Ex-prefeito de São José comemora centenário com memória viva de histórias

João Adalgísio Philippi, prefeito de São José entre 1961 e 1966, completa 100 anos de idade na véspera de Natal

Retratos de um centenário – Foto: Anderson Coelho/ND

A história de uma vida está na memória de quem a carrega e nem sempre mantê-la viva é tarefa fácil, especialmente quando se trata de alguém às portas do centenário. No caso de João Adalgísio Philippi – que comemora 100 anos na véspera de Natal – as lembranças estão vivas, como se tivessem acontecido logo ali, na década passada.

Prefeito de São José entre 1961 e 1966, seu Adalgísio, como é chamado na cidade, lembra muito bem das dificuldades que enfrentou naqueles anos em que foi o administrador de um município muito maior do que o atual.

“São José era Rancho Queimado, Angelina e São Pedro de Alcântara. Era muito difícil o acesso, as estradas eram ruins e só passava aranha”. Aranha, ou charrete, era o veículo puxado por um cavalo, geralmente com dois lugares.

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O filho de seu Adalgísio, o engenheiro civil aposentado Luiz Fernando, complementa a fala do pai: “Veja que o problema de mobilidade aqui na região não é de hoje. Naquele tempo era a falta de veículos, hoje é o excesso”, compara.

O comentário faz o ex-prefeito recordar de uma situação, hoje engraçada, mas meio constrangedora para uma autoridade. “O único telefone que tinha em São José, ficava longe, lá na Praia Comprida. Dependendo de quem estava na linha para falar comigo, eu saía correndo daqui [do Centro Histórico] até lá para atender”, relata, sem conter o riso. “Eu tinha as pernas boas”, argumenta.

A prefeitura não possuía veículos. Quando o prefeito Adalgísio precisava ir até o interior de São José utilizava o jipe do sogro, Mário Roberto Bott. Em cada localidade havia um intendente que era o elo entre a sede do município e o distrito. “Sem eles não dava para trabalhar. Era tudo muito longe”, reconhece o ex-prefeito.

No período do mandato de seu Adalgísio, a prefeitura de São José contava com poucos funcionários. Secretário mesmo havia apenas um, nada parecido com a realidade atual.

Dia da posse como prefeito de São José em 1961 – Foto: Reprodução/Anderson Coelho/ND

Do fórum à prefeitura

Nascido em Ituporanga, que em 1919 pertencia a Bom Retiro, seu Adalgísio mudou-se para São José no começo da década de 1940 para exercer o cargo de “escrivão do crime” – cuja função era escrever as decisões ditadas pelo juiz.

“O juiz era o doutor Mario Rocha. Ele ia falando e eu ia escrevendo. No começo foi difícil porque eu ainda tinha pouco estudo”, lembra.

Como escrivão do crime, ele trabalhou entre 1941 e 1956. Depois, nomeado escrivão eleitoral começou a pensar em política. “Andava por toda São José fazendo títulos de eleitor e depois em campanha”, recorda.

Em 1961 foi eleito prefeito de São José pelo partido UDN (União Democrática Nacional) e voltou a trabalhar no prédio onde antes exerceu o cargo de escrivão do crime e hoje é a Casa da Cultura Municipal. Esse prédio abrigou a Casa de Câmara e Cadeia.

Após a experiência no Executivo, Adalgísio se elegeu vereador e atuou entre 1967 e 1970 também pela UDN.

De 1983 a 1988, Adalgísio foi secretário de Finanças da prefeitura de São José, sendo esse seu último cargo político. Antes disso, atuou como contabilista e posteriormente diretor da Maternidade Carmela Dutra, na Capital, e agente local do Ipesc – atual Iprev (Instituto de Previdência do Estado de Santa Catarina) até 1982, quando se aposentou aos 63 anos de idade.

João Adalgísio Philippi nasceu em Ituporanga, na época pertencente a Bom Retiro – Foto: Anderson Coelho/ND

Vida na roça

Entre as aventuras nesses 100 anos de vida, seu Adalgísio afirma que a mais inesquecível foi a vida que teve no interior de Ituporanga com a família. Era um tempo difícil, de trabalho na roça sol a sol e que ele lembra com respeito e gratidão.

Das histórias vividas no sítio, ele recorda de quando conheceu as primeiras letras. “O padre Gabriel montou um grupo escolar e a gente foi estudar”, conta. Ele e os sete irmãos trabalhavam junto com os pais na roça de mandioca.

Diferenças políticas

Sobre o tempo que foi prefeito de São José o seu Adalgísio resume: “Era tudo muito difícil”. Além da dificuldade de deslocamento pelo município, o dinheiro era muito curto para a quantidade de problemas à espera de solução e tinha as diferenças políticas com o governador Celso Ramos.

“Eu era da UDN e ele do PSD, então nada do que eu pedia era atendido e ele fazia de tudo para atrapalhar”, conta o ex-prefeito. Ramos governou Santa Catarina de 1961 a 1967, período em que Adalgísio ocupou a prefeitura. O ex-governador faleceu em 1996 aos 98 anos.

Em 1967, a Câmara de Vereadores de São José concedeu à João Adalgísio Philippi o título de Cidadão Josefense e em outubro passado o ex-prefeito recebeu homenagens na Câmara pelo ano de seu centenário.

Na rotina de seu Adalgísio, o rádio está sempre presente – Foto: Anderson Coelho/ND

Mais tempo

Seu Adalgísio comemora os 100 anos de vida no dia 24, véspera de Natal. Na casa onde mora há mais de 60 anos, no Centro de São José, estará reunido com toda a família. Nesse centenário ele quer mais um tempo para curtir os netos e bisnetos. “Gosto demais deles e ainda quero ir na formatura”, diz.

Para se manter ativo, o centenário senhor faz sessões de fisioterapias, lê jornal, ouve rádio, conversa e não deixa a mente parada no passado. Com sua sabedoria secular, pode afirmar que o importante é viver o hoje.

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