Falta de estrutura afeta mobilidade urbana saudável e bem estar de moradores da Capital

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Ausência de ciclovia e carro na calçada dificulta a vida de quem pedala na Costeira. Foto: Flavio Tin/ND

A mobilidade urbana de Florianópolis é afetada de forma negativa devido à falta de estrutura para deslocamento de pessoas a pé ou em bicicletas. Essa é uma das conclusões de uma pesquisa de Mobilidade Urbana Saudável realizada pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) em conjunto com outras três universidades de outras três cidades abordadas: Oxford, na Inglaterra, e Porto Alegre (RS) e Brasília (DF), no Brasil.

Em Florianópolis, o trabalho foi realizado em três bairros equidistantes da área central: Costeira do Pirajubaé (Sul), Saco Grande (Norte) e Jardim Atlântico (Continente). Nos três bairros, os moradores relataram problemas diários em relação à mobilidade, tanto para chegarem ao Centro da cidade, como para fazer o deslocamento no próprio bairro para acesso às áreas de lazer.

“Os três bairros de Florianópolis foi onde constatamos que as pessoas menos caminham ou andam de bicicleta entre os 11 bairros pesquisados”, afirma a professora do departamento de Saúde da UFSC, Eleonora d’Orsi, que coordenou a coleta de dados da pesquisa em Florianópolis.

Estrutura para ciclistas inexiste na Costeira do Pirajubaé. Foto: Flavio Tin/ND

A pesquisa teve foco no modal passivo, ou seja, nas formas de deslocamento que exigem algum tipo de atividade física, como a caminhada e a bicicleta, para entender o impacto que a mobilidade urbana tem na saúde e no bem estar da população. “As pessoas nos disseram que gostariam de caminhar e pedalar mais, mas não conseguem, e muito devido à falta de segurança no bairro em relação ao trânsito”, explica.

A Costeira do Pirajubaé é um exemplo gritante dos problemas de estrutura e da falta de segurança alardeadas pelos moradores consultados pela pesquisa. Para acessarem a área de lazer extensa dotada de pista de caminhada e ciclovia, eles precisam atravessar uma rodovia (trecho da SC-401, conhecida como Via Expressa Sul). “Tem sinaleira que não dá tempo suficiente para o morador chegar ao outro lado em segurança”, ressalta d’Orsi.

No bairro Jardim Atlântico, na área continental, uma das dificuldades relatadas é a presença de carros estacionados sobre as calçadas. Já no Saco Grande, a falta de segurança proporcionada pelo fluxo intenso de veículos na SC-401 influencia na decisão das pessoas em não caminhar ou utilizar a bicicleta para fazer o deslocamento. “Encontramos moradores que não saem de casa nunca por conta dessas dificuldades”, afirma.

A pesquisa também captou variadas nuances, algumas muito sutis. Ao ser questionada, uma moradora disse que, para ela, mobilidade saudável era ficar dentro do carro, protegida. “Ou seja, o ambiente externo está tão desfavorável que ela se sente mais tranquila, sozinha, dentro do automóvel, que acaba desistindo das outras formas de deslocamento, mais saudáveis”, enfatiza.

Trânsito intenso e calçadas esburacadas representam problemas de segurança no Saco Grande. Foto: Flavio Tin/ND

Do ponto de vista da saúde pública, os dados de mobilidade urbana também servem de alerta, segundo D’orsi, pois doenças como hipertensão, diabetes e obesidade estão relacionadas com a forma de viver das cidades.

“Significa que as pessoas realizam pouca atividade física, com menos de 150 minutos por semana, que equivale a menos de 30 minutos por dia”, conclui d’Orsi, para evidenciar a necessidade de melhorias na malha urbana dos bairros para estimular os moradores a desenvolver uma mobilidade urbana saudável.

Calçadas chamam atenção

Durante a pesquisa, os moradores dos bairros relataram percepções sobre os bairros, entre outras informações como atitudes para caminhar e pedalar, comportamento de viagem, qualidade de vida; atividade física, saúde e hábitos de vida.

