiro em que o meteram sucessivos governos, com a contribuição de parlamentares, homens do Judiciário e cartolas do futebol. De fato, não há um líder confiável, um sujeito digno dos bons brasileiros, um Policarpo Quaresma nacionalista e apaixonado pelas coisas do país. Os filhos dos velhos políticos de carteirinha vêm se mostrando piores que os progenitores – supremo perigo!

Diante desse cenário, pensei em me filiar a algum partido e pleitear a indicação ao cargo, nem que seja na eleição presidencial de 2022. Nascido no mato, começaria, se eleito, por defender a volta do pilão como único instrumento para descascar grãos e moer café, baseado no argumento de que esse mecanismo não traz os riscos embutidos nos processos industriais de transformação dos alimentos.

Por decreto, traria de volta também o arado, a carroça puxada a bois, a água do poço, o pão com melado, a polenta e queijo, os moinhos movidos a roda d’água, a mula como meio de transporte em todo o interior. Isso reduziria a poluição, a emissão de gases tóxicos, os desmatamentos para a construção de hidrelétricas, o consumo de fast food, a fabricação de mortadela e a sobrecarga de sódio na ração urbana. E resgataria, certamente, as boas relações humanas, o bom-dia entre vizinhos, o afeto que se perdeu no contato interpessoal, mesmo nas cidades com apenas uma rua que brotaram com a febre das emancipações.

Por medida provisória, como comandante absoluto dos destinos da pátria, decretaria que a música oficial do Brasil é o caipira de Jararaca e Ratinho, Alvarenga e Ranchinho, Tonico e Tinoco, Pedro Bento e Zé da Estrada. As rádios tocariam composições de João Pacífico, Teddy Vieira, Raul Torres, Dino Franco, Tião Carreiro, José Fortuna, Luiz Gonzaga, Patativa do Assaré e Catulo da Paixão Cearense.

Nos fins de semana, também por força de lei, os passatempos seriam a pescaria em rios e açudes, os torneios de dominó e canastra, os jogos de bocha, as matinês e domingueiras, as disputas de truco e mora, as festas de igreja nas linhas e tifas interioranas.

Com tal plataforma, creio ter razoáveis chances de sucesso. Na pior das hipóteses, ganharia a simpatia dos velhuscos que cantam a “Saudade do matão”, renegam o funk no Carnaval (e fora dele) e, de quebra, esnobam do WhatsApp em favor do radinho de pilha…

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