Façamos política de verdade

Antonio Gavazzoni

Secretário de Estado da Fazenda

contatogavazzoni@gmail.com

Divulgação/ND

80% dos brasileiros não têm preferência por algum partido político. O dado é do Latinobarómetro, um instituto de opinião pública que aplica anualmente cerca de 20 mil entrevistas em 18 países da América Latina. O número é expressivo e traduz nosso descrédito no modelo que aí está.

A mesma pesquisa mostra que 69,2% dos brasileiros não estão satisfeitos com o funcionamento da democracia. 34% acreditam, inclusive, que o país poderia funcionar sem o Congresso Nacional, e 22,6% defendem que não deveria haver eleições – especialistas deveriam governar.

No livro “Em busca da política”, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman destaca duas razões para tamanha perda de legitimidade que atinge a política. A primeira é que, no mundo ocidental, as pessoas creem que a questão da liberdade está resolvida; não é preciso ir para as ruas clamar por uma liberdade maior que a que temos hoje. A segunda é o conformismo. Temos a percepção de que pouco podemos mudar e que devemos nos contentar com as coisas como são.

O ponto central do livro é que “a liberdade individual só pode ser produto do trabalho coletivo, só pode ser assegurada e garantida coletivamente”. Nessa linha de raciocínio, a sociedade deveria ser pautada pelos problemas individuais de seus cidadãos e os movimentos sociais deveriam estar comprometidos com as necessidades das pessoas.

Precisamos recriar as instituições políticas,construir novos significados à nossa vida em sociedade e vencer o complexo de Tiririca – aquele que diz que pior não fica. Fica sim. Sempre pode piorar quando nos conformamos.
Na teoria, a política existe para legitimar os interesses dos eleitores e derrubar os limites às suas liberdades; na prática não é o que acontece. Em âmbito federal temos 513 parlamentares, e é preciso apoio da maioria para aprovar projetos e conseguir governar de fato. Com quase 30 partidos políticos disputando poder, não tem como dar certo. A maioria não luta por projetos, mas sim por manter-se no cargo.

A sociedade está começando a dar mostras mais concretas de que o que está aí não pode continuar. A atual crise que atravessa o país é de cunho primordialmente político, mas atinge a vida de cada um na medida em que afeta a economia. Precisamos agir para que os assuntos de Estado sejam dirigidos corretamente. Isso se faz quando exigimos transparência; quando questionamos com base em argumentos, não em paixões. É preciso iniciar uma nova era na política. Cada um pode fazer sua parte.

Loading...