Uma amostra aleatória de endereços foi selecionada para cada bairro e uma equipe de entrevistadores realizou entrevistas de porta em porta, em diferentes momentos do dia, em pelo menos três ocasiões diferentes.

O objetivo era obter uma amostra de 400 entrevistados em cada bairro, para totalizar 1,2 mil em cada cidade. Este número foi quase alcançado em Florianópolis, com 1.084, assim como nas outras duas cidades brasileiras pesquisadas (Porto Alegre e Brasília), que também tiveram três bairros pesquisados. Em Oxford, na Inglaterra, apenas dois bairros foram pesquisados

Além do tradicional inquérito, a pesquisa utilizou outros métodos, como seguir pessoas caminhando ou pedalando pelos bairros. “Filmamos o trajeto e convidamos eles a dizer o que sentiam, o que achavam de mais agradável, o que deixavam eles ansiosos, o que valorizavam no trajeto, entre outras situações”, relata d’Orsi.

A situação das calçadas chamou atenção dos pesquisadores diante das queixas dos moradores nos três bairros pesquisados. Esburacadas, má utilizadas ou inexistentes, elas se tornam um fator complicador, uma vez que as pessoas têm sido bombardeadas diariamente com recomendação de realizar atividade física.

“Quando tentam caminhar, por exemplo, se deparam com algum tipo de situação, como a má iluminação, a presença do automóvel e a insegurança devido a buracos que podem provocar algum tipo de acidente”, explica d’Orsi.

Uma solução para o problema seria a transferência da responsabilidade de construção da calçada do morador para o Poder Público, já que se trata de um bem de uso coletivo e não apenas individual. “Já existe no Plano de Mobilidade Urbana essa possibilidade.

Isso seria um avanço enorme, pois teríamos calçadas padronizadas”, completa a pesquisadora, que já enxerga melhorias na cidade, com a criação de faixas exclusivas para pedestres em detrimento a faixas para carros .

A PERCEPÇÃO DOS MORADORES

COSTEIRA DO PIRAJUBAÉ

Os moradores enfatizaram as más condições das calçadas, agravadas por quem estaciona sobre elas. Embora a área possua uma ciclovia, é preciso atravessar a rodovia principal (VIA Expressa Sul) para acessá-la e os moradores se sentem inseguros, mesmo havendo uma passarela para a travessia.

Eles demonstraram pouca preocupação com a segurança pessoal, apesar de mencionarem assaltos na vizinhança. A frequência dos ônibus que atende a área foi bem avaliada.

JARDIM ATLÂNTICO

Os moradores também demonstraram preocupação com as condições das calçadas. Muitos relataram preferir andar na estrada porque o pavimento geralmente é mais liso. Embora não existam ciclovias, as pessoas se sentem confortáveis em pedalar em outros lugares próximos, onde a infraestrutura é melhor e é possível estar mais perto da natureza.

Andar a pé e de bicicleta foi relatado como meio de se manter fisicamente ativo e não como modo de transporte. No entanto, os jovens expressaram sentimentos positivos sobre utilizar carros porque se sentem mais confortáveis e a salvo de estranhos.

SACO GRANDE

A situação precária das calçadas também foi destacada pelos moradores devido a presença de buracos e lixo que, com um declive íngreme, dificultam a movimentação a pé ou de bicicleta. O sentimento de insegurança, especialmente à noite, foi mencionado, especialmente pela falta de iluminação pública.

Em trechos planos, ao lado da SC-401, os moradores sentem medo de pedalar e lembraram de acidentes que envolveram ciclistas e veículos na rodovia.

FRASES DOS MORADORES

Olivo, da Costeira do Pirajubaé

“Essa calçada é bem desagradável, porque não temos segurança e eles colocam o carro na calçada”.

Tales, do Jardim Atlântico

“Como a calçada é irregular, eu normalmente saio de carro”.

Florbela, do Jardim Atlântico

“Na minha realidade, a mobilidade segura é a que estou fazendo agora, no meu carro”.

Narciso, do Saco Grande

“‘Um professor morreu lá…Sabia que ele morreu de bicicleta? Esta rodovia causa muitos problemas. Eu gostaria de pedalar, mas não pedalo”.

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