Eu voto sim,

Pela luz profunda da noite adentro. O breu que atravessa a vidraça e respinga na parede descascada e triste. A escuridão que cachoeira lágrimas sorvidas por soluços e murmúrios anônimos, diante de um retrato, ou um bilhete, ou um peça de roupa esquecida sobre a mesa. É preciso amar as despedidas. É preciso sofrer por amor. É preciso esquecer que o sofrimento é a parte ruim, porque é essa a única parte que vamos lembrar depois que a noite for vencida pelo triunfo da manhã. 

Pelas gaivotas que andam pela orla da praia. Aves destemidas que ignoram nossa presença. Estão ali para saciar a fome. O alimento escondido na areia úmida, entre pedras molhadas, no intervalo entre uma onda e outra. Um olho no peixe afogado na praia, outro num atrevido qualquer que se julga superior só porque tem braços para levantar. As gaivotas podem voar. Esse é um mistério não dado aos homens. É preciso respeitar as asas alheias. São elas que nos resgatarão quando estivermos mortos. Igual àquele peixe, olha lá. 

Pelos teus cabelos iluminados. Um amarelo que se desdobra em cores, tocando teus ombros sublimes. O vento gosta de brincar entre teus fios trançados de leveza e púrpura, se demorando ao redor do pescoço como uma criança ao mesmo tempo insegura e atrevida. Tem dias que faz tempestades. Tem dias que faz calmaria. Mas há sempre uma aragem nova nas vizinhanças de tua pele. É bom poder te contemplar assim, descompromissadamente, sem pressa. É preciso demorar os olhos nas coisas amarelas que arejam a parte de dentro da alma. 

Pelas ferrovias abandonadas. Dormentes esquecidos entre pedras mortas e árvores caídas. Trilhos enferrujados, rotas bloqueadas, travessias interrompidas. Pelos vagões órfãos de locomotivas, carentes de distâncias, na abstinência do movimento. Há pedaços de passado perdidos nas estações mofadas. Há lembranças esperando o próximo trem da memória. Há bagagens que nunca foram abertas. Amores nunca desembrulhados. A história guarda os carris que serão nossas pontes no futuro. É preciso olhar para trás para ver o horizonte pelo lado de dentro da montanha. 

Pela palavra-ato. O verbo-ação. O dizer-fazer. A materialidade da intenção. Pelo exemplo vivo, a corda-bamba, a cara à tapa, a mão à palmatória, o que der e vier. Mais ousadia, menos terapia. Muito menos ainda, liturgia. Mais josés e mais marias, as coisas simples que vivem da simplicidade dos dias. Não adianta tantos caminhos sem a decisão do passo. O passo é o pensamento na poeira do chão. É preciso que nossas roupas sujas não sejam sujadas em vão. Que o fato não vire versão. E que o avesso da palavra não seja aberração.

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