Ex-moradores de rua produzem alimentos orgânicos na Casa dos Amigos, em Antônio Carlos

Casal que viveu nas ruas de Florianópolis alugou casarão e chamou conhecidos que, juntos, superaram a tragédia e recuperaram a dignidade

Era noite dura de inverno, noite amarga. O gelado doía, não podiam controlar os tremores dos próprios corpos, pobres corpos. Foram recolhidos ao amanhecer no Largo da Alfândega, em Florianópolis. A equipe da Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) os encontrou abraçados, dois homens com muito frio.

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Daniel dos Santos (de camiseta branca), com alguns dos amigos que moram e trabalham no casarão – Marco Santiago/ND

Eram amigos de Daniel Paz dos Santos, 47 anos, que morou ao lado deles, no chão hostil da Alfândega, por dez anos, até 2012. Para não ter a mesma vala como destino, ele decidiu mudar os rumos da vida.

Decisão difícil, a de largar os vícios e recomeçar sem nenhum bem material. Ao seu lado, Marisa de Fátima Lucrécia de Jesus, 39, sua companheira, que viveu 22 anos na rua, enfrentou as mesmas batalhas.

Por mais incomum que seja em tempos de desassossego, eles superaram a própria tragédia. Venceram. Moram há 14 meses em uma casa no município de Antônio Carlos e ajudam outras pessoas a reescreverem suas histórias.

O casal, generosamente, convidou os amigos em situação de rua para dividirem o mesmo teto. É o recomeço para 11 pessoas, todas com mais de 50 anos. A regra básica é não usar drogas, nem álcool. No mais, são todos livres para ir e vir.

A renda é garantida pela venda dos produtos plantados e colhidos ali, naquela terra preta e fértil. Alimentos cultivados sem qualquer veneno, adubados com o húmus do minhocário, que fica no fundo do pátio, e do esterco das galinhas poedeiras. “Na rua aprendemos a nos proteger, a cuidar um do outro. As pessoas que estão aqui são a minha família”, diz Santos.

A Casa dos Amigos, como ficou conhecida, produz 13 alimentos orgânicos. São comercializados na Feira da Economia Solidária, organizada quinzenalmente em frente ao Ticen, no Centro da Capital.

Da terra, saem couve, alface, morango…

O casarão é amplo, tem sala, cozinha, lavanderia, varanda e cinco quartos. O do casal, o das mulheres e três quartos masculinos compartilhados. Todos têm suas camas, cobertas, guarda-roupas, objetos pessoais. Tem dignidade.

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Raquel cuida do almço, preparado com fartura no fogão a lenha, instalado na área externa da casa – Marco Santiago/ND

Raquel Borba é quem cuida do almoço, refeição comunitária cozida no fogão à lenha, posto na área externa da casa para fumegar à vontade. Ao seu redor, forma-se uma roda de bate-papo, que torna o ritual mais gostoso. O cardápio é farto. No feriado de Nossa Senhora Aparecida fritou carne, fez polenta e um encorpado molho, refeição apreciada com as verduras frescas da horta – outro lugar de trabalho e comunhão.

De manhã eles se reúnem para 45 minutos da chamada horta-terapia. O vizinho, que é engenheiro agrônomo, dá dicas de como cultivar a terra, que boa, oferta couve, alface crespa, salsinha, cebolinha, rabanete, agrião, pimenta, alho-poró, berinjela, moranguinho, rúcula, abobrinha e milho.

Joaquim Alves de Abreu e José da Costa dominam as técnicas de compostagem e orientam sobre os processos de cada uma das três fases. Pronto, o adubo também é vendido na feira a R$ 15 cada saco de dez quilos.

Naquele cantinho de paraíso, essas pessoas plantam e renascem ao mesmo tempo. Recuperam a dignidade, o direito de viver e o de sonhar.

Passados violentos, presente vitorioso

Daniel Paz dos Santos e Marisa de Fátima Lucrécia de Jesus têm vivências semelhantes. Vítimas da violência doméstica, eles conheceram a rua quando eram crianças.

Marisa é manezinha e se diz “cria do abrigo Santa Rita de Cássia”, que ficava na Agronômica. Para lá, ia quando o irmão a mandava despir a roupa e a espancava. Começou quando ela tinha sete anos e nunca parou. Quando não era acolhida na instituição, dormia pelas praças e calçadas na companhia de crianças como ela, sem cuidados ou apoio familiar.

Quando tinha 12 anos experimentou cola de sapateiro, oferecida por moleques da rua. Gostou, foi para os solventes de tinta, até drogas pesadas como crack. Na rua teve quatro filhos, levados pelo Conselho Tutelar e adotados. Sonha em reencontrá-los e pedir perdão.

Santos, quando tinha oito anos, viu o pai alcoólatra cortar a garganta da mãe com um facão. Assustado, fugiu. A mãe não morreu, mas foi hospitalizada. Ele foi viver nas ruas de Torres (RS).

Voltou para casa várias vezes, sem suportar por muitos dias a violência doméstica constante e repetitiva. Aos 18 anos foi servir ao Exército e aos 20, quando saiu, começou a beber, vício que o escravizou por duas décadas – sendo que a última, viveu como morador de rua.

Da Casa de Acolhimento para o casarão em Antônio Carlos

 O casal está junto há sete anos, quando se conheceu na Alfândega. Quando decidiram largar as drogas, em 2012, Daniel Paz dos Santos e Marisa de Fátima Lucrécia de Jesus foram viver na Casa da Acolhimento, que era mantida pelo Instituto Padre Vilson Groh. Começaram a trabalhar e juntaram dinheiro. Quantia que foi empregada para pagar os primeiros aluguéis do casarão em Antônio Carlos.

Eles vivem um dia de cada vez e usam a força de trabalho e a criatividade para manter as contas em dia. Marisa, orgulhosa, conta que se sente reinserida na sociedade. “Eu faço faxina no Sinjusc [Sindicato dos Trabalhadores do Poder Judiciário de Santa Catarina] e para outras três clientes. Me sinto vitoriosa por essas conquistas, tenho como sobreviver, sou recebida na casa das pessoas, não me imagino vivendo como antes, nunca mais quero viver nas ruas”, diz.

Ela também faz sabão, colares e doce de banana para vender. No tempo livre gosta de cuidar da horta medicinal, dos animais que adotou, os cães vira-latas Dorinha, Susi e Jack, a poodle Luna e os gatos Didi e Dedé e de trocar chamegos com seu amado Daniel.

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